Cinco pontos de um comediante – #2 Escrita

Semana passada apresentei à você, querido leitor, um dos cinco pontos de um comediante: o ritmo. Caso tenha perdido, leia clicando aqui, aqui ou aqui. E aqui também. Apenas relembrando, essa história de “cinco pontos de um comediante” eu criei para meu workshop de comédia, o que não representa, em absoluto, uma verdade institucional do stand-up. São apenas impressões e experiências que obtive nos meus anos de carreira. Isso não quer dizer que estão aí todos ou únicos fatores que fazem um humorista. As imagens são meramente ilustrativas.

No episódio de hoje, trago o elemento que, ironicamente, foi o mais difícil, para mim, escrever: a escrita. A dificuldade se coloca no seguinte obstáculo: é algo muito muito particular de cada pessoa e cada comediante. Não apenas o estilo de escrita, mas também o processo criativo de cada pessoa é particular. Existem comediantes que sentam em frente ao computador e escrevem todos os dias, faça chuva, sol, furacão ou terremoto. Outros ficam à espera da graça divina lhes presentear com inspiração e piadas vindas do céu. Alguns escrevem no palco, outros simplesmente contam histórias que aconteceram. Mas não se engane: mesmo os que não escrevem, literalmente falando, estão escrevendo.

A arte de contar histórias pode parecer tentadora à olhos destreinados. “Eu subo lá, conto uma parada que me aconteceu semana passada, e todo mundo ri, não preciso escrever porra nenhuma, pau no cu desse cara que escreve o blog”. Pau no seu cu, meu amigo. Storytelling requer escrita, pontos de risada, distorções cômicas. Assista ao novo especial do John Mulaney no Netflix e observe como ele constrói suas histórias. Não são contos monótonos onde a plateia ri apenas no desfecho. A cada poucos segundos, ele consegue risadas com comentários adicionais. Isso foi escrito, pensado, trabalhado. Não pense que, por melhor comediante que ele seja, o Kid Gorgeous subiu no palco e simplesmente vomitou a historeta por acaso, sem pensar em ter risadas por minuto, em saber onde e como prender a atenção da plateia e, até mesmo, escolher certas palavras em detrimento a outras, apenas por serem mais engraçadas. Contar histórias requer um trabalho de escrita fodido, seja ele sentando na frente do computador ou talhando o material no palco, como um bom e velho artesão.

Outros comediantes preferem as chamadas “one-liners”, que se popularizaram no Brasil pelo termo “piadas curtas”. Elas são independentes, ou seja, não necessitam de piadas anteriores ou posteriores para fazer sentido. Mesmo assim, podem ser agrupadas em um set, orbitando sobre um mesmo tema. Nesse tipo de chiste, é necessária a concisão máxima. É um concentrado de piada. Tudo o que você quer dizer, com o menor número de palavras possíveis, no menor tempo possível. Delicioso. Uma one-liner, para ser bem realizada, precisa de um final completamente surpreendente. Você só tem um tiro, e ele tem que ser certeiro. Caso a plateia preveja o caminho que você vai tomar, meu amigo, você está perdido e seu tiro sairá pela culatra. Engane os malditos! Aqui um exemplo de uma one-liner minha:

“Li uma notícia sobre um professor de escola pública que foi preso por comprar ‘presentes eróticos’ pra uma aluna de 13 anos. Meu Deus. Como é que um professor tem dinheiro pra comprar presente pra alguém?”

Claro que essa piada tem mais de “uma linha”, mas se caracteriza como one-liner por ter raciocínio próprio, começo, meio e fim e não depender de piadas prévias ou posteriores. Posso contar apenas essa piada e seguir para outro assunto, assim como existe a possibilidade de estendê-lo, falando sobre escolas, professores, notícias malucas ou abuso infantil. As probabilidades são infinitas e suculentas.

Em ambos os casos, a procura é pela quantidade de risadas por minuto. Detesto ser chato e repetitivo nesse ponto, mas detesto ainda mais ir assistir a uma noite de open mic onde o coitado tem 5 minutos pra fazer suas piadas e cada uma delas leva um minuto para ser contada. É necessário encurtar os espaços, tirar o ar entre as linhas, deixar a piada compacta. Quanto menos tempo entre uma risada e outra, melhor. Seja contando histórias, piadas curtas, bits, tanto faz. São apenas métodos diferentes para se chegar a um denominador comum: risadas. Não é porque você está contando uma história que será tolerado ficar um minuto e meio sem risadas. Não é porque está fazendo one-liners que você poderá errar três de quatro piadas. Risadas por minuto, não se esqueça.

Sobre o processo de escrever uma piada, sempre tive grandes ressalvas em apresentá-lo pois, como disse anteriormente, esse é um caminho que cada comediante trilha por si só. Meu método pode servir para uns e não para outros. Você pode criar seu próprio processo, onde só consegue escrever piadas trancado no porão de sua casa, vestindo as calcinhas da sua mãe. Problema seu. Mas creio que mal não fará expor minha maneira de escrever e, por favor, não siga isso como uma verdade. É apenas mais um jeito de escrever, assim como existem milhares de outros. Algum deles servirá em você. Assim como as calcinhas de sua mãe.

