Sobre as redes sociais e o politicamente correto

Que momento delicado para a comédia e para os que dela vivem. Para quem esteve em algum tipo de iglu isolado nas geleiras e não está sabendo, pularam casos polêmicos envolvendo youtubers e comediantes nos últimos dias e semanas. O ponto em comum: acusações de racismo e duras consequências para os envolvidos.

Não acho necessário relembrar nenhuma das histórias, pois o que quero tratar não está dentro delas, e sim fora. Se você não sabe mesmo o que aconteceu, dê um Google em “cocielo mbappe” e, depois, em “jacaré banguela will smith“. Leia e retorne para cá de imediato. Não entrarei no mérito de que se os comentários (ou piadas, como preferirem) foram ou não racistas. Imagino que essa fogueira não precise de mais lenha. Mas gostaria bastante de destacar o desenrolar dos acontecimentos.

Julio Cocielo, youtuber, e Rodrigo Fernandes, humorista, foram duramente criticados e insultados pelos seus comentários (ou piadas) no Twitter. “Racista!” foi o coro entoado com mais força. Não acho que algum dos dois o seja. Cocielo não conheço, mas Rodrigo, apesar de não sermos amigos próximos, já dividimos muitos camarins e conversas e te digo que ele não é racista. Não ser racista, claro, não deixa ninguém imune a fazer comentários racistas, mesmo de modo não-intencional. É para isso que serve aquela palavrinha chamada “educação”, no sentido de ensinar. Mas parece que isso está muito distante do populoso mundo das redes sociais.

Você tem filho? Filha? Eu não. Mas vamos à hipotética situação de que seu neném faça ou diga algo que você não gosta, reprova ou não queira que ele repita. Qual a atitude correta a ser tomada?
a) dar boas palmadas e cintadas e, por que não, socos e murros no fedelho.
b) gritar “RACISTA” na cara de seu bebê até que ele vire o William Waack.
c) conversar com ele sobre e como o que ele fez foi errado e a maneira certa de proceder.

Psicologia infantil, otário. É verdade o ditado “ninguém nasce sabendo”. Mas é verdade também que a gente morre sem saber um montão, cheio de erros e com muitas lacunas no campo da sabedoria. O que você faz pra diminuir essa escassez de saber entre o nascimento e a morte é o que te transforma em uma pessoa decente. É muito difícil aprender sozinho, e não estou falando de matemática ou química, mas de aprendizagem social. Um branco não sabe o quanto dói o racismo. O hetero não sabe como sofre uma vítima de homofobia. O homem não sente como é ser mulher numa sociedade misógina. Mas eles podem aprender. Nós podemos aprender. Queremos aprender, em nossa maioria. Então que nos ensinem, com mais alternativas “c” e menos “a” e “b”. Não porque merecemos, mas porque é um método de ensino mais eficaz.

Mas quem passa suas tardes de bunda quente e dedinhos oleosos na frente de um computador, não está interessado em ensino. Rapaziada quer sangue jorrando, quente, escuro, pintando a lâmina da espada de vermelho-culpa. O insulto e a agressão nunca levaram conhecimento a ninguém, jamais melhoraram uma sociedade ou uma pessoa. Falar que porrada corrige é coisa de Bolsonaro. Você é Bolsonaro? Que bom. Agora, a agressão nas redes sociais acaba se transformando em algo muito, mas muito maior do que o desserviço: o apedrejamento. (Esse termo eu roubei do Instagram da Natalia Klein, que comentou o tema pelos stories. Sigam ela). Transformar indivíduos em mártires, nesse tipo de caso, não parece correto. E os caminhos tomados para que isso aconteça são, também, inadequados. A Idade Média viveu a “caça às bruxas”. Hoje, vivemos a “caça aos twittes antigos”. No caso de Cocielo, especificamente, uma grossa coleção de comentários racistas foi trazida diretamente do passado para colaborar com os fatos do presente. Uma canalhice que, claro, não tira o peso racista dos antigos posts. Mas o racismo também se corrige, se aprende que é errado e se arrepende. Bastante delicada essa história de julgar uma pessoa por algo que ela disse no passado,. porque as pessoas mudam. Aquele cara que vomitava pílulas de racismo no Twitter pode não existir mais, pode ter se arrependido, ter vergonha do que falou. O problema das redes sociais, e é bom começarmos a aprender isso, é que essas baixarias ficam tatuadas no corpanzil da internet e à mostra para quem quiser ver como você era babaca em 2009. E não precisa nem fazer comentário racista pra perceber isso. Basta você lembrar como era o seu primeiro e-mail pra sentir muita, mas muita vergonha de ter sido aquela pessoa um dia.

Agora, para mim, o caso de Rodrigo Fernandes foi mais grave. Não apenas por se tratar de um comediante, mas porque as consequências foram mais avassaladoras. Claro, Cocielo perdeu patrocínios mas, convenhamos, seu patrimônio deve ser enorme, ele não depende de patrocínios para trabalhar como youtuber e ele não é humorista. Não precisa fazer piadas para sobreviver. Ele pode deitar em uma banheira de nutella e ganhar dinheiro. Rodrigo não. Por conta do incidente, ele foi afastado do programa onde trabalhava, na televisão aberta, e completamente excluído da programação do canal a cabo em que se apresentava. Os programas poderiam perder patrocínios, dinheiro e audiência caso agissem de modo contrário? Sim. Eu entendo o show business, o que não quer dizer que concorde com ele. No caso do SBT, ainda há mais justificativas. O programa que ele participava (Programa da Eliana) não era de humor, a faixa horária é prejudicial (domingo à tarde) enfim, comédia não tem nada a ver com o programa. Mas o Comedy Central, o canal pago, pesou a mão. Não querer o comediante mais daqui pra frente em novos programas? Pleno direito. Apagar tudo o que ele já fez por lá? Achei um pouco demais. Se tem algo que a história da humanidade insiste em nos ensinar é que apagar o passado não é a mehor forma de preparar o futuro. Empurrar a sujeira pra baixo do tapete ainda deixa a casa suja. Essa decisão soa não como um protesto anti-racismo, e sim como uma boa lavada de mãos a lá Pôncio Pilatos. Novamente, compreendo que programas de televisão dependem de anunciantes, mas o cheiro disso é muito mais de “quero me livrar do problema o mais rápido possível” do que “quero entender, combater e resolver o problema”. Pode parecer um pensamento ingênuo, uma utopia criativa que jamais existirá na televisão e, como eu disse, entendo a atitude das emissoras mas, como comediante, não concordo com elas.

