Cinco pontos de um comediante – #3 Ponto de vista

Seguimos à luta, camaradas. Hoje apresentando mais um dos cinco pontos de um comediante. Caso você esteja voltando de um coma e não tenha lido os dois posts anteriores sobre o assunto, clique aqui para ler sobre ritmo e aqui para o post sobre escrita. O assunto de hoje é um dos que eu venho conversando com mais afinco com meus colegas comediantes e creio ser um dos fatores que mais marcam um grande cômico stand-up: o ponto de vista.

Gosto de falar sobre esse tema por um simples motivo: acredito que não exista um grande comediante que não tenha ponto de vista em suas piadas. Pense nos mais variados nomes, das mais diferentes épocas, todos têm ponto de vista muito bem definido em cada piada. Quando Chris Rock fala sobre seu divórcio no especial “Tamborine” (assistam no Netflix), quem assiste sabe exatamente o seu posicionamento sobre o assunto, o lado que ele está abordando e o sentimento dele a respeito do tema. Todo mundo que assistiu sabe, de modo límpido, o que ele pensa a respeito daquele tópico. Não são apenas piadas sobre divórcio ou casamento. São posicionamentos dentro do tema.

Sabemos o que George Carlin pensa sobre aviões, o que Louis CK pensa sobre criar suas filhas, o que Jerry Seinfeld pensa sobre taxistas. Tudo isso ocorre porque todos eles têm um ponto de vista claro no assunto. Eles não buscam a piada que “a plateia vai rir”. Eles tentam fazer com que o que eles pensam se torne engraçado para a plateia. Esse é o verdadeiro desafio.

“Mas eles têm décadas de comédia, eu sou apenas um aprendiz com ranho escorrendo do nariz, eu tenho que fazer piada pela piada”. O cacete que tem. Desde cedo o comediante tem que desenvolver seu ponto de vista. Existem humoristas com excelente técnica de escrita, mas nunca serão grandes comediantes. Um dos motivos é a ausência justamente desse elemento. Piadas sem ponto de vista são ocas, vazias por dentro. A embalagem pode até ser bonita, mas o conteúdo não existe.

Qual o seu take particular do mundo? E isso engloba não apenas assuntos pessoais, mas também os maiores clichês da história da humanidade. Quer fazer piada sobre a Preta Gil? Ótimo. Mas escreva sobre o que você REALMENTE pensa sobre a Preta Gil. Acha ela feia? Bonita? Gorda? Magra? Pense com a sua cabeça, não com a dos outros. Seja original. Quer fazer piadas sobre relacionamentos? Quais seus verdadeiros sentimentos sobre seu namoro, casamento, esposa, marido? Você não aguenta mais? Você adora ser casado? Você queria um marido mais bonito? Seja verdadeiro. Exprima suas ideias. Novamente: pense com a sua cabeça. Não caia na tentação de escrever o que você acha que as pessoas querem ouvir. Escreva o que você quer dizer.

Quando você faz a piada pela piada, uma piada “oca”, você está pensando com a cabeça de todo mundo. Te desafio: abra o word, seu caderno, escreva na parede com seu próprio sangue. Tire uns minutos e escreva alguma piada sobre relacionamento. Ser casado, estar namorando, não importa. Escreva. Agora leia em voz alta essa porcaria aí. Você realmente concorda com o que essa piada diz? Ela exprime sua verdadeira visão sobre esse relacionamento? Ou você está apenas replicando elementos e clichês que você já ouviu outros humoristas falando? Reflita. Faça isso com todas as suas piadas. Reflita. Pense com a sua cabeça. Se você não acha que mulher dirige mal, que a Regina Casé é feia, que comida de avião é ruim, por que você fala isso no palco? Seja verdadeiro, não tenha medo de expressar suas ideias, seu olhar particular do mundo. Porque é justamente isso que marca um comediante: a maneira peculiar com que ele observa as coisas. Um humorista jamais será grande pensando com a cabeça dos outros. Todos os gigantes têm raciocínio próprio. Reflita.

Claro, o ponto de vista não se resume a opinião do humorista sobre um assunto. O ponto de vista do Anthony Jeselnik é que ele é um maldito que ri de qualquer desgraça. O do Steven Wright ou do Mitch Hedberg são a lógica e pensamento absurdos. Nenhum deles chega a expressar opinião, mas ninguém duvida que todos têm pontos de vista claríssimos. Quando você assiste qualquer um deles, você conhece o comediante, você o entende e compreende a maneira como ele pensa.

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Entrevista Humorista #2 – Lelo Mattos

O Entrevista Humorista de hoje é com um dos comediantes que mais gosto em Curitiba: Lelo Mattos!

