Cinco pontos de um comediante – #2 Escrita

Semana passada apresentei à você, querido leitor, um dos cinco pontos de um comediante: o ritmo. Caso tenha perdido, leia clicando aqui, aqui ou aqui. E aqui também. Apenas relembrando, essa história de “cinco pontos de um comediante” eu criei para meu workshop de comédia, o que não representa, em absoluto, uma verdade institucional do stand-up. São apenas impressões e experiências que obtive nos meus anos de carreira. Isso não quer dizer que estão aí todos ou únicos fatores que fazem um humorista. As imagens são meramente ilustrativas.

No episódio de hoje, trago o elemento que, ironicamente, foi o mais difícil, para mim, escrever: a escrita. A dificuldade se coloca no seguinte obstáculo: é algo muito muito particular de cada pessoa e cada comediante. Não apenas o estilo de escrita, mas também o processo criativo de cada pessoa é particular. Existem comediantes que sentam em frente ao computador e escrevem todos os dias, faça chuva, sol, furacão ou terremoto. Outros ficam à espera da graça divina lhes presentear com inspiração e piadas vindas do céu. Alguns escrevem no palco, outros simplesmente contam histórias que aconteceram. Mas não se engane: mesmo os que não escrevem, literalmente falando, estão escrevendo.

A arte de contar histórias pode parecer tentadora à olhos destreinados. “Eu subo lá, conto uma parada que me aconteceu semana passada, e todo mundo ri, não preciso escrever porra nenhuma, pau no cu desse cara que escreve o blog”. Pau no seu cu, meu amigo. Storytelling requer escrita, pontos de risada, distorções cômicas. Assista ao novo especial do John Mulaney no Netflix e observe como ele constrói suas histórias. Não são contos monótonos onde a plateia ri apenas no desfecho. A cada poucos segundos, ele consegue risadas com comentários adicionais. Isso foi escrito, pensado, trabalhado. Não pense que, por melhor comediante que ele seja, o Kid Gorgeous subiu no palco e simplesmente vomitou a historeta por acaso, sem pensar em ter risadas por minuto, em saber onde e como prender a atenção da plateia e, até mesmo, escolher certas palavras em detrimento a outras, apenas por serem mais engraçadas. Contar histórias requer um trabalho de escrita fodido, seja ele sentando na frente do computador ou talhando o material no palco, como um bom e velho artesão.

Outros comediantes preferem as chamadas “one-liners”, que se popularizaram no Brasil pelo termo “piadas curtas”. Elas são independentes, ou seja, não necessitam de piadas anteriores ou posteriores para fazer sentido. Mesmo assim, podem ser agrupadas em um set, orbitando sobre um mesmo tema. Nesse tipo de chiste, é necessária a concisão máxima. É um concentrado de piada. Tudo o que você quer dizer, com o menor número de palavras possíveis, no menor tempo possível. Delicioso. Uma one-liner, para ser bem realizada, precisa de um final completamente surpreendente. Você só tem um tiro, e ele tem que ser certeiro. Caso a plateia preveja o caminho que você vai tomar, meu amigo, você está perdido e seu tiro sairá pela culatra. Engane os malditos! Aqui um exemplo de uma one-liner minha:

“Li uma notícia sobre um professor de escola pública que foi preso por comprar ‘presentes eróticos’ pra uma aluna de 13 anos. Meu Deus. Como é que um professor tem dinheiro pra comprar presente pra alguém?”

Claro que essa piada tem mais de “uma linha”, mas se caracteriza como one-liner por ter raciocínio próprio, começo, meio e fim e não depender de piadas prévias ou posteriores. Posso contar apenas essa piada e seguir para outro assunto, assim como existe a possibilidade de estendê-lo, falando sobre escolas, professores, notícias malucas ou abuso infantil. As probabilidades são infinitas e suculentas.

Em ambos os casos, a procura é pela quantidade de risadas por minuto. Detesto ser chato e repetitivo nesse ponto, mas detesto ainda mais ir assistir a uma noite de open mic onde o coitado tem 5 minutos pra fazer suas piadas e cada uma delas leva um minuto para ser contada. É necessário encurtar os espaços, tirar o ar entre as linhas, deixar a piada compacta. Quanto menos tempo entre uma risada e outra, melhor. Seja contando histórias, piadas curtas, bits, tanto faz. São apenas métodos diferentes para se chegar a um denominador comum: risadas. Não é porque você está contando uma história que será tolerado ficar um minuto e meio sem risadas. Não é porque está fazendo one-liners que você poderá errar três de quatro piadas. Risadas por minuto, não se esqueça.

