Sobre as redes sociais e o politicamente correto

Que momento delicado para a comédia e para os que dela vivem. Para quem esteve em algum tipo de iglu isolado nas geleiras e não está sabendo, pularam casos polêmicos envolvendo youtubers e comediantes nos últimos dias e semanas. O ponto em comum: acusações de racismo e duras consequências para os envolvidos.

Não acho necessário relembrar nenhuma das histórias, pois o que quero tratar não está dentro delas, e sim fora. Se você não sabe mesmo o que aconteceu, dê um Google em “cocielo mbappe” e, depois, em “jacaré banguela will smith“. Leia e retorne para cá de imediato. Não entrarei no mérito de que se os comentários (ou piadas, como preferirem) foram ou não racistas. Imagino que essa fogueira não precise de mais lenha. Mas gostaria bastante de destacar o desenrolar dos acontecimentos.

Julio Cocielo, youtuber, e Rodrigo Fernandes, humorista, foram duramente criticados e insultados pelos seus comentários (ou piadas) no Twitter. “Racista!” foi o coro entoado com mais força. Não acho que algum dos dois o seja. Cocielo não conheço, mas Rodrigo, apesar de não sermos amigos próximos, já dividimos muitos camarins e conversas e te digo que ele não é racista. Não ser racista, claro, não deixa ninguém imune a fazer comentários racistas, mesmo de modo não-intencional. É para isso que serve aquela palavrinha chamada “educação”, no sentido de ensinar. Mas parece que isso está muito distante do populoso mundo das redes sociais.

Você tem filho? Filha? Eu não. Mas vamos à hipotética situação de que seu neném faça ou diga algo que você não gosta, reprova ou não queira que ele repita. Qual a atitude correta a ser tomada?
a) dar boas palmadas e cintadas e, por que não, socos e murros no fedelho.
b) gritar “RACISTA” na cara de seu bebê até que ele vire o William Waack.
c) conversar com ele sobre e como o que ele fez foi errado e a maneira certa de proceder.

Psicologia infantil, otário. É verdade o ditado “ninguém nasce sabendo”. Mas é verdade também que a gente morre sem saber um montão, cheio de erros e com muitas lacunas no campo da sabedoria. O que você faz pra diminuir essa escassez de saber entre o nascimento e a morte é o que te transforma em uma pessoa decente. É muito difícil aprender sozinho, e não estou falando de matemática ou química, mas de aprendizagem social. Um branco não sabe o quanto dói o racismo. O hetero não sabe como sofre uma vítima de homofobia. O homem não sente como é ser mulher numa sociedade misógina. Mas eles podem aprender. Nós podemos aprender. Queremos aprender, em nossa maioria. Então que nos ensinem, com mais alternativas “c” e menos “a” e “b”. Não porque merecemos, mas porque é um método de ensino mais eficaz.

Mas quem passa suas tardes de bunda quente e dedinhos oleosos na frente de um computador, não está interessado em ensino. Rapaziada quer sangue jorrando, quente, escuro, pintando a lâmina da espada de vermelho-culpa. O insulto e a agressão nunca levaram conhecimento a ninguém, jamais melhoraram uma sociedade ou uma pessoa. Falar que porrada corrige é coisa de Bolsonaro. Você é Bolsonaro? Que bom. Agora, a agressão nas redes sociais acaba se transformando em algo muito, mas muito maior do que o desserviço: o apedrejamento. (Esse termo eu roubei do Instagram da Natalia Klein, que comentou o tema pelos stories. Sigam ela). Transformar indivíduos em mártires, nesse tipo de caso, não parece correto. E os caminhos tomados para que isso aconteça são, também, inadequados. A Idade Média viveu a “caça às bruxas”. Hoje, vivemos a “caça aos twittes antigos”. No caso de Cocielo, especificamente, uma grossa coleção de comentários racistas foi trazida diretamente do passado para colaborar com os fatos do presente. Uma canalhice que, claro, não tira o peso racista dos antigos posts. Mas o racismo também se corrige, se aprende que é errado e se arrepende. Bastante delicada essa história de julgar uma pessoa por algo que ela disse no passado,. porque as pessoas mudam. Aquele cara que vomitava pílulas de racismo no Twitter pode não existir mais, pode ter se arrependido, ter vergonha do que falou. O problema das redes sociais, e é bom começarmos a aprender isso, é que essas baixarias ficam tatuadas no corpanzil da internet e à mostra para quem quiser ver como você era babaca em 2009. E não precisa nem fazer comentário racista pra perceber isso. Basta você lembrar como era o seu primeiro e-mail pra sentir muita, mas muita vergonha de ter sido aquela pessoa um dia.