Lelo começou sua carreira no stand-up em 2009, no extinto “Café Comédia”, comandado por Fábio Silvestre no bar Era Só o Que Faltava. Atualmente é integrante do grupo Index Risus Stand-up Comedy e se prepara para estrear seu primeiro show solo, inteligentemente batizado de “LELO”.

 

Você é um dos comediantes que está optando pelo “storytelling”, onde o humorista conta uma história e a plateia ri ao longo dela, e não apenas no punch. Quais as principais diferenças entre escrever piadas em “setup + punch” e “storytelling”?
Acredito que duas principais: no estilo “setup+punch”, você tem muito bem definidos o “setup” e o “punch” e pode saber com muito mais facilidade onde está o problema de uma piada ou onde ela pode ser melhor trabalhada. No storytelling, o setup está ao longo da piada e o punch… também. Às vezes o que era pra ser um setup, na sua concepção de escrita, vira um punchline fortíssimo dependendo de como você está se sentindo naquele dia, o que nos leva ao segundo ponto: é impossível fazer uma bit de storytelling sem se comprometer fisicamente com ela. Você pode fazer uma sequência de steup+punch’s sem mexer um músculo ou com nuances quase artificiais na hora do punchline e mesmo assim ter um set incrível. Mas uma storytelling sem sentimento vira palestra. Esse é um ponto muito importante: você se torna um punchline também. Sua atitude, sua expressão, seu tom de voz, seu sentimento. Tudo isso conta pro delivery de uma bit desse tipo.

O que te fez optar pelo storytelling?
Quando comecei, tinha duas grandes preocupações e objetivos: primeiro, não queria fazer um humor “apelativo”, chegando ao ponto de sequer usar palavrões no palco por boa parte da minha carreira. E segundo, queria fazer algo diferente de tudo o que havia no momento. Essa aversão ao clichê é coisa antiga pra mim, embora naquela época não tivesse nada a ver com conhecimento de comédia. Hoje falo palavrão sem me preocupar e mudei um pouco minha concepção de clichê. Por exemplo, quando comecei e quis escrever um material sobre Curitiba, descartei tudo o que já falavam e procurei algo que ninguém nunca tinha abordado. Assim nasceu a bit sobre o pinhão. Recentemente escrevi mais um material, mas falando exatamente do clichê “curitibano não fala com estranhos”. O resultado foi interessante. Acabei esmiuçando o clichê, sem me preocupar que era um clichê. Tratei como um tema comum e saiu uma bit bem legal. Enfim, respondendo à pergunta, acho que o que foi decisivo para que eu fosse pro caminho do storytelling foi a exposição brutal à comédia estrangeira que eu me coloquei. Consumi e consumo até hoje horas e horas de material estrangeiro e os consumo como espectador o tempo inteiro: dou sonoras gargalhadas, sou surpreendido por callbacks e há algum tempo decidi que queria ser capaz de fazer isso também, entende? Agradar gente chata. Porque a gente fica chato pra cacete quando trabalha com humor.

O seu estilo de material é realmente mais parecido com o de comediantes estrangeiros do que o encontrado aqui no Brasil, com piadas não tão demarcadas. Como você observa a reação do público com esse estilo de escrita?
Nesse estilo é um pouco mais difícil ler a reação da plateia. Quando você demarca a piada, as pessoas vão rir se ela for boa e permanecerão em silêncio (ou conversarão para cacete, dependendo do nível de educação delas) se ela for ruim. Já no storytelling, você deve acompanhar as nuances do comportamento da plateia. Um silêncio completo, por exemplo, nem sempre significa que a piada está ruim, pode significar apenas que você conseguiu a atenção de que precisava e que o próximo punchline só não vai funcionar se for realmente sem graça. Para mim também facilita muito conseguir enxergar os rostos das pessoas, para saber se elas estão se deixando levar pelo que eu estou fazendo no palco.

E a plateia, como reage a essa maneira de contar piadas? Me dá a impressão que muita gente ainda precisa daquela “indicação” de que a piada terminou para, aí sim, rir.
Definitivamente. Muita gente não esboça nenhuma reação com “…e escondi minha carteira”, mas ri como um bebê de vídeo do YouTube com “…e escondi minha carteira, porque tinha um corinthiano do lado”. Mas tudo o que foi dito antes naquela bit já era suficiente pro ato de “esconder a carteira” ser engraçado. A menção do corinthiano é o Liminha pulando com uma placa de “risadas” no meio da plateia. A forma que eu encontrei de escapar disso no storytelling foi justamente me entregar mais emocionalmente às bits. Como se estivesse escrevendo uma sitcom. Na elaboração das tramas de uma sitcom, você joga tudo às últimas consequências: se um personagem está com fome, ele não come há três dias. Se perde o emprego, ele é assaltado e despejado do apartamento no mesmo dia. É sempre o mais intenso possível. É isso o que eu procuro nas minhas bits. Colocar uma maior intensidade emocional em cada informação e punchline.