Sobre o processo de escrever uma piada, sempre tive grandes ressalvas em apresentá-lo pois, como disse anteriormente, esse é um caminho que cada comediante trilha por si só. Meu método pode servir para uns e não para outros. Você pode criar seu próprio processo, onde só consegue escrever piadas trancado no porão de sua casa, vestindo as calcinhas da sua mãe. Problema seu. Mas creio que mal não fará expor minha maneira de escrever e, por favor, não siga isso como uma verdade. É apenas mais um jeito de escrever, assim como existem milhares de outros. Algum deles servirá em você. Assim como as calcinhas de sua mãe.

Para eu compor um set de piadas sobre determinado tema, esse tema necessariamente precisa me tocar de alguma forma. Ou eu o adoro, ou detesto. Se algo me incomoda profundamente, tenho vontade de tocar no assunto. Tenho, confesso, dificuldades em me manter motivado para escrever sobre as notícias da semana. Escrevo? Escrevo. Mas sem um pingo de tesão. “Lula preso”? Não me interessa. “Rato tomando banho”? Engraçado, mas também não mexe comigo. Eu necessito de um fator motivacional que me leve a expressar um ponto de vista sobre o assunto.

Porém, uma vez tendo o assunto que quero falar sobre, sento-me na frente do computador e simplesmente despejo a emoção. “Eu odeio fila de mercado por isso, isso e isso”, “eu amo cachorros por isso, isso e aquilo”, sem buscar, em primeiro plano, a piada. Com a emoção correta, eu consigo mostrar meu ponto de vista e, aí, colocar em forma de piada é a parte mais fácil (ao menos para mim). É como encher forminhas de gelo. Tendo o líquido certo, posso colocar na forminha que quiser, desde as quadradas até as em formato de melancia. Delicioso.

O processo de escrita de piadas é sempre uma dúvida muito grande para quem está começando na comédia. E deveria ser mesmo. Esse é o ganha pão, a parte mais importante de um humorista. O material é a base de sua casa. Usar uma roupa maneira não vai te fazer mais engraçado se você não tiver a base. Palavrões não serão motivos de riso se não tiver a base. Texto é sua base. Nada cresce sem a base. Nunca se esqueça disso.

Quem é mestre em ensinar escrita é a Carol Zoccoli. Aqui estão alguns vídeos dela mostrando a mecânica das piadas, tipos de punchline e mais outras minúcias para quem se interessa. Vejam todos os vídeos dela, vejam vídeos dos outros, vejam comediantes ao vivo e notem como eles preparam as piadas, como distorcem o punchline, com que frequência conseguem risos. Estudem.

Semana que vem posto mais um texto sobre os cinco pontos de um comediante. Caso tenha alguma dúvida, comente abaixo ou nos outros posts. Sugestões sobre temas também são bem-vindas. Um grande abraço e uma dedada.

Anúncios

Cinco pontos de um comediante – #1 Ritmo

O inverno foi duro. Mais longo que o esperado. E frio, gélido, de partir os ossos. Afortunadamente, o outono fora proveitoso e pude armazenar alimento e gordura suficientes para hibernar. Agora regresso, sonolento e com as juntas estralando, com vontade de cheirar as flores e ser picado por abelhas, ambos frutos da primavera que está logo ali na esquina.

O blog está de volta, não se sabe se para a vida toda ou para uma edição extraordinária, mas o importante é estarmos juntos mais uma vez. A razão do regresso é a mesma da partida: aleatória. Ontem, duas pessoas me lembraram sobre o blog, perguntaram se ele estava morto e por que não foram convidadas para o velório. Respondi que seria de caixão fechado e não lhes devia mais explicações. Aprecie o momento e leia o que eu tenho para lhe contar.

Certa feita, elaborei um (bastante raso, admito) workshop de comédia stand-up, no qual desenvolvi a seguinte teoria: um comediante tem 5 pontos fundamentais em seu processo criativo e performance: escrita, ponto de vista, entrega, timing e ritmo. Hoje, abordaremos o ritmo.

Ao contrário do que possa parecer, o ritmo de uma apresentação de stand-up comedy nada tem a ver com falar rápido ou alto, e sim com fluidez e, principalmente, risadas por minuto. Um comediante que fala monótona e pausadamente, que tem um punch a cada 10 ou 15 segundos (como a lenda Steven Wright) tem um ritmo de apresentação muito maior que um cara que sobe no palco pra vencer o campeonato brasileiro de repentistas, sem uma regularidade de piadas que efetivamente funcionam.

