Cinco pontos de um comediante – #2 Escrita

Semana passada apresentei à você, querido leitor, um dos cinco pontos de um comediante: o ritmo. Caso tenha perdido, leia clicando aqui, aqui ou aqui. E aqui também. Apenas relembrando, essa história de “cinco pontos de um comediante” eu criei para meu workshop de comédia, o que não representa, em absoluto, uma verdade institucional do stand-up. São apenas impressões e experiências que obtive nos meus anos de carreira. Isso não quer dizer que estão aí todos ou únicos fatores que fazem um humorista. As imagens são meramente ilustrativas.

No episódio de hoje, trago o elemento que, ironicamente, foi o mais difícil, para mim, escrever: a escrita. A dificuldade se coloca no seguinte obstáculo: é algo muito muito particular de cada pessoa e cada comediante. Não apenas o estilo de escrita, mas também o processo criativo de cada pessoa é particular. Existem comediantes que sentam em frente ao computador e escrevem todos os dias, faça chuva, sol, furacão ou terremoto. Outros ficam à espera da graça divina lhes presentear com inspiração e piadas vindas do céu. Alguns escrevem no palco, outros simplesmente contam histórias que aconteceram. Mas não se engane: mesmo os que não escrevem, literalmente falando, estão escrevendo.

A arte de contar histórias pode parecer tentadora à olhos destreinados. “Eu subo lá, conto uma parada que me aconteceu semana passada, e todo mundo ri, não preciso escrever porra nenhuma, pau no cu desse cara que escreve o blog”. Pau no seu cu, meu amigo. Storytelling requer escrita, pontos de risada, distorções cômicas. Assista ao novo especial do John Mulaney no Netflix e observe como ele constrói suas histórias. Não são contos monótonos onde a plateia ri apenas no desfecho. A cada poucos segundos, ele consegue risadas com comentários adicionais. Isso foi escrito, pensado, trabalhado. Não pense que, por melhor comediante que ele seja, o Kid Gorgeous subiu no palco e simplesmente vomitou a historeta por acaso, sem pensar em ter risadas por minuto, em saber onde e como prender a atenção da plateia e, até mesmo, escolher certas palavras em detrimento a outras, apenas por serem mais engraçadas. Contar histórias requer um trabalho de escrita fodido, seja ele sentando na frente do computador ou talhando o material no palco, como um bom e velho artesão.

Outros comediantes preferem as chamadas “one-liners”, que se popularizaram no Brasil pelo termo “piadas curtas”. Elas são independentes, ou seja, não necessitam de piadas anteriores ou posteriores para fazer sentido. Mesmo assim, podem ser agrupadas em um set, orbitando sobre um mesmo tema. Nesse tipo de chiste, é necessária a concisão máxima. É um concentrado de piada. Tudo o que você quer dizer, com o menor número de palavras possíveis, no menor tempo possível. Delicioso. Uma one-liner, para ser bem realizada, precisa de um final completamente surpreendente. Você só tem um tiro, e ele tem que ser certeiro. Caso a plateia preveja o caminho que você vai tomar, meu amigo, você está perdido e seu tiro sairá pela culatra. Engane os malditos! Aqui um exemplo de uma one-liner minha:

“Li uma notícia sobre um professor de escola pública que foi preso por comprar ‘presentes eróticos’ pra uma aluna de 13 anos. Meu Deus. Como é que um professor tem dinheiro pra comprar presente pra alguém?”

Claro que essa piada tem mais de “uma linha”, mas se caracteriza como one-liner por ter raciocínio próprio, começo, meio e fim e não depender de piadas prévias ou posteriores. Posso contar apenas essa piada e seguir para outro assunto, assim como existe a possibilidade de estendê-lo, falando sobre escolas, professores, notícias malucas ou abuso infantil. As probabilidades são infinitas e suculentas.

Em ambos os casos, a procura é pela quantidade de risadas por minuto. Detesto ser chato e repetitivo nesse ponto, mas detesto ainda mais ir assistir a uma noite de open mic onde o coitado tem 5 minutos pra fazer suas piadas e cada uma delas leva um minuto para ser contada. É necessário encurtar os espaços, tirar o ar entre as linhas, deixar a piada compacta. Quanto menos tempo entre uma risada e outra, melhor. Seja contando histórias, piadas curtas, bits, tanto faz. São apenas métodos diferentes para se chegar a um denominador comum: risadas. Não é porque você está contando uma história que será tolerado ficar um minuto e meio sem risadas. Não é porque está fazendo one-liners que você poderá errar três de quatro piadas. Risadas por minuto, não se esqueça.