Você é um humorista que costuma contar as piadas exatamente como elas foram escritas. Esse método, inclusive, era utilizado por George Carlin. Como manter a naturalidade de um material, mesmo sendo tão literal?
É bem simples, na verdade: eu escrevo falando. Literalmente. Eu falo a frase antes de escrevê-las, ou seja, só vai pro papel aquilo que sonoramente me parece engraçado. É uma cena ridícula de se ver, mas ajuda muito na hora de passar naturalidade, porque mesmo que eu esteja fazendo a piada pela primeira vez no palco, eu já contei aquela história várias vezes antes. Outro método que eu utilizo, mais especificamente para o material puramente de storytelling, é criar uma sequência lógica de eventos, em vez de escrever ipsis litteris.

É normal que um comediante altere a forma com que ele escreve o material ao longo de sua trajetória na comédia. Você, com cinco anos de carreira, como vê as piadas que escreve hoje, em comparação com as do início de sua carreira?
Mudei completamente, depois voltei, depois mudei de novo, depois viajei muito no que eu queria realmente fazer, depois voltei à primeira mudança e hoje nem sei mais o que estou fazendo. Na verdade acho que o meu material amadureceu junto comigo. Quando eu comecei a escrever comédia, tinha 19 anos e só sabia beber e empurrar a faculdade com a barriga. Hoje vou completar 25 anos no fim do ano, estou casado, tenho uma filha e espero outra. Não dava pra continuar com a mesma cabeça.

Você falou que o silêncio não necessariamente significa que a plateia não está gostando do show. O que caracteriza um bom show e um bom material?
Calma, eu falei que não significa que a plateia não está gostando DA PIADA! Silêncio durante o show todo deve ser preocupante independente do estilo. O que quis dizer é que o silêncio pode significar a atenção que você conquistou. Acho que um bom show é caracterizado pelo atendimento à expectativa da plateia e surpresa dos que não conheciam o comediante. Em termos técnicos, acredito que um bom show é aquele escrito com cuidado, estruturado para que as bits tenham uma harmonia entre si. Não acredito que a reação da plateia deva ser uma senóide: picos ritmados de risadas, sempre subindo e descendo. Acho que a reação deve ser como um medidor de batimentos cardíacos de um protagonista de filme de terror: sobe,desce, sobe mais, desce, sobe um pouquinho e de repente sobe pra cacete… enfim, você entendeu. Um bom material, a meu ver, é aquele que você escreve sozinho. Inteiramente sozinho. Sem se valer de pontos de vista anteriores, leia-se clichês, nem de coisas que você viu alguém fazer e achou engraçado. Prefiro muito mais o cara desgraçado que faz a vida merda dele virar comédia ao que pega algo que já é engraçado por natureza ou potencialmente engraçado e simplesmente reproduz a graça daquilo de outra maneira. Gosto muito de material crítico e dos punchs “não acredito que ele falou isso”, seja por ser “politicamente incorreto” ou por simplesmente jogar na cara da própria plateia as coisas hipócritas que eles e todos nós fazemos todos os dias.

Você começou a fazer stand-up e parou por um tempo, retornando quase um ano depois. Primeiro, por que você parou e como foi esse retorno? Você utilizava o mesmo material, teve que escrever coisas novas? Não achava que o material antigo era bom o suficiente?
Bom, eu parei porque sou um imbecil. Foi em 2010, fiz um show só nesse ano, e voltei apenas em julho de 2011. Parei por causa da faculdade, acredita? Porque tinha começado a reprovar e ainda morava com meus pais, aí meu pai mandou um “chega dessa porra, vai estudar”, porque eu tava deslumbrado, achando que tinha talento pra ser o melhor comediante do mundo em meses. Fiquei um ano e meio fora, acompanhei muito pouco do cenário, falei muito pouco com os comediantes que eu conhecia (quase nada) e fui sendo infeliz para caralho. Aí voltei pro lugar de onde nunca deveria ter saído: o palco. Mas voltei do zero, eu nem lembrava mais as bits que eu fazia. Eu havia escrito cinco minutos de material ao longo desse ano e meio de afastamento, só por saudades mesmo e fui testar. Rolou tudo muito bem e ali eu já tinha uma base pra recomeçar. Por um ano, fiz cinco minutos diferentes toda semana, pra firmar o pulso e começar a trabalhar de verdade a parte difícil: persona, delivery, timing, postura, crowdwork… Mas, de qualquer forma, não daria pra usar as piadas antigas porque , como eu falei antes, era outra cabeça, outras preocupações… Se bem que fiz uma ou duas piadas que eu consegui me lembrar daquela época , que foram “reeditadas” e ficaram legais até.