Faça um teste. Assista a um vídeo de seu comediante favorito. Não importa quem seja ou qual seu estilo. One-liner, storytelling, pessoal, observacional, todos eles têm uma coisa em comum: o consistente número de risadas por minuto. Cronometre o tempo que ele leva entre uma piada e outra, entre uma risada e outra. Não sei qual comediante você escolheu, mas ouso dizer que esse número nunca será maior que 20 segundos. Por vezes será, inclusive, muito menor. Mas você deve estar encucado: “Existe alguma maneira de melhorar o ritmo da minha apresentação”? Não.

Mentira, existe sim:

Enxugar setups
Aquela velha e cansada técnica que todo mundo sabe, mas poucos põem em prática. Escreva seu texto, veja quantas palavras/frases/linhas existem para chegar ao punchline. Diminua essa distância. Corte palavras, encurte sentenças, deixe a frase mais concisa e clara que puder. Já vi esse dizer atribuído a Hemingway e Carlos Drummond de Andrade, não sei quem o disse, só sei que cabe como uma luva na comédia stand-up: “Escrever é a arte de cortar palavras”.

Tags
Tag é uma coisinha que deve vir depois do punch naquela formulinha mágica de “setup+punch”. Vou exemplificar com uma piada minha:
SETUP: Meu pai me batia quando eu era criança e sei que ele não me batia por mal, ele só fazia isso com medo que eu virasse gay. Graças a isso hoje eu não sou gay, *PUNCHLINE* eu sou masoquista.

A piada poderia acabar por aí. Setup curto, distorção cômica no punch, a piada funciona. Mas que tal colocar uma tag?
TAG: Quando eu transo com uma mulher, eu peço pra ela me chamar de filho e espancar o meu bumbum.

Agora eu tenho duas risadas utilizando apenas um setup. Double de risadas, ótimo, trabalho concluído. Negativo.
TAG: Ela até bate, mas sem a autoridade que eu quero.

Com um único setup, três focos de risada, ótima maneira de acrescentar ritmo ao material.

Colocar mais piadas no texto
Óbvio parece, mas nem todo mundo se toca disso. Se você curte o storytelling, que tão na moda está, não se contente em ter apenas risada ao final de sua historeta. Ninguém merece ou aguenta ficar ouvindo uma pessoa contar uma história de três minutos que supostamente é cômica, mas só se ri no final dela. Mesmo os comediantes que contam histórias longas têm punchlines a cada uma dúzia de segundos.

Essas são apenas algumas maneiras de se conseguir imprimir um melhor ritmo à apresentação. Outro ponto que ajuda é a fluidez do material. Não é gostoso dirigir um carro e nem sentir a mudança de marcha? Na comédia, é a mesma coisa. Cada piada é uma marcha. Se você ficar travando a cada mudança de piada ou mudar da primeira para a quarta marcha, tudo isso fere o seu ritmo. Para tal, é importante ensaiar bastante o texto, saber organizar as piadas dentro de um set de modo que elas se liguem e tenham uma força crescente.

Espero que esse pequeno texto tenha ajudado a quem quer que seja. Vou tentar atualizar com mais frequência o blog, mas para isso preciso da ajuda de você, amigo internauta. Tem alguma dúvida sobre comédia, algum tópico que acha que merece atenção, alguma dificuldade na vida de open mic que queira esclarecer, comente no post contando seu drama que tentarei ajudar-lhe se estiver dentro do meu alcance.

Entrevista Humorista #2 – Lelo Mattos

O Entrevista Humorista de hoje é com um dos comediantes que mais gosto em Curitiba: Lelo Mattos!

Lelo começou sua carreira no stand-up em 2009, no extinto “Café Comédia”, comandado por Fábio Silvestre no bar Era Só o Que Faltava. Atualmente é integrante do grupo Index Risus Stand-up Comedy e se prepara para estrear seu primeiro show solo, inteligentemente batizado de “LELO”.