Para eu compor um set de piadas sobre determinado tema, esse tema necessariamente precisa me tocar de alguma forma. Ou eu o adoro, ou detesto. Se algo me incomoda profundamente, tenho vontade de tocar no assunto. Tenho, confesso, dificuldades em me manter motivado para escrever sobre as notícias da semana. Escrevo? Escrevo. Mas sem um pingo de tesão. “Lula preso”? Não me interessa. “Rato tomando banho”? Engraçado, mas também não mexe comigo. Eu necessito de um fator motivacional que me leve a expressar um ponto de vista sobre o assunto.

Porém, uma vez tendo o assunto que quero falar sobre, sento-me na frente do computador e simplesmente despejo a emoção. “Eu odeio fila de mercado por isso, isso e isso”, “eu amo cachorros por isso, isso e aquilo”, sem buscar, em primeiro plano, a piada. Com a emoção correta, eu consigo mostrar meu ponto de vista e, aí, colocar em forma de piada é a parte mais fácil (ao menos para mim). É como encher forminhas de gelo. Tendo o líquido certo, posso colocar na forminha que quiser, desde as quadradas até as em formato de melancia. Delicioso.

O processo de escrita de piadas é sempre uma dúvida muito grande para quem está começando na comédia. E deveria ser mesmo. Esse é o ganha pão, a parte mais importante de um humorista. O material é a base de sua casa. Usar uma roupa maneira não vai te fazer mais engraçado se você não tiver a base. Palavrões não serão motivos de riso se não tiver a base. Texto é sua base. Nada cresce sem a base. Nunca se esqueça disso.

Quem é mestre em ensinar escrita é a Carol Zoccoli. Aqui estão alguns vídeos dela mostrando a mecânica das piadas, tipos de punchline e mais outras minúcias para quem se interessa. Vejam todos os vídeos dela, vejam vídeos dos outros, vejam comediantes ao vivo e notem como eles preparam as piadas, como distorcem o punchline, com que frequência conseguem risos. Estudem.

Semana que vem posto mais um texto sobre os cinco pontos de um comediante. Caso tenha alguma dúvida, comente abaixo ou nos outros posts. Sugestões sobre temas também são bem-vindas. Um grande abraço e uma dedada.

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Cinco pontos de um comediante – #1 Ritmo

O inverno foi duro. Mais longo que o esperado. E frio, gélido, de partir os ossos. Afortunadamente, o outono fora proveitoso e pude armazenar alimento e gordura suficientes para hibernar. Agora regresso, sonolento e com as juntas estralando, com vontade de cheirar as flores e ser picado por abelhas, ambos frutos da primavera que está logo ali na esquina.

O blog está de volta, não se sabe se para a vida toda ou para uma edição extraordinária, mas o importante é estarmos juntos mais uma vez. A razão do regresso é a mesma da partida: aleatória. Ontem, duas pessoas me lembraram sobre o blog, perguntaram se ele estava morto e por que não foram convidadas para o velório. Respondi que seria de caixão fechado e não lhes devia mais explicações. Aprecie o momento e leia o que eu tenho para lhe contar.

Certa feita, elaborei um (bastante raso, admito) workshop de comédia stand-up, no qual desenvolvi a seguinte teoria: um comediante tem 5 pontos fundamentais em seu processo criativo e performance: escrita, ponto de vista, entrega, timing e ritmo. Hoje, abordaremos o ritmo.

Ao contrário do que possa parecer, o ritmo de uma apresentação de stand-up comedy nada tem a ver com falar rápido ou alto, e sim com fluidez e, principalmente, risadas por minuto. Um comediante que fala monótona e pausadamente, que tem um punch a cada 10 ou 15 segundos (como a lenda Steven Wright) tem um ritmo de apresentação muito maior que um cara que sobe no palco pra vencer o campeonato brasileiro de repentistas, sem uma regularidade de piadas que efetivamente funcionam.

Faça um teste. Assista a um vídeo de seu comediante favorito. Não importa quem seja ou qual seu estilo. One-liner, storytelling, pessoal, observacional, todos eles têm uma coisa em comum: o consistente número de risadas por minuto. Cronometre o tempo que ele leva entre uma piada e outra, entre uma risada e outra. Não sei qual comediante você escolheu, mas ouso dizer que esse número nunca será maior que 20 segundos. Por vezes será, inclusive, muito menor. Mas você deve estar encucado: “Existe alguma maneira de melhorar o ritmo da minha apresentação”? Não.

Mentira, existe sim:

Enxugar setups
Aquela velha e cansada técnica que todo mundo sabe, mas poucos põem em prática. Escreva seu texto, veja quantas palavras/frases/linhas existem para chegar ao punchline. Diminua essa distância. Corte palavras, encurte sentenças, deixe a frase mais concisa e clara que puder. Já vi esse dizer atribuído a Hemingway e Carlos Drummond de Andrade, não sei quem o disse, só sei que cabe como uma luva na comédia stand-up: “Escrever é a arte de cortar palavras”.