Sobre o processo de escrever uma piada, sempre tive grandes ressalvas em apresentá-lo pois, como disse anteriormente, esse é um caminho que cada comediante trilha por si só. Meu método pode servir para uns e não para outros. Você pode criar seu próprio processo, onde só consegue escrever piadas trancado no porão de sua casa, vestindo as calcinhas da sua mãe. Problema seu. Mas creio que mal não fará expor minha maneira de escrever e, por favor, não siga isso como uma verdade. É apenas mais um jeito de escrever, assim como existem milhares de outros. Algum deles servirá em você. Assim como as calcinhas de sua mãe.

Para eu compor um set de piadas sobre determinado tema, esse tema necessariamente precisa me tocar de alguma forma. Ou eu o adoro, ou detesto. Se algo me incomoda profundamente, tenho vontade de tocar no assunto. Tenho, confesso, dificuldades em me manter motivado para escrever sobre as notícias da semana. Escrevo? Escrevo. Mas sem um pingo de tesão. “Lula preso”? Não me interessa. “Rato tomando banho”? Engraçado, mas também não mexe comigo. Eu necessito de um fator motivacional que me leve a expressar um ponto de vista sobre o assunto.

Porém, uma vez tendo o assunto que quero falar sobre, sento-me na frente do computador e simplesmente despejo a emoção. “Eu odeio fila de mercado por isso, isso e isso”, “eu amo cachorros por isso, isso e aquilo”, sem buscar, em primeiro plano, a piada. Com a emoção correta, eu consigo mostrar meu ponto de vista e, aí, colocar em forma de piada é a parte mais fácil (ao menos para mim). É como encher forminhas de gelo. Tendo o líquido certo, posso colocar na forminha que quiser, desde as quadradas até as em formato de melancia. Delicioso.

O processo de escrita de piadas é sempre uma dúvida muito grande para quem está começando na comédia. E deveria ser mesmo. Esse é o ganha pão, a parte mais importante de um humorista. O material é a base de sua casa. Usar uma roupa maneira não vai te fazer mais engraçado se você não tiver a base. Palavrões não serão motivos de riso se não tiver a base. Texto é sua base. Nada cresce sem a base. Nunca se esqueça disso.

Quem é mestre em ensinar escrita é a Carol Zoccoli. Aqui estão alguns vídeos dela mostrando a mecânica das piadas, tipos de punchline e mais outras minúcias para quem se interessa. Vejam todos os vídeos dela, vejam vídeos dos outros, vejam comediantes ao vivo e notem como eles preparam as piadas, como distorcem o punchline, com que frequência conseguem risos. Estudem.

Semana que vem posto mais um texto sobre os cinco pontos de um comediante. Caso tenha alguma dúvida, comente abaixo ou nos outros posts. Sugestões sobre temas também são bem-vindas. Um grande abraço e uma dedada.

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Como testar material

Todo comediante é um pouco masoquista. Bem, talvez masoquista não seja o termo que procuro. Um humorista não necessariamente deve gostar do sofrimento, mas aprender a lidar com ele a cada minuto em que está no palco. Já ouviu falar que todo atleta de alto rendimento tem de conviver com dores? Então é isso. Um comediante é um atleta de alto rendimento. Eu sou um atleta de alto rendimento. Nos vemos nas Olimpíadas.

Não pensem vocês que esse papo de lidar com sofrimento ou dor tem a ver com depressão, melancolia, ou tristeza (tem também). A angústia a qual me refiro é no trato comediante-plateia. Jerry Seinfeld disse uma vez (provavelmente mais de uma. Meu palpite é 34 vezes) que ninguém é mais julgado, na sociedade civilizada, que um comediante stand-up. E isso é a mais pura verdade. A cada piada que um humorista conta, um julgamento ocorre. Se a plateia ri, o coitado é absolvido. Se o silêncio imperar, ele é condenado. E tal corte marcial do chiste tem seus lados bom e ruim.

A parte ruim é, lógico, a pressão de ser avaliado a cada piada contada. Ter a obrigação de fazer um monte de estranhos rirem após uma historinha que dura 15 ou 20 segundos é, analisando friamente, insano. Isso sem contar o fato de que essa experiência deve ser repetida dezenas e dezenas de vezes em uma apresentação de 10 minutos.