 

Você é um dos comediantes que está optando pelo “storytelling”, onde o humorista conta uma história e a plateia ri ao longo dela, e não apenas no punch. Quais as principais diferenças entre escrever piadas em “setup + punch” e “storytelling”?
Acredito que duas principais: no estilo “setup+punch”, você tem muito bem definidos o “setup” e o “punch” e pode saber com muito mais facilidade onde está o problema de uma piada ou onde ela pode ser melhor trabalhada. No storytelling, o setup está ao longo da piada e o punch… também. Às vezes o que era pra ser um setup, na sua concepção de escrita, vira um punchline fortíssimo dependendo de como você está se sentindo naquele dia, o que nos leva ao segundo ponto: é impossível fazer uma bit de storytelling sem se comprometer fisicamente com ela. Você pode fazer uma sequência de steup+punch’s sem mexer um músculo ou com nuances quase artificiais na hora do punchline e mesmo assim ter um set incrível. Mas uma storytelling sem sentimento vira palestra. Esse é um ponto muito importante: você se torna um punchline também. Sua atitude, sua expressão, seu tom de voz, seu sentimento. Tudo isso conta pro delivery de uma bit desse tipo.

O que te fez optar pelo storytelling?
Quando comecei, tinha duas grandes preocupações e objetivos: primeiro, não queria fazer um humor “apelativo”, chegando ao ponto de sequer usar palavrões no palco por boa parte da minha carreira. E segundo, queria fazer algo diferente de tudo o que havia no momento. Essa aversão ao clichê é coisa antiga pra mim, embora naquela época não tivesse nada a ver com conhecimento de comédia. Hoje falo palavrão sem me preocupar e mudei um pouco minha concepção de clichê. Por exemplo, quando comecei e quis escrever um material sobre Curitiba, descartei tudo o que já falavam e procurei algo que ninguém nunca tinha abordado. Assim nasceu a bit sobre o pinhão. Recentemente escrevi mais um material, mas falando exatamente do clichê “curitibano não fala com estranhos”. O resultado foi interessante. Acabei esmiuçando o clichê, sem me preocupar que era um clichê. Tratei como um tema comum e saiu uma bit bem legal. Enfim, respondendo à pergunta, acho que o que foi decisivo para que eu fosse pro caminho do storytelling foi a exposição brutal à comédia estrangeira que eu me coloquei. Consumi e consumo até hoje horas e horas de material estrangeiro e os consumo como espectador o tempo inteiro: dou sonoras gargalhadas, sou surpreendido por callbacks e há algum tempo decidi que queria ser capaz de fazer isso também, entende? Agradar gente chata. Porque a gente fica chato pra cacete quando trabalha com humor.

O seu estilo de material é realmente mais parecido com o de comediantes estrangeiros do que o encontrado aqui no Brasil, com piadas não tão demarcadas. Como você observa a reação do público com esse estilo de escrita?
Nesse estilo é um pouco mais difícil ler a reação da plateia. Quando você demarca a piada, as pessoas vão rir se ela for boa e permanecerão em silêncio (ou conversarão para cacete, dependendo do nível de educação delas) se ela for ruim. Já no storytelling, você deve acompanhar as nuances do comportamento da plateia. Um silêncio completo, por exemplo, nem sempre significa que a piada está ruim, pode significar apenas que você conseguiu a atenção de que precisava e que o próximo punchline só não vai funcionar se for realmente sem graça. Para mim também facilita muito conseguir enxergar os rostos das pessoas, para saber se elas estão se deixando levar pelo que eu estou fazendo no palco.

E a plateia, como reage a essa maneira de contar piadas? Me dá a impressão que muita gente ainda precisa daquela “indicação” de que a piada terminou para, aí sim, rir.
Definitivamente. Muita gente não esboça nenhuma reação com “…e escondi minha carteira”, mas ri como um bebê de vídeo do YouTube com “…e escondi minha carteira, porque tinha um corinthiano do lado”. Mas tudo o que foi dito antes naquela bit já era suficiente pro ato de “esconder a carteira” ser engraçado. A menção do corinthiano é o Liminha pulando com uma placa de “risadas” no meio da plateia. A forma que eu encontrei de escapar disso no storytelling foi justamente me entregar mais emocionalmente às bits. Como se estivesse escrevendo uma sitcom. Na elaboração das tramas de uma sitcom, você joga tudo às últimas consequências: se um personagem está com fome, ele não come há três dias. Se perde o emprego, ele é assaltado e despejado do apartamento no mesmo dia. É sempre o mais intenso possível. É isso o que eu procuro nas minhas bits. Colocar uma maior intensidade emocional em cada informação e punchline.