Tags
Tag é uma coisinha que deve vir depois do punch naquela formulinha mágica de “setup+punch”. Vou exemplificar com uma piada minha:
SETUP: Meu pai me batia quando eu era criança e sei que ele não me batia por mal, ele só fazia isso com medo que eu virasse gay. Graças a isso hoje eu não sou gay, *PUNCHLINE* eu sou masoquista.

A piada poderia acabar por aí. Setup curto, distorção cômica no punch, a piada funciona. Mas que tal colocar uma tag?
TAG: Quando eu transo com uma mulher, eu peço pra ela me chamar de filho e espancar o meu bumbum.

Agora eu tenho duas risadas utilizando apenas um setup. Double de risadas, ótimo, trabalho concluído. Negativo.
TAG: Ela até bate, mas sem a autoridade que eu quero.

Com um único setup, três focos de risada, ótima maneira de acrescentar ritmo ao material.

Colocar mais piadas no texto
Óbvio parece, mas nem todo mundo se toca disso. Se você curte o storytelling, que tão na moda está, não se contente em ter apenas risada ao final de sua historeta. Ninguém merece ou aguenta ficar ouvindo uma pessoa contar uma história de três minutos que supostamente é cômica, mas só se ri no final dela. Mesmo os comediantes que contam histórias longas têm punchlines a cada uma dúzia de segundos.

Essas são apenas algumas maneiras de se conseguir imprimir um melhor ritmo à apresentação. Outro ponto que ajuda é a fluidez do material. Não é gostoso dirigir um carro e nem sentir a mudança de marcha? Na comédia, é a mesma coisa. Cada piada é uma marcha. Se você ficar travando a cada mudança de piada ou mudar da primeira para a quarta marcha, tudo isso fere o seu ritmo. Para tal, é importante ensaiar bastante o texto, saber organizar as piadas dentro de um set de modo que elas se liguem e tenham uma força crescente.

Espero que esse pequeno texto tenha ajudado a quem quer que seja. Vou tentar atualizar com mais frequência o blog, mas para isso preciso da ajuda de você, amigo internauta. Tem alguma dúvida sobre comédia, algum tópico que acha que merece atenção, alguma dificuldade na vida de open mic que queira esclarecer, comente no post contando seu drama que tentarei ajudar-lhe se estiver dentro do meu alcance.

Tente SER um comediante

Uma reclamação comum à beça entre comediantes é que o mercado do stand-up comedy está ficando saturado. Todo dia surgem mais e mais humoristas e os shows estão ficando diminutos. Verdade. Apesar de não concordar que exista um inchaço no mercado (vamos lá, não existem sequer 10 comedy clubs no país todo e nem metade das capitais contam com grupos de stand-up), acredito sim que há uma falta de mão-de-obra qualificada. Abundam “humoristas”, com aspas, escasseiam HUMORISTAS, em letras garrafais.

A internet é uma das mães da comédia stand-up no Brasil. É por ela que vários comediantes divulgaram e ainda divulgam seus trabalhos. É um meio simples, rápido, eficaz e, a princípio, gratuito. Mas nem tudo são flores e unicórnios no belo mundo da internet. Graças à essa facilidade em autopromoção, todos os dias somos afogados por convites para curtir páginas de comediantes que desconhecemos. E desconhecemos ou porque nunca tivemos contato, ou porque não são comediantes mesmo.

Percorrendo não apenas as redes sociais, mas também o mundo real, percebo a crescente sede de humoristas iniciantes por curtidas, seguidores, visualizações e compartilhamentos. Todo open mic tem uma página, uma agenda da semana, uma logomarca, um vídeo que ele espera que bombe e o leve ao estrelato. E, não me entendam mal, cada um tem o direito de divulgar seu trabalho e buscar algum tipo de sucesso. Por mim você pode colocar um outdoor no meio da cidade com a sua foto enrolado no fio de um microfone seguida dos dizeres: “Sou o mais pica, me contrata”. Porém, noto que existem muitos que se preocupam mais em atingir 10 mil curtidas em sua página no Facebook do que em construir 10 bons minutos de material no palco. Se empenham mais em parecer um comediante do que em ser um.

O que faz alguém ser comediante não é o número de visualizações que ele tem no Youtube, nem a quantidade de seguidores no Twitter, tampouco o número de curtidas no Instagram. É o palco. O bom, velho, e maldito palco. O público do bar não se importa em quem tem mais seguidores no Snapchat, e sim em quem é mais engraçado, quem tem o melhor material. Criar uma página no face é fácil. Difícil é criar uma piada foda e original.

Acho ótimo que muitos open mics tenham a consciência de que é necessário ter um canal para divulgar seu trabalho para o público. Muitos humoristas com anos de carreira não têm site ou sequer uma página decente (me incluo nesse grupo de preguiçosos). Mas preocupe-se, primeiramente, em ter um bom trabalho para divulgar. Se empenhe mais em fazer shows do que em divulgá-los. Preocupe-se mais em conseguir escrever 10 minutos ótimos do que fazer com que seu vídeo tenha 100 mil visualizações. É como a Chiquinha, que compra um líquido para polir objetos de prata sem ter nenhum objeto de prata em casa.