O lado bom, é que cada piada significa uma chance de recomeçar. Você foi condenado após uma piada ruim? Terá a oportunidade de ser absolvido na próxima. Toda piada é um julgamento em separado. Mas isso também, olha só, tem um lado ruim. A parte chata é que, se você contar uma piada muito boa, digna de aplausos e gritinhos, a próxima tem que ser boa também. Essa piada magnífica não serve de nada se as duas seguintes não funcionarem. Você foi absolvido após uma piada boa? Existe a chance de ser condenado na próxima. Toda piada é um julgamento em separado.

E, se todo esse processo parece assustador, mesmo utilizando um material “garantido”, imagine só o caos interno que enfrenta um comediante quando vai testar piadas novas. E esse, senhoras e senhores, é o tema de hoje.

Escrever e apresentar um novo material é parte constante e também muito importante na vida de qualquer humorista, e cada um procede de um jeito na hora de testar piadocas novas. Alguns estreiam uma piada de cada vez, a fim de montar um set completo ao final de um determinado período. Outros experimentam trechos maiores, de dois, três ou quatro minutos, e há também aqueles que tentam entradas inteiras inéditas, de 10 ou 15 minutos. Na minha ótica, todas essas maneiras de testar piadas têm seus prós e contras, cada comediante segue a que lhe deixa mais confortável. Mas, certamente, há métodos mais seguros que outros.

Testar piadas individualmente, uma a uma, é a maneira mais segura e demorada para conseguir material novo, talvez a mais indicada para open mics. Experimentar bits, de três ou quatro minutos sobre um mesmo tema, creio ser o mais normal entre os humoristas. E, por fim, fazer entradas inteiras novas é o método mais arriscado de criar texto e, que eu saiba, é o menos utilizado atualmente. Particularmente, usei essa ferramenta apenas uma vez e foi bastante ruim. Mas acho que a tentativa valeu a pena e, por que não, possa ser utilizada novamente.

Abrir uma apresentação com piadas novas não é uma boa ideia. Não vou dizer que você nunca deva utilizar piadas estreantes na abertura, porque acredito que o stand-up também deve ser um espaço para experimentação e, caso você sinta-se confiante para tal, é sua conta que está em risco. Mas creio que não há nenhuma vantagem em se abrir com material novo, além de ser uma prática recheada de perigos. A abertura é um dos momentos mais importantes de sua apresentação, e um início capenga vai interferir no bom andamento do show. O problema de abrir com piadas novas é que não se sabe como elas farão o público reagir. E impossível definir qual o nível de risadas que uma piada ou material novo pode alcançar. Claro, sabe-se que alguns temas são mais fáceis de se obter riso, como os velhos “corinthiano(ou quem mora longe)-ladrão”, “são-paulino(ou gaúcho)-gay”, “Preta Gil(Péricles ou Arlindo Cruz)-gorda”, além de estereótipos em geral. Se você está pensando em fazer piadas com essas lógicas diante de uma plateia, faça um favor para todos e nem saia de casa. O mundo não precisa de mais piadas como essas.

E, além da imprevisibilidade do material novo, outro obstáculo que o comediante enfrenta ao abrir com piadas novas é o seu próprio nervosismo. Já há uma tensão normal que envolve o começo da apresentação, assim como há ansiedade quando se testa algo novo. Juntar as duas não me parece inteligente. “Mas Pedro, então qual o momento certo para que eu insira minhas piadas novas”? O melhor é colocar as piadas novas entre duas que funcionem bem. Essa é uma recomendação clássica do stand-up. Dessa maneira, se impede que o rimo do show caia caso o material novo não funcione. Mas acho que vale a pena aprofundar um pouquinho nesse tópico e falar sobre a organização do material dentro de um set. Em 10 ou 15 minutos de apresentação, há tempo de se fazer uma abertura bem caprichada, de três ou quatro minutos, para aí sim introduzir as coisas novas. Digamos que o material estreante tenha três minutos. Ao término dele, serão sete minutos de apresentação, o que deixa tempo suficiente para realizar um bom final e fechar em alta. Eu, particularmente, não gosto de colocar um material novo exatamente no meio da apresentação. Procuro encaixá-lo entre o início e o meio, ou da metade para o final, dependendo da plateia. Diante de um público mais fácil, em que a abertura do show foi o suficiente para fazer com que eles se soltassem, coloco o texto novo antes da metade do show. Já confrontando plateias mais difíceis, que não riem tanto, deixo as piadas novas para a segunda metade da apresentação, deixando mais tempo para preparar o terreno com um material “garantido”. Prefiro esses métodos pois me incomoda que o miolo da apresentação seja o seu ponto fraco. Não sei exatamente o motivo, mas isso me dá uma sensação ruim. Mas, como disse antes, cada comediante tem sua maneira de proceder, não há certo ou errado.