Você é um humorista que costuma contar as piadas exatamente como elas foram escritas. Esse método, inclusive, era utilizado por George Carlin. Como manter a naturalidade de um material, mesmo sendo tão literal?
É bem simples, na verdade: eu escrevo falando. Literalmente. Eu falo a frase antes de escrevê-las, ou seja, só vai pro papel aquilo que sonoramente me parece engraçado. É uma cena ridícula de se ver, mas ajuda muito na hora de passar naturalidade, porque mesmo que eu esteja fazendo a piada pela primeira vez no palco, eu já contei aquela história várias vezes antes. Outro método que eu utilizo, mais especificamente para o material puramente de storytelling, é criar uma sequência lógica de eventos, em vez de escrever ipsis litteris.

É normal que um comediante altere a forma com que ele escreve o material ao longo de sua trajetória na comédia. Você, com cinco anos de carreira, como vê as piadas que escreve hoje, em comparação com as do início de sua carreira?
Mudei completamente, depois voltei, depois mudei de novo, depois viajei muito no que eu queria realmente fazer, depois voltei à primeira mudança e hoje nem sei mais o que estou fazendo. Na verdade acho que o meu material amadureceu junto comigo. Quando eu comecei a escrever comédia, tinha 19 anos e só sabia beber e empurrar a faculdade com a barriga. Hoje vou completar 25 anos no fim do ano, estou casado, tenho uma filha e espero outra. Não dava pra continuar com a mesma cabeça.

Você falou que o silêncio não necessariamente significa que a plateia não está gostando do show. O que caracteriza um bom show e um bom material?
Calma, eu falei que não significa que a plateia não está gostando DA PIADA! Silêncio durante o show todo deve ser preocupante independente do estilo. O que quis dizer é que o silêncio pode significar a atenção que você conquistou. Acho que um bom show é caracterizado pelo atendimento à expectativa da plateia e surpresa dos que não conheciam o comediante. Em termos técnicos, acredito que um bom show é aquele escrito com cuidado, estruturado para que as bits tenham uma harmonia entre si. Não acredito que a reação da plateia deva ser uma senóide: picos ritmados de risadas, sempre subindo e descendo. Acho que a reação deve ser como um medidor de batimentos cardíacos de um protagonista de filme de terror: sobe,desce, sobe mais, desce, sobe um pouquinho e de repente sobe pra cacete… enfim, você entendeu. Um bom material, a meu ver, é aquele que você escreve sozinho. Inteiramente sozinho. Sem se valer de pontos de vista anteriores, leia-se clichês, nem de coisas que você viu alguém fazer e achou engraçado. Prefiro muito mais o cara desgraçado que faz a vida merda dele virar comédia ao que pega algo que já é engraçado por natureza ou potencialmente engraçado e simplesmente reproduz a graça daquilo de outra maneira. Gosto muito de material crítico e dos punchs “não acredito que ele falou isso”, seja por ser “politicamente incorreto” ou por simplesmente jogar na cara da própria plateia as coisas hipócritas que eles e todos nós fazemos todos os dias.

Você começou a fazer stand-up e parou por um tempo, retornando quase um ano depois. Primeiro, por que você parou e como foi esse retorno? Você utilizava o mesmo material, teve que escrever coisas novas? Não achava que o material antigo era bom o suficiente?
Bom, eu parei porque sou um imbecil. Foi em 2010, fiz um show só nesse ano, e voltei apenas em julho de 2011. Parei por causa da faculdade, acredita? Porque tinha começado a reprovar e ainda morava com meus pais, aí meu pai mandou um “chega dessa porra, vai estudar”, porque eu tava deslumbrado, achando que tinha talento pra ser o melhor comediante do mundo em meses. Fiquei um ano e meio fora, acompanhei muito pouco do cenário, falei muito pouco com os comediantes que eu conhecia (quase nada) e fui sendo infeliz para caralho. Aí voltei pro lugar de onde nunca deveria ter saído: o palco. Mas voltei do zero, eu nem lembrava mais as bits que eu fazia. Eu havia escrito cinco minutos de material ao longo desse ano e meio de afastamento, só por saudades mesmo e fui testar. Rolou tudo muito bem e ali eu já tinha uma base pra recomeçar. Por um ano, fiz cinco minutos diferentes toda semana, pra firmar o pulso e começar a trabalhar de verdade a parte difícil: persona, delivery, timing, postura, crowdwork… Mas, de qualquer forma, não daria pra usar as piadas antigas porque , como eu falei antes, era outra cabeça, outras preocupações… Se bem que fiz uma ou duas piadas que eu consegui me lembrar daquela época , que foram “reeditadas” e ficaram legais até.