Não é certo alguém sair com pecha de racista dessa história, que tenha sua carreira arruinada e vida transformada num inferno. As pessoas são livres para reclamar à vontade, mandar mensagens de reprovação nas redes sociais, dizer que não gostou da piada, dizer que ela é racista, mas não de tatuar na testa de alguém “eu sou racista e vacilão”. Às vezes, a piada é racista sim. Até muito mais vezes do que deveria ser. E esse é um problema da sociedade como um todo, não apenas da classe humorística. O mundo não mudou pra melhor porque o Rodrigo perdeu o emprego ou o Cocielo foi escrachado. Quando um racista de fode, eu acho lindo, mas não é o caso. São pessoas que cometeram erros e estão pagando por eles com juros altíssimos.

Entendam. Não sou um daqueles comediantes que acha que o mundo está ficando chato, que o politicamente correto blá blá blá bá. Eu brinco muito com humor negro nos meus textos, adoro esse tipo de comédia, e nunca tive qualquer tipo de problema com a plateia. Muitos gostam, muitos não, mas assim é em tudo na vida. Talvez eu não tive ainda nenhum problema, estou bem ciente disso. Sei que o mundo está mudando e, com ele, os parâmetros da sociadade sobre o que é aceitável ou não. E cabe aqui uma reflexão aos meus colegas e amigos comediantes. Será que adianta falar tanto do politicamente correto? Será que traz benefício reclamar que hoje em dia não pode falar mais nada? Será que não é melhor escrever mais, criar outras maneiras de dizer aquilo que você quer? Um cenário sempre me passa pela cabeça quando toco nesse assunto:

Imagina o que seria da cultura brasileira se, na época da Ditadura Militar, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, cada vez que censurados fossem, apenas reclamassem uns pros outros sobre como a censura é uma merda e que não se pode falar nada? Todo mundo sabe disso, mas o que nós vamos fazer para mudar essa cena? Que atitudes podemos tomar para que nossa expressão artística chegue em sua totalidade ao público? No caso acima, eles escreveram músicas melhores, mais elaboradas, burlaram a censura e se fizeram ouvir. Será que não falta um tiquinho disso pra nós também? Escrever piadas mais elaboradas, melhores, que enganem a “censura” e que nos façam ser ouvidos? Eu gostaria muito de ver algum comediante postar uma piada no Twitter, as pessoas reclamarem da piada, e esse comediante responder: “Gente, me dá 24h que eu volto com uma versão melhor dessa piada”. E no dia seguinte, ele está com uma nova piada, mais inteligente, mais profunda, tão boa que os burrões das redes sociais, como os burrões da censura militar, seriam incapazes de achar algum defeito nela.

Como eu deixo claro desde o início desse blog, aqui é e sempre será um espaço para livre debate sobre comédia. Fiquem à vontade para expor (com educação e sem baixaria, por favor) suas opiniões nos comentários. Podem mandar emails também no pedropontolemos@gmail.com, caso queiram escrever respostas a esse texto. Dependendo delas, as publico aqui também. O debate nos fortalece como comediantes, amantes do gênero e como sociedade.

Que George Carlin cuide de vocês.

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Cinco pontos de um comediante – #3 Ponto de vista

Seguimos à luta, camaradas. Hoje apresentando mais um dos cinco pontos de um comediante. Caso você esteja voltando de um coma e não tenha lido os dois posts anteriores sobre o assunto, clique aqui para ler sobre ritmo e aqui para o post sobre escrita. O assunto de hoje é um dos que eu venho conversando com mais afinco com meus colegas comediantes e creio ser um dos fatores que mais marcam um grande cômico stand-up: o ponto de vista.

Gosto de falar sobre esse tema por um simples motivo: acredito que não exista um grande comediante que não tenha ponto de vista em suas piadas. Pense nos mais variados nomes, das mais diferentes épocas, todos têm ponto de vista muito bem definido em cada piada. Quando Chris Rock fala sobre seu divórcio no especial “Tamborine” (assistam no Netflix), quem assiste sabe exatamente o seu posicionamento sobre o assunto, o lado que ele está abordando e o sentimento dele a respeito do tema. Todo mundo que assistiu sabe, de modo límpido, o que ele pensa a respeito daquele tópico. Não são apenas piadas sobre divórcio ou casamento. São posicionamentos dentro do tema.

Sabemos o que George Carlin pensa sobre aviões, o que Louis CK pensa sobre criar suas filhas, o que Jerry Seinfeld pensa sobre taxistas. Tudo isso ocorre porque todos eles têm um ponto de vista claro no assunto. Eles não buscam a piada que “a plateia vai rir”. Eles tentam fazer com que o que eles pensam se torne engraçado para a plateia. Esse é o verdadeiro desafio.

“Mas eles têm décadas de comédia, eu sou apenas um aprendiz com ranho escorrendo do nariz, eu tenho que fazer piada pela piada”. O cacete que tem. Desde cedo o comediante tem que desenvolver seu ponto de vista. Existem humoristas com excelente técnica de escrita, mas nunca serão grandes comediantes. Um dos motivos é a ausência justamente desse elemento. Piadas sem ponto de vista são ocas, vazias por dentro. A embalagem pode até ser bonita, mas o conteúdo não existe.

Qual o seu take particular do mundo? E isso engloba não apenas assuntos pessoais, mas também os maiores clichês da história da humanidade. Quer fazer piada sobre a Preta Gil? Ótimo. Mas escreva sobre o que você REALMENTE pensa sobre a Preta Gil. Acha ela feia? Bonita? Gorda? Magra? Pense com a sua cabeça, não com a dos outros. Seja original. Quer fazer piadas sobre relacionamentos? Quais seus verdadeiros sentimentos sobre seu namoro, casamento, esposa, marido? Você não aguenta mais? Você adora ser casado? Você queria um marido mais bonito? Seja verdadeiro. Exprima suas ideias. Novamente: pense com a sua cabeça. Não caia na tentação de escrever o que você acha que as pessoas querem ouvir. Escreva o que você quer dizer.