Não quero dizer que open mics não devem ter suas páginas, projetos de Youtube, agendas da semana ou vídeos compartilhados. Façam à vontade. Só aconselho que estabeleçam prioridades e sempre, sempre e sempre coloquem como prioridade número 1 melhorar como humorista, escrever piadas mais engraçadas, um set melhor construído, fazer um show cada vez melhor. Quem sabe, se você fizer um show muito bom, alguém que te assistiu queira curtir a sua página.

Porque não adianta tentar parecer um comediante. Tente SER um comediante.

Como testar material

Todo comediante é um pouco masoquista. Bem, talvez masoquista não seja o termo que procuro. Um humorista não necessariamente deve gostar do sofrimento, mas aprender a lidar com ele a cada minuto em que está no palco. Já ouviu falar que todo atleta de alto rendimento tem de conviver com dores? Então é isso. Um comediante é um atleta de alto rendimento. Eu sou um atleta de alto rendimento. Nos vemos nas Olimpíadas.

Não pensem vocês que esse papo de lidar com sofrimento ou dor tem a ver com depressão, melancolia, ou tristeza (tem também). A angústia a qual me refiro é no trato comediante-plateia. Jerry Seinfeld disse uma vez (provavelmente mais de uma. Meu palpite é 34 vezes) que ninguém é mais julgado, na sociedade civilizada, que um comediante stand-up. E isso é a mais pura verdade. A cada piada que um humorista conta, um julgamento ocorre. Se a plateia ri, o coitado é absolvido. Se o silêncio imperar, ele é condenado. E tal corte marcial do chiste tem seus lados bom e ruim.

A parte ruim é, lógico, a pressão de ser avaliado a cada piada contada. Ter a obrigação de fazer um monte de estranhos rirem após uma historinha que dura 15 ou 20 segundos é, analisando friamente, insano. Isso sem contar o fato de que essa experiência deve ser repetida dezenas e dezenas de vezes em uma apresentação de 10 minutos.

O lado bom, é que cada piada significa uma chance de recomeçar. Você foi condenado após uma piada ruim? Terá a oportunidade de ser absolvido na próxima. Toda piada é um julgamento em separado. Mas isso também, olha só, tem um lado ruim. A parte chata é que, se você contar uma piada muito boa, digna de aplausos e gritinhos, a próxima tem que ser boa também. Essa piada magnífica não serve de nada se as duas seguintes não funcionarem. Você foi absolvido após uma piada boa? Existe a chance de ser condenado na próxima. Toda piada é um julgamento em separado.

E, se todo esse processo parece assustador, mesmo utilizando um material “garantido”, imagine só o caos interno que enfrenta um comediante quando vai testar piadas novas. E esse, senhoras e senhores, é o tema de hoje.

Escrever e apresentar um novo material é parte constante e também muito importante na vida de qualquer humorista, e cada um procede de um jeito na hora de testar piadocas novas. Alguns estreiam uma piada de cada vez, a fim de montar um set completo ao final de um determinado período. Outros experimentam trechos maiores, de dois, três ou quatro minutos, e há também aqueles que tentam entradas inteiras inéditas, de 10 ou 15 minutos. Na minha ótica, todas essas maneiras de testar piadas têm seus prós e contras, cada comediante segue a que lhe deixa mais confortável. Mas, certamente, há métodos mais seguros que outros.

Testar piadas individualmente, uma a uma, é a maneira mais segura e demorada para conseguir material novo, talvez a mais indicada para open mics. Experimentar bits, de três ou quatro minutos sobre um mesmo tema, creio ser o mais normal entre os humoristas. E, por fim, fazer entradas inteiras novas é o método mais arriscado de criar texto e, que eu saiba, é o menos utilizado atualmente. Particularmente, usei essa ferramenta apenas uma vez e foi bastante ruim. Mas acho que a tentativa valeu a pena e, por que não, possa ser utilizada novamente.

Abrir uma apresentação com piadas novas não é uma boa ideia. Não vou dizer que você nunca deva utilizar piadas estreantes na abertura, porque acredito que o stand-up também deve ser um espaço para experimentação e, caso você sinta-se confiante para tal, é sua conta que está em risco. Mas creio que não há nenhuma vantagem em se abrir com material novo, além de ser uma prática recheada de perigos. A abertura é um dos momentos mais importantes de sua apresentação, e um início capenga vai interferir no bom andamento do show. O problema de abrir com piadas novas é que não se sabe como elas farão o público reagir. E impossível definir qual o nível de risadas que uma piada ou material novo pode alcançar. Claro, sabe-se que alguns temas são mais fáceis de se obter riso, como os velhos “corinthiano(ou quem mora longe)-ladrão”, “são-paulino(ou gaúcho)-gay”, “Preta Gil(Péricles ou Arlindo Cruz)-gorda”, além de estereótipos em geral. Se você está pensando em fazer piadas com essas lógicas diante de uma plateia, faça um favor para todos e nem saia de casa. O mundo não precisa de mais piadas como essas.