Mas, e no caso de nossos pequenos open mics, como eles testarão piadas novas em seus preciosos 5 minutos? Antes de falar sobre isso, quero aqui ressaltar outra recomendação do stand-up que, apesar de clássica hoje, não tive acesso na minha época de iniciante: mais importante que ficar fazendo piadas novas todo show, é o open mic conseguir construir um set de cinco minutos muito bons, que funcionem em praticamente qualquer situação. Claro que, para chegar a isso, é importante a experimentação de material. Mas, nessa fase da carreira, é necessária uma cautela maior. Quando eu comecei, me preocupava em renovar o texto toda hora, sendo que o antigo nem estava bom ainda, e isso atrasou um pouco a minha evolução.

Como todo open mic tem, no máximo, cinco minutos para ficar no palco, testar um bloco de piadas de três minutos, por exemplo, me parece arriscado. Creio que a melhor tática é usar o conta-gotas, como disse lá no começo do post. Trabalhar 1 minuto por vez me parece um número ideal. “Poxa, mas um minuto é muito pouco”. Um minuto é tempo suficiente para testar três, quatro, quem sabe cinco piadas, o que é bastante coisa. E, lembre-se: 1 minuto corresponde a 20% do tempo da sua apresentação. Não é pouco. Quando esse minuto estiver nivelado com o restante do material (que eu suponho ser um nível bom, que arranque risadas de um certo volume frequentemente), você vai para outro minuto. Lapidando e deixando esse novo minuto na mesma condição dos demais, parte para um novo.

Essa é uma maneira muito segura de renovar o seu material sem deixar de fazer boas apresentações, além do fato de que trabalhar e deixar no ponto 1 minuto de piadas é muito mais fácil que três ou cinco minutos. Eu garanto que, se você for um bom open mic e trabalhar duro, no final de um ano você terá 12 ou 15 minutos bons de texto, o que pode (possibilidade, não garantia) te levar a se apresentar como canja ou convidado em alguns shows ou, no mínimo, significa que você terá três sets diferentes, do mesmo nível, para apresentar como open mic.

Há um tempo eu fiz uma sessão aqui no blog chamada “Testando Piadas“, onde eu mostrava como era a minha construção de um texto novo. Clique aqui para ver esses posts e, quem sabe, eu volte com essa sessão tão legal.

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Entrevista Humorista #2 – Lelo Mattos

O Entrevista Humorista de hoje é com um dos comediantes que mais gosto em Curitiba: Lelo Mattos!

Lelo começou sua carreira no stand-up em 2009, no extinto “Café Comédia”, comandado por Fábio Silvestre no bar Era Só o Que Faltava. Atualmente é integrante do grupo Index Risus Stand-up Comedy e se prepara para estrear seu primeiro show solo, inteligentemente batizado de “LELO”.

 

Você é um dos comediantes que está optando pelo “storytelling”, onde o humorista conta uma história e a plateia ri ao longo dela, e não apenas no punch. Quais as principais diferenças entre escrever piadas em “setup + punch” e “storytelling”?
Acredito que duas principais: no estilo “setup+punch”, você tem muito bem definidos o “setup” e o “punch” e pode saber com muito mais facilidade onde está o problema de uma piada ou onde ela pode ser melhor trabalhada. No storytelling, o setup está ao longo da piada e o punch… também. Às vezes o que era pra ser um setup, na sua concepção de escrita, vira um punchline fortíssimo dependendo de como você está se sentindo naquele dia, o que nos leva ao segundo ponto: é impossível fazer uma bit de storytelling sem se comprometer fisicamente com ela. Você pode fazer uma sequência de steup+punch’s sem mexer um músculo ou com nuances quase artificiais na hora do punchline e mesmo assim ter um set incrível. Mas uma storytelling sem sentimento vira palestra. Esse é um ponto muito importante: você se torna um punchline também. Sua atitude, sua expressão, seu tom de voz, seu sentimento. Tudo isso conta pro delivery de uma bit desse tipo.