Agora, para mim, o caso de Rodrigo Fernandes foi mais grave. Não apenas por se tratar de um comediante, mas porque as consequências foram mais avassaladoras. Claro, Cocielo perdeu patrocínios mas, convenhamos, seu patrimônio deve ser enorme, ele não depende de patrocínios para trabalhar como youtuber e ele não é humorista. Não precisa fazer piadas para sobreviver. Ele pode deitar em uma banheira de nutella e ganhar dinheiro. Rodrigo não. Por conta do incidente, ele foi afastado do programa onde trabalhava, na televisão aberta, e completamente excluído da programação do canal a cabo em que se apresentava. Os programas poderiam perder patrocínios, dinheiro e audiência caso agissem de modo contrário? Sim. Eu entendo o show business, o que não quer dizer que concorde com ele. No caso do SBT, ainda há mais justificativas. O programa que ele participava (Programa da Eliana) não era de humor, a faixa horária é prejudicial (domingo à tarde) enfim, comédia não tem nada a ver com o programa. Mas o Comedy Central, o canal pago, pesou a mão. Não querer o comediante mais daqui pra frente em novos programas? Pleno direito. Apagar tudo o que ele já fez por lá? Achei um pouco demais. Se tem algo que a história da humanidade insiste em nos ensinar é que apagar o passado não é a mehor forma de preparar o futuro. Empurrar a sujeira pra baixo do tapete ainda deixa a casa suja. Essa decisão soa não como um protesto anti-racismo, e sim como uma boa lavada de mãos a lá Pôncio Pilatos. Novamente, compreendo que programas de televisão dependem de anunciantes, mas o cheiro disso é muito mais de “quero me livrar do problema o mais rápido possível” do que “quero entender, combater e resolver o problema”. Pode parecer um pensamento ingênuo, uma utopia criativa que jamais existirá na televisão e, como eu disse, entendo a atitude das emissoras mas, como comediante, não concordo com elas.

Não é certo alguém sair com pecha de racista dessa história, que tenha sua carreira arruinada e vida transformada num inferno. As pessoas são livres para reclamar à vontade, mandar mensagens de reprovação nas redes sociais, dizer que não gostou da piada, dizer que ela é racista, mas não de tatuar na testa de alguém “eu sou racista e vacilão”. Às vezes, a piada é racista sim. Até muito mais vezes do que deveria ser. E esse é um problema da sociedade como um todo, não apenas da classe humorística. O mundo não mudou pra melhor porque o Rodrigo perdeu o emprego ou o Cocielo foi escrachado. Quando um racista de fode, eu acho lindo, mas não é o caso. São pessoas que cometeram erros e estão pagando por eles com juros altíssimos.

Entendam. Não sou um daqueles comediantes que acha que o mundo está ficando chato, que o politicamente correto blá blá blá bá. Eu brinco muito com humor negro nos meus textos, adoro esse tipo de comédia, e nunca tive qualquer tipo de problema com a plateia. Muitos gostam, muitos não, mas assim é em tudo na vida. Talvez eu não tive ainda nenhum problema, estou bem ciente disso. Sei que o mundo está mudando e, com ele, os parâmetros da sociadade sobre o que é aceitável ou não. E cabe aqui uma reflexão aos meus colegas e amigos comediantes. Será que adianta falar tanto do politicamente correto? Será que traz benefício reclamar que hoje em dia não pode falar mais nada? Será que não é melhor escrever mais, criar outras maneiras de dizer aquilo que você quer? Um cenário sempre me passa pela cabeça quando toco nesse assunto:

Imagina o que seria da cultura brasileira se, na época da Ditadura Militar, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, cada vez que censurados fossem, apenas reclamassem uns pros outros sobre como a censura é uma merda e que não se pode falar nada? Todo mundo sabe disso, mas o que nós vamos fazer para mudar essa cena? Que atitudes podemos tomar para que nossa expressão artística chegue em sua totalidade ao público? No caso acima, eles escreveram músicas melhores, mais elaboradas, burlaram a censura e se fizeram ouvir. Será que não falta um tiquinho disso pra nós também? Escrever piadas mais elaboradas, melhores, que enganem a “censura” e que nos façam ser ouvidos? Eu gostaria muito de ver algum comediante postar uma piada no Twitter, as pessoas reclamarem da piada, e esse comediante responder: “Gente, me dá 24h que eu volto com uma versão melhor dessa piada”. E no dia seguinte, ele está com uma nova piada, mais inteligente, mais profunda, tão boa que os burrões das redes sociais, como os burrões da censura militar, seriam incapazes de achar algum defeito nela.

Como eu deixo claro desde o início desse blog, aqui é e sempre será um espaço para livre debate sobre comédia. Fiquem à vontade para expor (com educação e sem baixaria, por favor) suas opiniões nos comentários. Podem mandar emails também no pedropontolemos@gmail.com, caso queiram escrever respostas a esse texto. Dependendo delas, as publico aqui também. O debate nos fortalece como comediantes, amantes do gênero e como sociedade.