Além de comediante, você também é professor. Como é conciliar essas duas carreiras? Você consegue estabelecer relações entre as duas?
Procuro deixar as duas coisas bem separadas. Eu nunca falo aos meus alunos que sou comediante. Eles sempre descobrem eventualmente, é claro, mas não graças a mim. Em sala eu não sou engraçado o tempo inteiro, não acho que seja o momento, por isso sou comediante em todos os aspectos da minha vida, exceto em sala de aula. Até porque eu trabalho com adolescentes nessa geração em que os pais dão mais limites ao cachorro do que aos filhos, então segurar quarenta/cinquenta alunos por turma nessas condições não é fácil se você resolve ser a miss simpatia. Inclusive, já fiz algumas bits sobre ser professor, mas não ficaram muito boas acho que justamente por esse ser um assunto tão sério pra mim.

Eu te acompanho desde o começo de sua carreira e, consequentemente, seu amadurecimento. Você é um dos comediantes que mais aproveita as coisas que acontecem na sua vida para transformá-las em piadas. Utilizando a famosa frase de Judy Carter, você acha que a própria vida de cada pessoa é a maior inspiração para a criação de seu material?
Sim e não. Acho que nem todo mundo tem uma vida interessante o suficiente, vamos ser sinceros. Acho que mais do que a vida, a maior inspiração deve ser a forma como essa pessoa vê a vida. Um comediante deve estar atento o tempo todo. Um comediante vê um aviso de “proibido fumar” dentro de um ônibus e não pensa “ok, não vou fumar”, ele deve ver esse aviso e viajar por horas sobre aquilo. A forma como ele viaja é o que define o estilo, a persona e a escrita dele. Pessoas “normais” não ligam para detalhes. Comediantes, sim. E sobre a própria vida ser inspiração para o material, acho que sempre pode ser, mas só vai ser engraçado se você costuma se dar mal. Esse é o ser humano, aceite. Eu SEMPRE fui um cara muito azarado, talvez por isso eu tenha criado um “pessimismo cômico” para analisar até os aspectos mais maravilhosos da minha própria vida e levá-los pro palco. Hoje sou muito feliz pessoalmente, mas consigo me imaginar não sendo e escrever sobre isso. Você deve ter reparado, de tudo o que eu levo sobre a minha vida ao palco, eu me dou bem em 0% dos casos.

Você é sempre figura presente em noites de open mic, para testar piadas novas. E, por conta disso, tem muito contato com os humoristas que ainda estão em início de carreira. Você busca passar para eles experiências que obteve?
Já busquei mais. Sinceramente, acompanhei três ou quatro gerações de open-mics que seguiram tentando até hoje e tive uma certa “decepção” de uns anos pra cá. Sempre há opens que acham que já estão prontos, opens que querem cachê desde o segundo show, opens que se sentem superiores aos outros, opens que são fofoqueiros demais, chatos demais, medrosos demais. Na verdade não é preciso ser open pra isso. Comediantes, pedreiros, veterinários, todas as profissões apresentam exemplares desse tipo. Mas é preocupante quando eles são maioria. Posso dizer que atualmente há no máximo uns quatro opens com quem eu ainda converso seriamente sobre comédia.

Ainda sobre quem está começando: percebo que muitos comediantes que estão iniciando agora, já estão começando com alguns vícios no stand-up, que vão de temas abordados até o delivery, o que deixa todas as performances muito parecidas. O que você diria para o open mic que quer se destacar no circuito?
Seja você mesmo, idiota. “Você” pode acabar sendo mais engraçado que qualquer um dos caras que você admira, se você parar de tentar ser esses caras que você admira e deixar que “você” se destaque. Isso é em todos os sentidos: seu jeito, suas ideias, seus medos, suas mágoas. Deixe que tudo isso seja SEU. Não inventa de falar de relacionamento se você é um nerd virgem. Fala sobre ser nerd virgem! Eu prometo a você que vai ser mil vezes mais engraçado. E entregue a piada como você acha que ela deve ser entregue, não como “fulano de tal” entregaria. Se você continuar imitando delivery, vai começar a imitar escrita, se começar a imitar escrita, vai começar a imitar timing e aí… parabéns! “Você” morreu e uma cópia bizarra de “fulano de tal” que nunca vai se destacar acaba de ocupar seu espaço. Seja você mesmo. Idiota. (Tough love)

 

Você pode encontrar o Lelo indo ao:
Twitter: @lelomattos
Twitter em inglês: @lelomattos_eng
Facebook: Página do Lelo
Instagram: @lelomattos
Agenda: flavors.me

*entrevista realizada por e-mail.