Quando você faz a piada pela piada, uma piada “oca”, você está pensando com a cabeça de todo mundo. Te desafio: abra o word, seu caderno, escreva na parede com seu próprio sangue. Tire uns minutos e escreva alguma piada sobre relacionamento. Ser casado, estar namorando, não importa. Escreva. Agora leia em voz alta essa porcaria aí. Você realmente concorda com o que essa piada diz? Ela exprime sua verdadeira visão sobre esse relacionamento? Ou você está apenas replicando elementos e clichês que você já ouviu outros humoristas falando? Reflita. Faça isso com todas as suas piadas. Reflita. Pense com a sua cabeça. Se você não acha que mulher dirige mal, que a Regina Casé é feia, que comida de avião é ruim, por que você fala isso no palco? Seja verdadeiro, não tenha medo de expressar suas ideias, seu olhar particular do mundo. Porque é justamente isso que marca um comediante: a maneira peculiar com que ele observa as coisas. Um humorista jamais será grande pensando com a cabeça dos outros. Todos os gigantes têm raciocínio próprio. Reflita.

Claro, o ponto de vista não se resume a opinião do humorista sobre um assunto. O ponto de vista do Anthony Jeselnik é que ele é um maldito que ri de qualquer desgraça. O do Steven Wright ou do Mitch Hedberg são a lógica e pensamento absurdos. Nenhum deles chega a expressar opinião, mas ninguém duvida que todos têm pontos de vista claríssimos. Quando você assiste qualquer um deles, você conhece o comediante, você o entende e compreende a maneira como ele pensa.

Fiquem de olho no blog, sigam ele no WordPress, curtam minha página no Facebook, pois é por lá que sempre divulgo quando tem post novo. Em breve nos encontramos para mais uma conversa gostosa. Te espero.

Cinco pontos de um comediante – #2 Escrita

Semana passada apresentei à você, querido leitor, um dos cinco pontos de um comediante: o ritmo. Caso tenha perdido, leia clicando aqui, aqui ou aqui. E aqui também. Apenas relembrando, essa história de “cinco pontos de um comediante” eu criei para meu workshop de comédia, o que não representa, em absoluto, uma verdade institucional do stand-up. São apenas impressões e experiências que obtive nos meus anos de carreira. Isso não quer dizer que estão aí todos ou únicos fatores que fazem um humorista. As imagens são meramente ilustrativas.

No episódio de hoje, trago o elemento que, ironicamente, foi o mais difícil, para mim, escrever: a escrita. A dificuldade se coloca no seguinte obstáculo: é algo muito muito particular de cada pessoa e cada comediante. Não apenas o estilo de escrita, mas também o processo criativo de cada pessoa é particular. Existem comediantes que sentam em frente ao computador e escrevem todos os dias, faça chuva, sol, furacão ou terremoto. Outros ficam à espera da graça divina lhes presentear com inspiração e piadas vindas do céu. Alguns escrevem no palco, outros simplesmente contam histórias que aconteceram. Mas não se engane: mesmo os que não escrevem, literalmente falando, estão escrevendo.

A arte de contar histórias pode parecer tentadora à olhos destreinados. “Eu subo lá, conto uma parada que me aconteceu semana passada, e todo mundo ri, não preciso escrever porra nenhuma, pau no cu desse cara que escreve o blog”. Pau no seu cu, meu amigo. Storytelling requer escrita, pontos de risada, distorções cômicas. Assista ao novo especial do John Mulaney no Netflix e observe como ele constrói suas histórias. Não são contos monótonos onde a plateia ri apenas no desfecho. A cada poucos segundos, ele consegue risadas com comentários adicionais. Isso foi escrito, pensado, trabalhado. Não pense que, por melhor comediante que ele seja, o Kid Gorgeous subiu no palco e simplesmente vomitou a historeta por acaso, sem pensar em ter risadas por minuto, em saber onde e como prender a atenção da plateia e, até mesmo, escolher certas palavras em detrimento a outras, apenas por serem mais engraçadas. Contar histórias requer um trabalho de escrita fodido, seja ele sentando na frente do computador ou talhando o material no palco, como um bom e velho artesão.

Outros comediantes preferem as chamadas “one-liners”, que se popularizaram no Brasil pelo termo “piadas curtas”. Elas são independentes, ou seja, não necessitam de piadas anteriores ou posteriores para fazer sentido. Mesmo assim, podem ser agrupadas em um set, orbitando sobre um mesmo tema. Nesse tipo de chiste, é necessária a concisão máxima. É um concentrado de piada. Tudo o que você quer dizer, com o menor número de palavras possíveis, no menor tempo possível. Delicioso. Uma one-liner, para ser bem realizada, precisa de um final completamente surpreendente. Você só tem um tiro, e ele tem que ser certeiro. Caso a plateia preveja o caminho que você vai tomar, meu amigo, você está perdido e seu tiro sairá pela culatra. Engane os malditos! Aqui um exemplo de uma one-liner minha:

“Li uma notícia sobre um professor de escola pública que foi preso por comprar ‘presentes eróticos’ pra uma aluna de 13 anos. Meu Deus. Como é que um professor tem dinheiro pra comprar presente pra alguém?”

Claro que essa piada tem mais de “uma linha”, mas se caracteriza como one-liner por ter raciocínio próprio, começo, meio e fim e não depender de piadas prévias ou posteriores. Posso contar apenas essa piada e seguir para outro assunto, assim como existe a possibilidade de estendê-lo, falando sobre escolas, professores, notícias malucas ou abuso infantil. As probabilidades são infinitas e suculentas.

Em ambos os casos, a procura é pela quantidade de risadas por minuto. Detesto ser chato e repetitivo nesse ponto, mas detesto ainda mais ir assistir a uma noite de open mic onde o coitado tem 5 minutos pra fazer suas piadas e cada uma delas leva um minuto para ser contada. É necessário encurtar os espaços, tirar o ar entre as linhas, deixar a piada compacta. Quanto menos tempo entre uma risada e outra, melhor. Seja contando histórias, piadas curtas, bits, tanto faz. São apenas métodos diferentes para se chegar a um denominador comum: risadas. Não é porque você está contando uma história que será tolerado ficar um minuto e meio sem risadas. Não é porque está fazendo one-liners que você poderá errar três de quatro piadas. Risadas por minuto, não se esqueça.

Sobre o processo de escrever uma piada, sempre tive grandes ressalvas em apresentá-lo pois, como disse anteriormente, esse é um caminho que cada comediante trilha por si só. Meu método pode servir para uns e não para outros. Você pode criar seu próprio processo, onde só consegue escrever piadas trancado no porão de sua casa, vestindo as calcinhas da sua mãe. Problema seu. Mas creio que mal não fará expor minha maneira de escrever e, por favor, não siga isso como uma verdade. É apenas mais um jeito de escrever, assim como existem milhares de outros. Algum deles servirá em você. Assim como as calcinhas de sua mãe.