Que George Carlin cuide de vocês.

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Cinco pontos de um comediante – #3 Ponto de vista

Seguimos à luta, camaradas. Hoje apresentando mais um dos cinco pontos de um comediante. Caso você esteja voltando de um coma e não tenha lido os dois posts anteriores sobre o assunto, clique aqui para ler sobre ritmo e aqui para o post sobre escrita. O assunto de hoje é um dos que eu venho conversando com mais afinco com meus colegas comediantes e creio ser um dos fatores que mais marcam um grande cômico stand-up: o ponto de vista.

Gosto de falar sobre esse tema por um simples motivo: acredito que não exista um grande comediante que não tenha ponto de vista em suas piadas. Pense nos mais variados nomes, das mais diferentes épocas, todos têm ponto de vista muito bem definido em cada piada. Quando Chris Rock fala sobre seu divórcio no especial “Tamborine” (assistam no Netflix), quem assiste sabe exatamente o seu posicionamento sobre o assunto, o lado que ele está abordando e o sentimento dele a respeito do tema. Todo mundo que assistiu sabe, de modo límpido, o que ele pensa a respeito daquele tópico. Não são apenas piadas sobre divórcio ou casamento. São posicionamentos dentro do tema.

Sabemos o que George Carlin pensa sobre aviões, o que Louis CK pensa sobre criar suas filhas, o que Jerry Seinfeld pensa sobre taxistas. Tudo isso ocorre porque todos eles têm um ponto de vista claro no assunto. Eles não buscam a piada que “a plateia vai rir”. Eles tentam fazer com que o que eles pensam se torne engraçado para a plateia. Esse é o verdadeiro desafio.

“Mas eles têm décadas de comédia, eu sou apenas um aprendiz com ranho escorrendo do nariz, eu tenho que fazer piada pela piada”. O cacete que tem. Desde cedo o comediante tem que desenvolver seu ponto de vista. Existem humoristas com excelente técnica de escrita, mas nunca serão grandes comediantes. Um dos motivos é a ausência justamente desse elemento. Piadas sem ponto de vista são ocas, vazias por dentro. A embalagem pode até ser bonita, mas o conteúdo não existe.

Qual o seu take particular do mundo? E isso engloba não apenas assuntos pessoais, mas também os maiores clichês da história da humanidade. Quer fazer piada sobre a Preta Gil? Ótimo. Mas escreva sobre o que você REALMENTE pensa sobre a Preta Gil. Acha ela feia? Bonita? Gorda? Magra? Pense com a sua cabeça, não com a dos outros. Seja original. Quer fazer piadas sobre relacionamentos? Quais seus verdadeiros sentimentos sobre seu namoro, casamento, esposa, marido? Você não aguenta mais? Você adora ser casado? Você queria um marido mais bonito? Seja verdadeiro. Exprima suas ideias. Novamente: pense com a sua cabeça. Não caia na tentação de escrever o que você acha que as pessoas querem ouvir. Escreva o que você quer dizer.

Quando você faz a piada pela piada, uma piada “oca”, você está pensando com a cabeça de todo mundo. Te desafio: abra o word, seu caderno, escreva na parede com seu próprio sangue. Tire uns minutos e escreva alguma piada sobre relacionamento. Ser casado, estar namorando, não importa. Escreva. Agora leia em voz alta essa porcaria aí. Você realmente concorda com o que essa piada diz? Ela exprime sua verdadeira visão sobre esse relacionamento? Ou você está apenas replicando elementos e clichês que você já ouviu outros humoristas falando? Reflita. Faça isso com todas as suas piadas. Reflita. Pense com a sua cabeça. Se você não acha que mulher dirige mal, que a Regina Casé é feia, que comida de avião é ruim, por que você fala isso no palco? Seja verdadeiro, não tenha medo de expressar suas ideias, seu olhar particular do mundo. Porque é justamente isso que marca um comediante: a maneira peculiar com que ele observa as coisas. Um humorista jamais será grande pensando com a cabeça dos outros. Todos os gigantes têm raciocínio próprio. Reflita.

Claro, o ponto de vista não se resume a opinião do humorista sobre um assunto. O ponto de vista do Anthony Jeselnik é que ele é um maldito que ri de qualquer desgraça. O do Steven Wright ou do Mitch Hedberg são a lógica e pensamento absurdos. Nenhum deles chega a expressar opinião, mas ninguém duvida que todos têm pontos de vista claríssimos. Quando você assiste qualquer um deles, você conhece o comediante, você o entende e compreende a maneira como ele pensa.

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