E, além da imprevisibilidade do material novo, outro obstáculo que o comediante enfrenta ao abrir com piadas novas é o seu próprio nervosismo. Já há uma tensão normal que envolve o começo da apresentação, assim como há ansiedade quando se testa algo novo. Juntar as duas não me parece inteligente. “Mas Pedro, então qual o momento certo para que eu insira minhas piadas novas”? O melhor é colocar as piadas novas entre duas que funcionem bem. Essa é uma recomendação clássica do stand-up. Dessa maneira, se impede que o rimo do show caia caso o material novo não funcione. Mas acho que vale a pena aprofundar um pouquinho nesse tópico e falar sobre a organização do material dentro de um set. Em 10 ou 15 minutos de apresentação, há tempo de se fazer uma abertura bem caprichada, de três ou quatro minutos, para aí sim introduzir as coisas novas. Digamos que o material estreante tenha três minutos. Ao término dele, serão sete minutos de apresentação, o que deixa tempo suficiente para realizar um bom final e fechar em alta. Eu, particularmente, não gosto de colocar um material novo exatamente no meio da apresentação. Procuro encaixá-lo entre o início e o meio, ou da metade para o final, dependendo da plateia. Diante de um público mais fácil, em que a abertura do show foi o suficiente para fazer com que eles se soltassem, coloco o texto novo antes da metade do show. Já confrontando plateias mais difíceis, que não riem tanto, deixo as piadas novas para a segunda metade da apresentação, deixando mais tempo para preparar o terreno com um material “garantido”. Prefiro esses métodos pois me incomoda que o miolo da apresentação seja o seu ponto fraco. Não sei exatamente o motivo, mas isso me dá uma sensação ruim. Mas, como disse antes, cada comediante tem sua maneira de proceder, não há certo ou errado.

Mas, e no caso de nossos pequenos open mics, como eles testarão piadas novas em seus preciosos 5 minutos? Antes de falar sobre isso, quero aqui ressaltar outra recomendação do stand-up que, apesar de clássica hoje, não tive acesso na minha época de iniciante: mais importante que ficar fazendo piadas novas todo show, é o open mic conseguir construir um set de cinco minutos muito bons, que funcionem em praticamente qualquer situação. Claro que, para chegar a isso, é importante a experimentação de material. Mas, nessa fase da carreira, é necessária uma cautela maior. Quando eu comecei, me preocupava em renovar o texto toda hora, sendo que o antigo nem estava bom ainda, e isso atrasou um pouco a minha evolução.

Como todo open mic tem, no máximo, cinco minutos para ficar no palco, testar um bloco de piadas de três minutos, por exemplo, me parece arriscado. Creio que a melhor tática é usar o conta-gotas, como disse lá no começo do post. Trabalhar 1 minuto por vez me parece um número ideal. “Poxa, mas um minuto é muito pouco”. Um minuto é tempo suficiente para testar três, quatro, quem sabe cinco piadas, o que é bastante coisa. E, lembre-se: 1 minuto corresponde a 20% do tempo da sua apresentação. Não é pouco. Quando esse minuto estiver nivelado com o restante do material (que eu suponho ser um nível bom, que arranque risadas de um certo volume frequentemente), você vai para outro minuto. Lapidando e deixando esse novo minuto na mesma condição dos demais, parte para um novo.

Essa é uma maneira muito segura de renovar o seu material sem deixar de fazer boas apresentações, além do fato de que trabalhar e deixar no ponto 1 minuto de piadas é muito mais fácil que três ou cinco minutos. Eu garanto que, se você for um bom open mic e trabalhar duro, no final de um ano você terá 12 ou 15 minutos bons de texto, o que pode (possibilidade, não garantia) te levar a se apresentar como canja ou convidado em alguns shows ou, no mínimo, significa que você terá três sets diferentes, do mesmo nível, para apresentar como open mic.

Há um tempo eu fiz uma sessão aqui no blog chamada “Testando Piadas“, onde eu mostrava como era a minha construção de um texto novo. Clique aqui para ver esses posts e, quem sabe, eu volte com essa sessão tão legal.

Deixe seu comentário aqui ou no facebook, divulgue para os amigos, compartilhe o link e, principalmente, dê sugestões para posts futuros. Sobre o que você quer ler aqui n’O Nascimento de uma Piada?

Abre-fecha

Uma dúvida é constante na cabeça de comediantes, novos ou experientes: qual é a melhor piada para abrir? E qual a ideal para encerrar uma apresentação? Existem muitas teorias sobre a escolha mais apropriada. Alguns dizem que o humorista deve abrir o show com sua melhor piada e fechar com a segunda melhor. Outros afirmam que deve-se começar com a segunda melhor, deixando a melhor para o encerramento. Acredito que, por si só, nenhuma das alternativas se sustentam.

Antes de escolher a piada que abre ou fecha uma apresentação simplesmente pela força dela, o comediante deve analisar qual o estilo dessas piadas, o tema que elas abordam e a situação do show. Você estará se apresentando sozinho ou com vários comediantes? Quanto tempo você tem para se apresentar? Em que momento do show você subirá ao palco? Tudo isso deve ser levado em conta.

Particularmente, não acho que piadas muito longas ou com uma temática sexual acentuada sejam boas escolhas para abrir um show, por mais engraçadas que elas sejam. Usar uma piada que leva quase dois minutos para obter uma grande risada, logo no início de uma apresentação de 10 minutos, me parece arriscado. Creio que, no início do seu set, a melhor opção seja utilizar piadas curtas, para ganhar ritmo e embalar a plateia. Isso garante que o público esteja solto já no começo da apresentação, o que facilita o bom andamento do show. Agora, se tratando de um show solo, não vejo maiores problemas em abrir com uma piada um pouco mais longa, já que o comediante terá um tempo maior para imprimir um ritmo adequado ao show, tendo em vista que ele terá mais 60 minutos de espetáculo para tal.