Para eu compor um set de piadas sobre determinado tema, esse tema necessariamente precisa me tocar de alguma forma. Ou eu o adoro, ou detesto. Se algo me incomoda profundamente, tenho vontade de tocar no assunto. Tenho, confesso, dificuldades em me manter motivado para escrever sobre as notícias da semana. Escrevo? Escrevo. Mas sem um pingo de tesão. “Lula preso”? Não me interessa. “Rato tomando banho”? Engraçado, mas também não mexe comigo. Eu necessito de um fator motivacional que me leve a expressar um ponto de vista sobre o assunto.

Porém, uma vez tendo o assunto que quero falar sobre, sento-me na frente do computador e simplesmente despejo a emoção. “Eu odeio fila de mercado por isso, isso e isso”, “eu amo cachorros por isso, isso e aquilo”, sem buscar, em primeiro plano, a piada. Com a emoção correta, eu consigo mostrar meu ponto de vista e, aí, colocar em forma de piada é a parte mais fácil (ao menos para mim). É como encher forminhas de gelo. Tendo o líquido certo, posso colocar na forminha que quiser, desde as quadradas até as em formato de melancia. Delicioso.

O processo de escrita de piadas é sempre uma dúvida muito grande para quem está começando na comédia. E deveria ser mesmo. Esse é o ganha pão, a parte mais importante de um humorista. O material é a base de sua casa. Usar uma roupa maneira não vai te fazer mais engraçado se você não tiver a base. Palavrões não serão motivos de riso se não tiver a base. Texto é sua base. Nada cresce sem a base. Nunca se esqueça disso.

Quem é mestre em ensinar escrita é a Carol Zoccoli. Aqui estão alguns vídeos dela mostrando a mecânica das piadas, tipos de punchline e mais outras minúcias para quem se interessa. Vejam todos os vídeos dela, vejam vídeos dos outros, vejam comediantes ao vivo e notem como eles preparam as piadas, como distorcem o punchline, com que frequência conseguem risos. Estudem.

Semana que vem posto mais um texto sobre os cinco pontos de um comediante. Caso tenha alguma dúvida, comente abaixo ou nos outros posts. Sugestões sobre temas também são bem-vindas. Um grande abraço e uma dedada.

Cinco pontos de um comediante – #1 Ritmo

O inverno foi duro. Mais longo que o esperado. E frio, gélido, de partir os ossos. Afortunadamente, o outono fora proveitoso e pude armazenar alimento e gordura suficientes para hibernar. Agora regresso, sonolento e com as juntas estralando, com vontade de cheirar as flores e ser picado por abelhas, ambos frutos da primavera que está logo ali na esquina.

O blog está de volta, não se sabe se para a vida toda ou para uma edição extraordinária, mas o importante é estarmos juntos mais uma vez. A razão do regresso é a mesma da partida: aleatória. Ontem, duas pessoas me lembraram sobre o blog, perguntaram se ele estava morto e por que não foram convidadas para o velório. Respondi que seria de caixão fechado e não lhes devia mais explicações. Aprecie o momento e leia o que eu tenho para lhe contar.

Certa feita, elaborei um (bastante raso, admito) workshop de comédia stand-up, no qual desenvolvi a seguinte teoria: um comediante tem 5 pontos fundamentais em seu processo criativo e performance: escrita, ponto de vista, entrega, timing e ritmo. Hoje, abordaremos o ritmo.

Ao contrário do que possa parecer, o ritmo de uma apresentação de stand-up comedy nada tem a ver com falar rápido ou alto, e sim com fluidez e, principalmente, risadas por minuto. Um comediante que fala monótona e pausadamente, que tem um punch a cada 10 ou 15 segundos (como a lenda Steven Wright) tem um ritmo de apresentação muito maior que um cara que sobe no palco pra vencer o campeonato brasileiro de repentistas, sem uma regularidade de piadas que efetivamente funcionam.

Faça um teste. Assista a um vídeo de seu comediante favorito. Não importa quem seja ou qual seu estilo. One-liner, storytelling, pessoal, observacional, todos eles têm uma coisa em comum: o consistente número de risadas por minuto. Cronometre o tempo que ele leva entre uma piada e outra, entre uma risada e outra. Não sei qual comediante você escolheu, mas ouso dizer que esse número nunca será maior que 20 segundos. Por vezes será, inclusive, muito menor. Mas você deve estar encucado: “Existe alguma maneira de melhorar o ritmo da minha apresentação”? Não.

Mentira, existe sim:

Enxugar setups
Aquela velha e cansada técnica que todo mundo sabe, mas poucos põem em prática. Escreva seu texto, veja quantas palavras/frases/linhas existem para chegar ao punchline. Diminua essa distância. Corte palavras, encurte sentenças, deixe a frase mais concisa e clara que puder. Já vi esse dizer atribuído a Hemingway e Carlos Drummond de Andrade, não sei quem o disse, só sei que cabe como uma luva na comédia stand-up: “Escrever é a arte de cortar palavras”.

Tags
Tag é uma coisinha que deve vir depois do punch naquela formulinha mágica de “setup+punch”. Vou exemplificar com uma piada minha:
SETUP: Meu pai me batia quando eu era criança e sei que ele não me batia por mal, ele só fazia isso com medo que eu virasse gay. Graças a isso hoje eu não sou gay, *PUNCHLINE* eu sou masoquista.

A piada poderia acabar por aí. Setup curto, distorção cômica no punch, a piada funciona. Mas que tal colocar uma tag?
TAG: Quando eu transo com uma mulher, eu peço pra ela me chamar de filho e espancar o meu bumbum.

Agora eu tenho duas risadas utilizando apenas um setup. Double de risadas, ótimo, trabalho concluído. Negativo.
TAG: Ela até bate, mas sem a autoridade que eu quero.

Com um único setup, três focos de risada, ótima maneira de acrescentar ritmo ao material.

Colocar mais piadas no texto
Óbvio parece, mas nem todo mundo se toca disso. Se você curte o storytelling, que tão na moda está, não se contente em ter apenas risada ao final de sua historeta. Ninguém merece ou aguenta ficar ouvindo uma pessoa contar uma história de três minutos que supostamente é cômica, mas só se ri no final dela. Mesmo os comediantes que contam histórias longas têm punchlines a cada uma dúzia de segundos.