Além de comediante, você também é professor. Como é conciliar essas duas carreiras? Você consegue estabelecer relações entre as duas?
Procuro deixar as duas coisas bem separadas. Eu nunca falo aos meus alunos que sou comediante. Eles sempre descobrem eventualmente, é claro, mas não graças a mim. Em sala eu não sou engraçado o tempo inteiro, não acho que seja o momento, por isso sou comediante em todos os aspectos da minha vida, exceto em sala de aula. Até porque eu trabalho com adolescentes nessa geração em que os pais dão mais limites ao cachorro do que aos filhos, então segurar quarenta/cinquenta alunos por turma nessas condições não é fácil se você resolve ser a miss simpatia. Inclusive, já fiz algumas bits sobre ser professor, mas não ficaram muito boas acho que justamente por esse ser um assunto tão sério pra mim.

Eu te acompanho desde o começo de sua carreira e, consequentemente, seu amadurecimento. Você é um dos comediantes que mais aproveita as coisas que acontecem na sua vida para transformá-las em piadas. Utilizando a famosa frase de Judy Carter, você acha que a própria vida de cada pessoa é a maior inspiração para a criação de seu material?
Sim e não. Acho que nem todo mundo tem uma vida interessante o suficiente, vamos ser sinceros. Acho que mais do que a vida, a maior inspiração deve ser a forma como essa pessoa vê a vida. Um comediante deve estar atento o tempo todo. Um comediante vê um aviso de “proibido fumar” dentro de um ônibus e não pensa “ok, não vou fumar”, ele deve ver esse aviso e viajar por horas sobre aquilo. A forma como ele viaja é o que define o estilo, a persona e a escrita dele. Pessoas “normais” não ligam para detalhes. Comediantes, sim. E sobre a própria vida ser inspiração para o material, acho que sempre pode ser, mas só vai ser engraçado se você costuma se dar mal. Esse é o ser humano, aceite. Eu SEMPRE fui um cara muito azarado, talvez por isso eu tenha criado um “pessimismo cômico” para analisar até os aspectos mais maravilhosos da minha própria vida e levá-los pro palco. Hoje sou muito feliz pessoalmente, mas consigo me imaginar não sendo e escrever sobre isso. Você deve ter reparado, de tudo o que eu levo sobre a minha vida ao palco, eu me dou bem em 0% dos casos.

Você é sempre figura presente em noites de open mic, para testar piadas novas. E, por conta disso, tem muito contato com os humoristas que ainda estão em início de carreira. Você busca passar para eles experiências que obteve?
Já busquei mais. Sinceramente, acompanhei três ou quatro gerações de open-mics que seguiram tentando até hoje e tive uma certa “decepção” de uns anos pra cá. Sempre há opens que acham que já estão prontos, opens que querem cachê desde o segundo show, opens que se sentem superiores aos outros, opens que são fofoqueiros demais, chatos demais, medrosos demais. Na verdade não é preciso ser open pra isso. Comediantes, pedreiros, veterinários, todas as profissões apresentam exemplares desse tipo. Mas é preocupante quando eles são maioria. Posso dizer que atualmente há no máximo uns quatro opens com quem eu ainda converso seriamente sobre comédia.

Ainda sobre quem está começando: percebo que muitos comediantes que estão iniciando agora, já estão começando com alguns vícios no stand-up, que vão de temas abordados até o delivery, o que deixa todas as performances muito parecidas. O que você diria para o open mic que quer se destacar no circuito?
Seja você mesmo, idiota. “Você” pode acabar sendo mais engraçado que qualquer um dos caras que você admira, se você parar de tentar ser esses caras que você admira e deixar que “você” se destaque. Isso é em todos os sentidos: seu jeito, suas ideias, seus medos, suas mágoas. Deixe que tudo isso seja SEU. Não inventa de falar de relacionamento se você é um nerd virgem. Fala sobre ser nerd virgem! Eu prometo a você que vai ser mil vezes mais engraçado. E entregue a piada como você acha que ela deve ser entregue, não como “fulano de tal” entregaria. Se você continuar imitando delivery, vai começar a imitar escrita, se começar a imitar escrita, vai começar a imitar timing e aí… parabéns! “Você” morreu e uma cópia bizarra de “fulano de tal” que nunca vai se destacar acaba de ocupar seu espaço. Seja você mesmo. Idiota. (Tough love)

 

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*entrevista realizada por e-mail.