“Mas, já que não posso abrir com aquela minha fabulosa piada sobre os vários tipos de pênis que existem, com o que devo começar”? Em primeiro lugar, não existe isso de “não pode abrir com tal material”. Você é livre para falar sobre o que quiser, no momento que quiser e, sim, ser criticado por isso. Apenas lembre-se que aquelas pessoas, muito provavelmente, não te conhecem e/ou estão vendo você pela primeira ou segunda vez. Imagine você conhecer uma pessoa e suas palavras iniciais para ela serem sobre o quão seu pênis é torto para tal lado. Muito, muito estranho. Creio que aqui, aquela velha máxima de comentar sobre algo evidente em você funciona bem. Se você é um gordo suado, quatro olhos, japa, negão, bicha, pobre ou feio como um rato, falar sobre isso é uma boa maneira de começar o show.

Agora vamos ao final. Como fazer um bom encerramento? Qual piada é a mais apropriada para fechar? Aqui sim, são melhor aceitas as piadas que “refutei” ali em cima. Sexo, palavrões ou piadas longas são melhor apreciadas pelo público no final de uma apresentação. Por quê? Bem, porque no encerramento, o comediante já estabeleceu uma relação com a plateia, eles já se “conhecem”, portanto é permitida uma maior intimidade. “É importante ter piadas fortes no começo para imprimir um ritmo ao show e trazer a plateia para o lado do humorista, ok. Mas, porque é importante fechar com uma grande piada? Afinal, eu já fiz um bom show, não preciso mais provar que sou engraçado”. Da mesma maneira que todos já sabem que você é muito engraçado, eles esperam que você seja ainda mais hilário no final. Quando você está comendo um bolo, a melhor parte não é deixada para o final? Voilà. A expressão “grand finale” não existe à toa.

Encontrar boas piadas de abertura e encerramento não é tarefa fácil para nenhum comediante. Mais difícil ainda é não apegar-se às mesmas a vida inteira. Muitos humoristas passam anos abrindo e fechando seus shows com as mesmas piadas. Já fui vítima desse comodismo, confesso. Um bom humorista não deve ter a piada de abertura e a piada de encerramento, e sim várias que podem ser usadas em diferentes posições em um set list, sem influenciar no resultado final da apresentação. No documentário “I am comic”, Louis CK diz algo que exprime exatamente isso. Nosso careca-ruivo preferido conta que, quando estava construindo o material para seu primeiro especial, ele tinha 40 minutos bons, seguidos de 20 horríveis. Porém, ele não se importava com isso, pois seus cinco minutos finais eram excelentes e, assim, ele conseguia terminar o show em alta. Um belo dia, ele começou a abrir o show com a piada de encerramento e, assim, teria de achar uma nova maneira de fechar bem a apresentação. Então, quando conseguiu escrever uma piada de encerramento tão boa quanto a anterior, ele a jogou novamente para o início e seguiu fazendo isso até eliminar os 20 minutos fedorentos. E, tem algo que ele disse que faz muito, mas muito sentido: “Aqueles 20 minutos não poderiam ser fortes porque eu não precisava que eles fossem”. Isso é uma magistral lição. Um comediante nunca deve se acomodar, deve estar sempre desafiando a si mesmo e, consequentemente, melhorando. E, para que isso aconteça, é necessário correr alguns riscos. Se Louie não tivesse corrido o risco de tirar sua piada de encerramento do final, expondo assim as fraquezas de seu material, ele jamais teria escrito outras ótimas piadas para seu especial.

Você, comediante, open mic, tanto faz, comece a fazer pequenas experiências com seu material, com o propósito de descobrir suas falhas e melhorá-lo. Se existe uma piada com a qual você sempre abre e outra, eternamente utilizada para fechar, tente fazer alguns shows sem uma delas. Procure escrever uma nova piada de abertura, uma outra que possa ser tão forte quanto a de encerramento. Isso pode levar algum tempo, custar-lhe alguns shows ruins, mas se esse é o preço a ser pago para melhorar, eu pago com o maior prazer do mundo.

Este blog é um espaço para o debate sobre comédia. Então, se você concorda, discorda, acha necessário acrescentar alguma coisa em tudo o que foi escrito, tem alguma dúvida ou sugestão para um tema futuro, por favor, deixe seu comentário abaixo, ou então no facebook ou twitter. Caso queira mandar-me uma ameaça mais intimista, pode também enviar um email para pedropontolemos@gmail.com. Se possível, divulgue para seus amigos, familiares ou animais que também gostam de humor e se interessam em discutir o tema. Apenas debatendo é que vamos fazer nossa amada comédia crescer cada vez mais no Brasil.

Até semana que vem.