Essas são apenas algumas maneiras de se conseguir imprimir um melhor ritmo à apresentação. Outro ponto que ajuda é a fluidez do material. Não é gostoso dirigir um carro e nem sentir a mudança de marcha? Na comédia, é a mesma coisa. Cada piada é uma marcha. Se você ficar travando a cada mudança de piada ou mudar da primeira para a quarta marcha, tudo isso fere o seu ritmo. Para tal, é importante ensaiar bastante o texto, saber organizar as piadas dentro de um set de modo que elas se liguem e tenham uma força crescente.

Espero que esse pequeno texto tenha ajudado a quem quer que seja. Vou tentar atualizar com mais frequência o blog, mas para isso preciso da ajuda de você, amigo internauta. Tem alguma dúvida sobre comédia, algum tópico que acha que merece atenção, alguma dificuldade na vida de open mic que queira esclarecer, comente no post contando seu drama que tentarei ajudar-lhe se estiver dentro do meu alcance.

Piloto-automático

Há pouco mais de um ano, comecei uma tarefa que, logo depois, tornou-se um hábito. Religiosamente, eu… Não, espera, não gosto desse termo. “Religiosamente”. Me dá calafrios. Selecionei a palavra e cliquei com o botão direito. “Sinônimos”. nenhum. Mas acho que não importa a expressão, desde que ela expresse que faz mais de ano que gravo todas as minhas apresentações, em áudio. Depois ouço-as, analiso-as e faço um pequeno resumo geral do que aconteceu aquela noite.

Creio que essa é uma maneira muito interessante do comediante conhecer seu próprio material mais a fundo, para conseguir extrair o máximo dele. Quem vive de comédia sabe que meio segundo de atraso ao dizer o punchline pode acabar com a força da piada, assim como centésimos de adiantamento em uma palavra tem o poder de matar o final cômico de uma história. Respirações, pausas, entonações, modulações de voz, tudo isso é tão importante para uma boa apresentação quando o próprio material. Por isso, incentivo todos que são ou pretendem ser comediantes a tornar essa prática um hábito em suas vidas. Hoje em dia, qualquer celular tem gravador de áudio e todo mundo tem um computador. Se você não tem um computador, mas está lendo isso, provavelmente está em um lan house, então aproveite e crie logo um Google Drive que funciona do mesmo jeito. O gravador é para, quem diria, gravar a apresentação e o computador para armazenar áudios de shows e escrever suas considerações sobre a performance. Nada que o bom e velho e surrado e comido pelas traças papel e caneta não dê conta também.

Conselhos dados, vamos ao epicentro do post. Essa semana, fiz um show onde testei algumas piadas novas. Abri com um material “garantido”, que eu faço a todo momento. Não funcionou muito bem. Confesso que fiquei apreensivo. O que será desse material novo se até as piadas velhas sucumbiram à batalha? Foram alguns minutos de pedaladas (fiscais?). Me senti como o Lula Inflável, desinflado. Bom, após o início turbulento, chegou a hora de estrear as pobres piadinhas. E não é que as filhas-da-puta foram muito bem? Que grande surpresa.

Dia seguinte, ao realizar minha habitual análise do show, acabei notando com mais clareza os fatores apontados no parágrafo acima. Minhas piadas “garantidas” capengaram, enquanto as novas explodiram. Será que consegui criar piadas tão boas a ponto de fazer meu material antigo assemelhar-se a chorume? Duvido muito. Mas então, o que diabos aconteceu? Aconteceu que eu entrei no piloto-automático.

Isso é algo bastante corriqueiro, na verdade. Não apenas comigo ou com você, mas com qualquer comediante. Quando o humorista executa o mesmo material muitas vezes, consecutivamente, é normal que esse texto seja dito de uma maneira cada vez mais inconsciente. Você não está mais contando as piadas, e sim apenas repetindo-as, de novo e de novo. E, ao entrar nesse processo de “piloto-automático”, seu material perde força. Quando se conta a piada dessa maneira, ela perde impacto pois o comediante não está 100% dentro dela. Quem explicou isso de uma maneira muito bacana foi a Carol Zoccoli nesse vídeo.

Pode-se notar a brusca diferença em relação ao material novo. Como eram coisas (quase) inéditas, eu não sabia direito como elas fariam o público reagir. Logo, dediquei muito mais atenção a elas, para que funcionassem da melhor maneira. E, provavelmente, foi por isso que elas funcionaram bem, enquanto as antigas não chegaram nem perto disso.

“Mas, como eu faço para não entrar nesse ‘piloto-automático’”? O primeiro passo é prestar atenção no que se está fazendo. Se você está contando uma piada e, ao mesmo tempo, pensando em tentar sair com a moça bonita da primeira mesa, você já está no piloto-automático. Fique na piada, coloque todas as emoções necessárias para ela funcione em sua plenitude. Não apenas cuspa o seu material. Sinta ele e faça com que as pessoas da plateia também o sintam. Porém, como eu disse, é comum que isso aconteça, independente do humorista. Quando você notar que está fazendo isso, deixe um pouco o material em questão de lado. Fique um ou dois meses sem fazê-lo, dê umas férias para o coitado. Aposto que ele voltará tinindo para as próximas apresentações. E se mesmo após boas férias nas Bahamas, ele retornar ainda cansado e sem realizar seu trabalho direito, creio que seja a hora de aposentar esse material.

Gosto de pensar que alguns de vocês notaram que não postei nada semana passada. Bom, isso ocorreu porque estou incrivelmente ocupado e procurando dar prioridMENTIRA. Não teve post porque eu não consegui achar algum tema relevante para escrever sobre. Até comecei dois textos, mas eles estavam uma bosta, acreditem em mim. Então, o que vocês podem fazer para me ajudar a manter esse blog funcionando semanalmente, é mandar sugestões de temas para posts futuros. Quais suas dúvidas sobre o mundo do stand-up, meu jovem open mic? Escreva nos comentários aqui no blog, facebook ou twitter. Ou mesmo me mande uma inbox, caso tenhas vergonha de sua dúvida estúpida.

No mais, o de sempre: compartilhem, mostrem pros amigos e mandem críticas, sugestões e elogios porque preciso me manter motivado.

Sério.

Como testar material

Todo comediante é um pouco masoquista. Bem, talvez masoquista não seja o termo que procuro. Um humorista não necessariamente deve gostar do sofrimento, mas aprender a lidar com ele a cada minuto em que está no palco. Já ouviu falar que todo atleta de alto rendimento tem de conviver com dores? Então é isso. Um comediante é um atleta de alto rendimento. Eu sou um atleta de alto rendimento. Nos vemos nas Olimpíadas.

Não pensem vocês que esse papo de lidar com sofrimento ou dor tem a ver com depressão, melancolia, ou tristeza (tem também). A angústia a qual me refiro é no trato comediante-plateia. Jerry Seinfeld disse uma vez (provavelmente mais de uma. Meu palpite é 34 vezes) que ninguém é mais julgado, na sociedade civilizada, que um comediante stand-up. E isso é a mais pura verdade. A cada piada que um humorista conta, um julgamento ocorre. Se a plateia ri, o coitado é absolvido. Se o silêncio imperar, ele é condenado. E tal corte marcial do chiste tem seus lados bom e ruim.

A parte ruim é, lógico, a pressão de ser avaliado a cada piada contada. Ter a obrigação de fazer um monte de estranhos rirem após uma historinha que dura 15 ou 20 segundos é, analisando friamente, insano. Isso sem contar o fato de que essa experiência deve ser repetida dezenas e dezenas de vezes em uma apresentação de 10 minutos.

O lado bom, é que cada piada significa uma chance de recomeçar. Você foi condenado após uma piada ruim? Terá a oportunidade de ser absolvido na próxima. Toda piada é um julgamento em separado. Mas isso também, olha só, tem um lado ruim. A parte chata é que, se você contar uma piada muito boa, digna de aplausos e gritinhos, a próxima tem que ser boa também. Essa piada magnífica não serve de nada se as duas seguintes não funcionarem. Você foi absolvido após uma piada boa? Existe a chance de ser condenado na próxima. Toda piada é um julgamento em separado.

E, se todo esse processo parece assustador, mesmo utilizando um material “garantido”, imagine só o caos interno que enfrenta um comediante quando vai testar piadas novas. E esse, senhoras e senhores, é o tema de hoje.

Escrever e apresentar um novo material é parte constante e também muito importante na vida de qualquer humorista, e cada um procede de um jeito na hora de testar piadocas novas. Alguns estreiam uma piada de cada vez, a fim de montar um set completo ao final de um determinado período. Outros experimentam trechos maiores, de dois, três ou quatro minutos, e há também aqueles que tentam entradas inteiras inéditas, de 10 ou 15 minutos. Na minha ótica, todas essas maneiras de testar piadas têm seus prós e contras, cada comediante segue a que lhe deixa mais confortável. Mas, certamente, há métodos mais seguros que outros.

Testar piadas individualmente, uma a uma, é a maneira mais segura e demorada para conseguir material novo, talvez a mais indicada para open mics. Experimentar bits, de três ou quatro minutos sobre um mesmo tema, creio ser o mais normal entre os humoristas. E, por fim, fazer entradas inteiras novas é o método mais arriscado de criar texto e, que eu saiba, é o menos utilizado atualmente. Particularmente, usei essa ferramenta apenas uma vez e foi bastante ruim. Mas acho que a tentativa valeu a pena e, por que não, possa ser utilizada novamente.

Abrir uma apresentação com piadas novas não é uma boa ideia. Não vou dizer que você nunca deva utilizar piadas estreantes na abertura, porque acredito que o stand-up também deve ser um espaço para experimentação e, caso você sinta-se confiante para tal, é sua conta que está em risco. Mas creio que não há nenhuma vantagem em se abrir com material novo, além de ser uma prática recheada de perigos. A abertura é um dos momentos mais importantes de sua apresentação, e um início capenga vai interferir no bom andamento do show. O problema de abrir com piadas novas é que não se sabe como elas farão o público reagir. E impossível definir qual o nível de risadas que uma piada ou material novo pode alcançar. Claro, sabe-se que alguns temas são mais fáceis de se obter riso, como os velhos “corinthiano(ou quem mora longe)-ladrão”, “são-paulino(ou gaúcho)-gay”, “Preta Gil(Péricles ou Arlindo Cruz)-gorda”, além de estereótipos em geral. Se você está pensando em fazer piadas com essas lógicas diante de uma plateia, faça um favor para todos e nem saia de casa. O mundo não precisa de mais piadas como essas.

E, além da imprevisibilidade do material novo, outro obstáculo que o comediante enfrenta ao abrir com piadas novas é o seu próprio nervosismo. Já há uma tensão normal que envolve o começo da apresentação, assim como há ansiedade quando se testa algo novo. Juntar as duas não me parece inteligente. “Mas Pedro, então qual o momento certo para que eu insira minhas piadas novas”? O melhor é colocar as piadas novas entre duas que funcionem bem. Essa é uma recomendação clássica do stand-up. Dessa maneira, se impede que o rimo do show caia caso o material novo não funcione. Mas acho que vale a pena aprofundar um pouquinho nesse tópico e falar sobre a organização do material dentro de um set. Em 10 ou 15 minutos de apresentação, há tempo de se fazer uma abertura bem caprichada, de três ou quatro minutos, para aí sim introduzir as coisas novas. Digamos que o material estreante tenha três minutos. Ao término dele, serão sete minutos de apresentação, o que deixa tempo suficiente para realizar um bom final e fechar em alta. Eu, particularmente, não gosto de colocar um material novo exatamente no meio da apresentação. Procuro encaixá-lo entre o início e o meio, ou da metade para o final, dependendo da plateia. Diante de um público mais fácil, em que a abertura do show foi o suficiente para fazer com que eles se soltassem, coloco o texto novo antes da metade do show. Já confrontando plateias mais difíceis, que não riem tanto, deixo as piadas novas para a segunda metade da apresentação, deixando mais tempo para preparar o terreno com um material “garantido”. Prefiro esses métodos pois me incomoda que o miolo da apresentação seja o seu ponto fraco. Não sei exatamente o motivo, mas isso me dá uma sensação ruim. Mas, como disse antes, cada comediante tem sua maneira de proceder, não há certo ou errado.

Mas, e no caso de nossos pequenos open mics, como eles testarão piadas novas em seus preciosos 5 minutos? Antes de falar sobre isso, quero aqui ressaltar outra recomendação do stand-up que, apesar de clássica hoje, não tive acesso na minha época de iniciante: mais importante que ficar fazendo piadas novas todo show, é o open mic conseguir construir um set de cinco minutos muito bons, que funcionem em praticamente qualquer situação. Claro que, para chegar a isso, é importante a experimentação de material. Mas, nessa fase da carreira, é necessária uma cautela maior. Quando eu comecei, me preocupava em renovar o texto toda hora, sendo que o antigo nem estava bom ainda, e isso atrasou um pouco a minha evolução.