A Usurpadora

Acredito que nada, absolutamente nada irrita mais um comediante do que um ladrão de piadas. Não há outro tema que consiga unir tantos humoristas em prol de uma mesma causa do que fazer justiça contra um surrupiador de risadas. Um sujeito que copia material é execrado no circuito tal qual um estuprador na cadeia.

“Mas, por que é uma falha tão grave copiar uma piada? Já dizia o velho ditado: ‘Piada não tem dono’”. O que não tem dono é o rabo de quem diz isso. O stand-up tem pouquíssimas regras, e uma delas é claríssima: “Nunca copie material de outro comediante”. Um humorista passa dias, noites, semanas, meses e, até mesmo, anos pensando, escrevendo, testando e lapidando suas piadas, até deixá-las perfeitas. É justo que um arrombadinho as copie para contá-las num barzinho do outro lado do país, sendo que o único trabalho que ele teve foi entrar no YouTube e usurpar o material alheio? Deixe que sua consciência responda.

“É comum comediantes roubarem piadas uns dos outros?”. Não. Digo com sinceridade que, entre humoristas profissionais e consolidados no circuito, a incidência desse tipo de coisa é bem pequena. Justamente porque cada um sabe do sacrifício que é escrever míseros cinco minutos de um bom material. Quando isso ocorre, geralmente quem está envolvido é algum tipo de aventureiro, que não tem qualquer pretensão de construir uma carreira na comédia stand-up ou ter o respeito dos colegas. O sabichão só quer aproveitar a onda para fazer uma graninha.

Os casos mais recorrentes acontecem com iniciantes. O jovem quer começar a fazer stand-up, então ele faz um belo apanhado das melhores piadas que os comediantes postam em vídeos na internet. Eis seu texto. Não preciso nem dizer que, se esse open mic estiver fazendo show com humoristas decentes, ele receberá um esporro, bem de leve, só pra deixar de ser trouxa. “Ai, mas coitado do menino, ele tá começando, não sabia que não podia usar piada dos outros”. Sério? Em pleno 2015? Para o cara saber que o stand-up tem que ser autoral, basta ter internet e boa vontade para pesquisar. Se não sabia é porque é burro, preguiçoso ou porque é safado mesmo. Qualquer indivíduo que se interesse pelo stand-up a ponto de querer subir num palco, tem a obrigação de saber o mínimo sobre aquilo. E o mínimo sobre o stand-up é: “Não conte piadas prontas, tampouco de outros comediantes”. Esse é o mínimo. O mínimo. Mínimo. Nada menos que isso. É muito bom ressaltar que a grande maioria dos open mics que eu já vi (e isso reflete o âmbito geral também) é honesta com a arte e escreve suas próprias piadas.

“E o que eu faço quando algum espertalhão copia minhas piadas?”. Bom, existem vários meios de se resolver esse problema. O mais civilizado deles seria ter uma conversa com o sujeito. Se o tal for apenas burro, o susto fará com que ele pare de usar o seu material. Mas, se o cara for um vagabundo mesmo, que não dá a mínima para o fato de estar roubando, apenas espalhe por aí que ele é um safado ladrão de piadas. Dificilmente o cidadão conseguirá se apresentar nos bons shows da cidade/estado. “Não é errado queimar o cara desse jeito?”. Não mais que copiar material e prosseguir com a prática, mesmo após ser avisado que isso dá merda. Existem outros métodos também. Eu mesmo já vi desde barraco na internet até dedo na cara ao vivo, mas penso que a melhor punição que o gatuno pode receber é ter as portas fechadas e não conseguir mais fazer shows. “Posso processar o féladaputa?”. Até pode, mas acho essa uma dor de cabeça bastante desnecessária.

“Pedro, já aconteceu de roubarem piadas suas?”. Sim. Minha atitude foi conversar com o suspeito, disse que sabia o que ele havia feito e pedi para que ele parasse. O cidadão logicamente negou o ocorrido, mas creio que, depois disso, ele não usou mais as minhas piadas. Que certeza eu tenho disso? Nenhuma. Mas o medo de ser apanhado, penso eu, deve ter inibido sua vontade de contar minhas piadas.

Por mais que lutemos todos juntos, vejo que esse é um problema que jamais encontrará seu fim. Nesse exato momento, algum comedinha pode estar fazendo o texto do Porchat, do Rafinha, do Duncan, meu ou seu, num boteco em algum vilarejo do norte brasileiro, ou em uma temakeria no interior catarinense, ou num puteiro de beira de estrada na divisa entre São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Como podemos parar esses caras? Não podemos. O que nós, comediantes, podemos fazer é não incentivar esse comportamento. Copia piada? Não faz o meu show. Rouba material? Então não se apresenta aqui. E, aos open mics que já estão na estrada e aos que futuramente estarão nela: escrevam suas próprias piadas. Não caia na tentação de contar aquela piadoca do seu comediante favorito, só porque o show está ruim. Melhor ser ruim e honesto que bom e trapaceiro. Eu prometo, do fundilho do meu coração, que não há sensação igual a ver uma piada que você talhou, com suas próprias mãos e suor, tirando gargalhadas do público. O stand-up dá tanto para o comediante, acho bastante injusto não retribuir com o mínimo de sinceridade e respeito pela arte.