Como todo open mic tem, no máximo, cinco minutos para ficar no palco, testar um bloco de piadas de três minutos, por exemplo, me parece arriscado. Creio que a melhor tática é usar o conta-gotas, como disse lá no começo do post. Trabalhar 1 minuto por vez me parece um número ideal. “Poxa, mas um minuto é muito pouco”. Um minuto é tempo suficiente para testar três, quatro, quem sabe cinco piadas, o que é bastante coisa. E, lembre-se: 1 minuto corresponde a 20% do tempo da sua apresentação. Não é pouco. Quando esse minuto estiver nivelado com o restante do material (que eu suponho ser um nível bom, que arranque risadas de um certo volume frequentemente), você vai para outro minuto. Lapidando e deixando esse novo minuto na mesma condição dos demais, parte para um novo.

Essa é uma maneira muito segura de renovar o seu material sem deixar de fazer boas apresentações, além do fato de que trabalhar e deixar no ponto 1 minuto de piadas é muito mais fácil que três ou cinco minutos. Eu garanto que, se você for um bom open mic e trabalhar duro, no final de um ano você terá 12 ou 15 minutos bons de texto, o que pode (possibilidade, não garantia) te levar a se apresentar como canja ou convidado em alguns shows ou, no mínimo, significa que você terá três sets diferentes, do mesmo nível, para apresentar como open mic.

Há um tempo eu fiz uma sessão aqui no blog chamada “Testando Piadas“, onde eu mostrava como era a minha construção de um texto novo. Clique aqui para ver esses posts e, quem sabe, eu volte com essa sessão tão legal.

Deixe seu comentário aqui ou no facebook, divulgue para os amigos, compartilhe o link e, principalmente, dê sugestões para posts futuros. Sobre o que você quer ler aqui n’O Nascimento de uma Piada?

Entrevista Humorista #1 – Gabe Cielici

Então, meu povo. Esse é o primeiro post do “Entrevista Humorista”, um nome bastante autoexplicativo. Aqui, entrevisto humoristas (exatamente) para saber suas opiniões e impressões sobre a comédia.

Só para ressaltar: “Entrevista Humorista” é o nome de um projeto que bolei para o rádio, com a mesma ideia. Inclusive foi meu TCC na faculdade de jornalismo. Talvez ele vire áudio também futuramente.

Para o post de estreia, entrevistei um rapaz que está se destacando cada vez mais no cenário paulista do stand-up: Gabe Cielici. Vamos a um breve histórico dele.

Natural de Santos, Gabe Cielici faz stand-up comedy desde 2011. É o criador d’A Espetacular Hora da Comédia, show referência na comédia underground do Brasil, além de fazer parte do elenco do Comedians Club. Gabe ainda tem o show “Músicas Para Ex-Namoradas”, onde ele toca canções sobre seus relacionamentos frustrados.

 

Aproveitem a entrevista!

 

Gabe, talvez você seja o comediante com mais fluxo de pensamento que eu conheço. Tem ideia de quantas piadas você escreve por dia?
Não tenho uma média de piadas, mas eu sei o quanto consigo escrever por dia. Eu sei os meus limites. Tive uma fase de escrever 10 piadas por dia. Sei que se tiver inspirado, e afim de escrever mesmo, posso sentar e escrever 5 ou 10 one-liner (nota: one-liner é um estilo de piada curta e que funciona independente das piadas que vêm antes ou depois) por dia. Isso eu consigo fazer. Mas, hoje em dia, eu tenho escrito algumas piadas que não são tão one-liner. Eu faço uma one-liner e também algumas maiores.

Você acaba testando todas essas piadas que escreve?
Eu testo praticamente tudo, mesmo que não acabe levando a diante. Tem piada que eu só fiz uma vez na vida. Por exemplo, uma sobre odiar alguém, que inclusive está no YouTube (clique aqui para assistir).

Sobre seu estilo de escrita, você nota diferenças entre a época que você começou e agora?
Acho que não mudou nada. O que eu acho que aconteceu foi, quando comecei,  tinha uma ideia do que eu queria fazer, só que todo mundo começou a me “podar”. Isso porque eu comecei com uma galera um pouco mais “coxinha”, e eu tinha esses meus pensamentos loucos, que pra mim são naturais, mas isso era muito “podado” pelos outros. A primeira piada que eu escrevi foi falando que minha ex-namorada terminou comigo, então eu roubei as coisas dela que estavam na minha casa e vendi. E isso aconteceu mesmo, eu realmente fiz isso. E aí todo mundo ficou falando: “Não, você não deve falar sobre isso”.

Você sofreu mais preconceito do próprio meio do stand-up que da plateia? Como era a reação do público com as suas piadas?
A plateia gostava, mas eu acho que a opinião da plateia não importa. Porque você pode ir a lugares onde as pessoas vão rir de piadas chulas e bestas. Então, será que a opinião daquela plateia importa? E não necessariamente essas pessoas são ignorantes ou à margem da sociedade. Muitas vezes não executivos, e mesmo assim estão lá, rindo de piada de corinthiano, e é isso que eles querem ouvir. Pra mim, importa a opinião do círculo de pessoas que você se cerca, e que as vezes podem fazer parte da plateia, como muitas vezes acontece lá no porão (nota: o porão, aqui mencionado, é o Frey Café, local das apresentações regulares do grupo de Gabe, “A Espetacular Hora da Comédia”). Mas a plateia em geral, é só um mar de gente, todos com opiniões diferentes e ninguém sabe a opinião de ninguém. Nunca dá pra você confiar numa multidão que não se conhece e que você não conhece também. Seria muito burro pra qualquer pessoa fazer isso.

Você citou o porão. Quando você vai fazer um show no interior, ou em outra cidade menor, há a adaptação de material em relação ao que você faz no porão?
Geralmente, os shows que eu faço fora do circuito de São Paulo, são um estupro pessoal (risos). Porque o certo é eu mudar um pouco o material.  As vezes eu faço isso, as vezes não, e em 98% das vezes o resultado é a mesma merda.

Você imagina qual o motivo disso?
Existem lugares que as pessoas não estão prontas pra me ver pela primeira vez. Elas estão prontas pra me ver na televisão, na internet, e aí sim no palco. O pessoal dessa cidade pode ser meio distante da comédia, se bem que eu não acredito muito nisso. Porque, independente de não conhecer stand-up, rir é um impulso natural.

A risada independe do conhecimento da pessoa sobre a arte.
Sim. Mesmo em um lugar onde não se conhece stand-up, eu sou contra a apresentar o stand-up, no sentido de dizer: “o stand-up funciona assim. Se gostou, dá risada, se gostou muito, aplaude. Vou sair e entrar de novo”. Sou contra isso. Porque rir é um impulso natural, e o aplauso também, quando o corpo da pessoa se contrai e ela acaba batendo as mãos, como se fosse um momento de “eureca”, o que mostra que ela concordou com você. Mas, completando a resposta, eu não gosto muito dessa história de “fazer a plateia me comprar”.  A minha busca é por um estilo onde a identificação é espontânea. Eu não treino no espelho, eu não faço porra nenhuma, só tento ser cada vez mais natural. Eu estou indo contra tudo o que me ensinaram aqui.

E por quê?
Sempre me ensinaram que você tem que fazer a plateia te comprar, tem que adaptar texto pra alguns lugares, e eu não tô fazendo nada disso. Eu não estou correndo atrás de agradar. Eu faço o que é bom pra mim. Tem até uma música do Jay-Z que fala sobre isso, que diz: “Nobody built like you, you designed yourself”.

Eu gosto bastante dessa atitude de fazer o que você acha legal, independente do lugar. Eu, quando fazia um humor negro mais radical, sofri bastante retaliação do meio, com gente dizendo: “Não vai fazer piada pesada, não faz tal piada”.
Isso é ridículo.

Aconteceu alguma vez contigo?
Sim, acontece muito! Geralmente a pessoa que faz esse tipo de comentário é muito ignorante. Acho que pra você julgar alguém a ponto de falar: “não faz isso”, tem que entender muito do que você está falando.

Eu tenho uma visão de que o comediante brasileiro protege muito a sua plateia, na questão de não fazer uma piada porque alguém pode se ofender, mesmo achando ela engraçada. E, por conta disso, acaba privando a plateia de algumas coisas que ela poderia gostar.
O que aconteceu com ter novas descobertas? Deixa a plateia ter novas descobertas, sobre o que eles querem ou não rir.

Exatamente. O comediante, ao invés de deixar a plateia decidir o que é bom ou ruim pra ela, ele mesmo faz esse crivo e escolhe com o que a plateia se ofende ou não, pode ou não ouvir.
Cara, dá pra contar nas mãos do Rominho (Braga) (nota: Rominho Braga é um comediante paraense que só tem quatro dedos em uma das mãos :D) quantos comediantes têm a ousadia de tentar fazer alguma coisa diferente.

E por que você acha que isso acontece? Eu vejo muitos comediantes bons, com ótimas referências, mas que preferem ficar apenas nas piadas fáceis.
Acho que o treino não adianta nada se você não tiver talento. O treino ajuda o talento a se desenvolver, mas treino sem talento não adianta nada. Tem muito diamante bruto ainda no Brasil, gente que ainda não se descobriu. Acho que daqui a pouco vai aparecer um moleque muito melhor que eu, outro muito melhor que você. Tem gente com muita referência e querendo fazer, mas no final das contas, acho que o que salva no final é o talento. Eu já toquei em banda, e já vi nego ser muito virtuoso, e tocar dez mil vezes melhor que eu, mas ele mal conseguir desenvolver uma música que tivesse identidade. Uma coisa é você ser um veículo, outra coisa é você ser um piloto.

Explique essa analogia.
Tem gente que é veículo, pessoas que são apenas dirigidas, e apenas vão na fila, com todos os outros veículos. E tem gente que é o piloto, que comanda, que sabe pra onde ir. E eu vou te dar um exemplo muito bom para o desfecho dessa analogia. Quando eu comecei a fazer one-liner, tentando esse estilo aqui no Brasil… Eu digo aqui no Brasil porque eu conheci o stand-up nos anos que eu morei nos EUA. Então, quando comecei a fazer one-liner, tentando esse estilo, porque eu estava um pouco perdido ainda, um comediante me falou: ‘Você tem que fazer curvas na comédia. Não pode fazer uma piada e terminar aí. Tem que desenvolver o tema, fazer uma continuação. Você tem que ir cortando caminho”. E eu não quero cortar caminho. Na vida não tem atalho. Eu quero ir reto, meu estilo é assim, é assim que eu faço. Não vou fazer curva, não vou enrolar nas minhas piadas. É isso. O golfinho é um tubarão com down, acabou.

Você está fazendo algo que eu, particularmente, acho fantástico agora, que é contar piadas na rua. Como surgiu essa ideia?
Como eu moro sozinho, e pra não ficar o dia inteiro em casa, eu comecei a ir a cafés pra escrever. Mas eu gastava muito dinheiro lá. Teve dias que eu tomei cinco espressos antes do meio-dia. Então eu comecei a ir pra rua com minha mesinha, pra escrever piadas lá. Aí, as pessoas que passavam me perguntavam o que eu estava fazendo, eu dizia que estava escrevendo piadas, e elas sempre pediam pra eu contar uma piada. Nisso eu comecei a ir pra rua com a mesinha e com uns cartazes escrito: “Conto piada”.

E qual a reação do público quando você conta a piada em um contexto tão diferente. Porque no bar a pessoa está lá para ver o show, mas na rua, ela está passando, indo fazer outra coisa.
As pessoas riem, mas a maior reação é a de surpresa, porque elas não esperam ouvir uma piada ali, naquele momento. Eu vejo também que muitas tem um pouco de receio por achar que vão ter que pagar pra ouvir a piada. Mas agora eu ando com uma plaquinha escrito “de graça”, então acontece muito, até casal, de estarem andando na rua e a mulher fala: “Olha, ele conta piada, vamos lá”, e o cara fica: “Ah, não sei”. Mas quando ele vê que é de graça, aí ele aceita também.

 

 

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Stand-up Comedy: A Espetacular Hora da Comédia, toda terça-feira no Frey Café e Coisinhas, toda quarta na Garagem da Pompéia (ambos às 21h) e todo domingo no Jardim das Delícias (20h), todos em São Paulo/SP
Rua: Geralmente na Avenida Paulista, em frente ao Parque Trianon em horário comercial. Mas para saber se ele estará em algum outro lugar, siga e acesse as redes sociais do cara!