De improviso

Há alguns anos atrás, era corriqueiro ouvir pessoas falando coisas do tipo: “Nossa, adoro aquele stand-up do ‘Improvável’”. Ou então: “O stand-up dos ‘Barbixas’ é muito bom”.

Felizmente, me parece que esses tipos de comentários estão ficando cada vez mais raros, apesar de ser um erro comum de se cometer. O grupo de humor  “Barbixas” faz, entre outras coisas, um espetáculo que apresenta jogos de improviso chamado “Improvável”. Improviso, não stand-up. E essa confusão se dá por algumas razões: O “boom” desses dois estilos no Brasil ocorreu na mesma época e pela mesma plataforma (YouTube). Também colabora para isso o fato de que o stand-up, para olhos desatentos, realmente parece feito de improviso. Parece um bate-papo criado na hora pelo comediante. Outro fator é que algumas pessoas simplesmente são preguiçosas e não se interessam em pesquisar as coisas para saber a diferença entre uma e outra.

Stand-up comedy se baseia em material escrito previamente, testado inúmeras vezes, em diferentes tipos de plateia e lapidado ao longo do tempo. Mas, comédia stand-up contém improviso. Preste atenção. Ele não É improviso, mas CONTÉM improviso. Assim como bolo e fermento não são a mesma coisa, mas um bolo contém fermento. Improviso é um dos elementos que compõem (ou podem compor) uma apresentação de stand-up comedy, e é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Um comediante stand-up acaba improvisando em algumas circunstâncias.

Por interferência da plateia: Alguém do público responde o humorista, uma risada estranha que destoa das demais, o barulho de um copo quebrando ou do garçom derrubando a bandeja, algum idiota falando alto, enfim, qualquer coisa que possa desviar a atenção do público e que o humorista julgue interessante comentá-la.

Tag: Sabe quando um humorista conta uma piada, todo mundo ri e, durante as risadas, ele diz pequenas coisas que fazem o público rir um pouquinho mais? Essas coisinhas se chamam “tags”. Geralmente, essas frases foram construídas de improviso, e posteriormente incorporadas ao material. Isso é ótimo para aumentar algumas piadas que já temos.

Construir material: “Peraí, esse cara está maluco! Primeiro ele diz que o material é escrito antes, e agora diz que é feito de improviso? EU NÃO ENTENDO MAIS NADA”. Calma, cacete. Um comediante segue sim um roteiro, um material que ele escreveu antes e que já foi testado blá blá blá. Mas nada impede que esse comediante fuja do roteiro e crie material na hora. É o famoso “escrever no palco”.

Muitos humoristas utilizam essa técnica. Levam um tema ainda bruto para o palco e começam a falar, desenvolvendo-o a hora. Gostaria apenas de ressaltar que essa prática é bastante difícil de dominar, principalmente para quem não tem experiência. Não quero dizer quem pode ou não usar esse método, só estou alertando que ele não é tão fácil quanto parece. Mas se você sente-se seguro para isso, vá em frente.

Aqui no Brasil, um dos comediantes que eu sei que faz isso é o Nigel Goodman. Ele inclusive posta alguns vídeos com o material improvisado, como esses aqui:

Semana passada, conversando com ele, chegamos nesse assunto. Eu faria um show solo na semana seguinte, e estava planejando deixar alguns pedaços do show em aberto para improvisar. Depois de conversar com o Nigel e ele me encorajar a fazê-lo, decidi tentar.
Em um show de 75 minutos de duração, decidi deixar três espaços para improvisar sobre três temas diferentes. Separei o áudio de um deles para que vocês ouçam.

A única coisa que eu tinha na cabeça era a premissa “amor à primeira vista não existe”. Depois da apresentação, posso dizer que fiquei feliz com o resultado e que essa, especialmente, foi a parte do show que eu mais gostei. Não foram as maiores reações, mas com certeza foram as piadas que mais me diverti fazendo.

Quero muito fazer isso mais vezes. É exatamente o tipo de exercício que te mantém no ímpeto de fazer stand-up e tentar coisas novas. Mas, confesso que só me senti à vontade para improvisar dessa maneira porque era um show solo. Não pelo fato de estar sozinho, e sim por ter ainda bastante tempo para fazer um bom show caso os improvisos dessem errado. Esse material do áudio, por exemplo, foi feito com 50 minutos de show, e eu já tinha improvisado os dois outros temas programados. Então, caso não funcionasse, eu ainda teria as piadas de encerramento para fechar em alta. Esse dia, especificamente, eu fiz ainda 20 minutos depois disso. Não sei se, em um show onde eu tenha apenas 15 minutos para me apresentar, se faria um improviso de 5 minutos como esse. Mas é um próximo desafio que vou gostar de ter.

Próximos passos são verificar se consigo transformar essas piadas de improviso em material efetivo do meu show. Digo isso porque, comigo, as piadas improvisadas que absorvo no meu material nunca tem a mesma reação de quando foram contadas pela primeira vez. Mas nesse caso, só tentando para descobrir. E o outro passo é justamente fazer isso mais vezes, em diferentes shows, com diferentes temas.

Essa foi uma grande experiência. Fazer a plateia rir com piadas que você cria na hora tem um sabor diferente. E não é de chocolate com bacon.