O que te fez optar pelo storytelling?
Quando comecei, tinha duas grandes preocupações e objetivos: primeiro, não queria fazer um humor “apelativo”, chegando ao ponto de sequer usar palavrões no palco por boa parte da minha carreira. E segundo, queria fazer algo diferente de tudo o que havia no momento. Essa aversão ao clichê é coisa antiga pra mim, embora naquela época não tivesse nada a ver com conhecimento de comédia. Hoje falo palavrão sem me preocupar e mudei um pouco minha concepção de clichê. Por exemplo, quando comecei e quis escrever um material sobre Curitiba, descartei tudo o que já falavam e procurei algo que ninguém nunca tinha abordado. Assim nasceu a bit sobre o pinhão. Recentemente escrevi mais um material, mas falando exatamente do clichê “curitibano não fala com estranhos”. O resultado foi interessante. Acabei esmiuçando o clichê, sem me preocupar que era um clichê. Tratei como um tema comum e saiu uma bit bem legal. Enfim, respondendo à pergunta, acho que o que foi decisivo para que eu fosse pro caminho do storytelling foi a exposição brutal à comédia estrangeira que eu me coloquei. Consumi e consumo até hoje horas e horas de material estrangeiro e os consumo como espectador o tempo inteiro: dou sonoras gargalhadas, sou surpreendido por callbacks e há algum tempo decidi que queria ser capaz de fazer isso também, entende? Agradar gente chata. Porque a gente fica chato pra cacete quando trabalha com humor.

O seu estilo de material é realmente mais parecido com o de comediantes estrangeiros do que o encontrado aqui no Brasil, com piadas não tão demarcadas. Como você observa a reação do público com esse estilo de escrita?
Nesse estilo é um pouco mais difícil ler a reação da plateia. Quando você demarca a piada, as pessoas vão rir se ela for boa e permanecerão em silêncio (ou conversarão para cacete, dependendo do nível de educação delas) se ela for ruim. Já no storytelling, você deve acompanhar as nuances do comportamento da plateia. Um silêncio completo, por exemplo, nem sempre significa que a piada está ruim, pode significar apenas que você conseguiu a atenção de que precisava e que o próximo punchline só não vai funcionar se for realmente sem graça. Para mim também facilita muito conseguir enxergar os rostos das pessoas, para saber se elas estão se deixando levar pelo que eu estou fazendo no palco.

E a plateia, como reage a essa maneira de contar piadas? Me dá a impressão que muita gente ainda precisa daquela “indicação” de que a piada terminou para, aí sim, rir.
Definitivamente. Muita gente não esboça nenhuma reação com “…e escondi minha carteira”, mas ri como um bebê de vídeo do YouTube com “…e escondi minha carteira, porque tinha um corinthiano do lado”. Mas tudo o que foi dito antes naquela bit já era suficiente pro ato de “esconder a carteira” ser engraçado. A menção do corinthiano é o Liminha pulando com uma placa de “risadas” no meio da plateia. A forma que eu encontrei de escapar disso no storytelling foi justamente me entregar mais emocionalmente às bits. Como se estivesse escrevendo uma sitcom. Na elaboração das tramas de uma sitcom, você joga tudo às últimas consequências: se um personagem está com fome, ele não come há três dias. Se perde o emprego, ele é assaltado e despejado do apartamento no mesmo dia. É sempre o mais intenso possível. É isso o que eu procuro nas minhas bits. Colocar uma maior intensidade emocional em cada informação e punchline.

Você é um humorista que costuma contar as piadas exatamente como elas foram escritas. Esse método, inclusive, era utilizado por George Carlin. Como manter a naturalidade de um material, mesmo sendo tão literal?
É bem simples, na verdade: eu escrevo falando. Literalmente. Eu falo a frase antes de escrevê-las, ou seja, só vai pro papel aquilo que sonoramente me parece engraçado. É uma cena ridícula de se ver, mas ajuda muito na hora de passar naturalidade, porque mesmo que eu esteja fazendo a piada pela primeira vez no palco, eu já contei aquela história várias vezes antes. Outro método que eu utilizo, mais especificamente para o material puramente de storytelling, é criar uma sequência lógica de eventos, em vez de escrever ipsis litteris.

É normal que um comediante altere a forma com que ele escreve o material ao longo de sua trajetória na comédia. Você, com cinco anos de carreira, como vê as piadas que escreve hoje, em comparação com as do início de sua carreira?
Mudei completamente, depois voltei, depois mudei de novo, depois viajei muito no que eu queria realmente fazer, depois voltei à primeira mudança e hoje nem sei mais o que estou fazendo. Na verdade acho que o meu material amadureceu junto comigo. Quando eu comecei a escrever comédia, tinha 19 anos e só sabia beber e empurrar a faculdade com a barriga. Hoje vou completar 25 anos no fim do ano, estou casado, tenho uma filha e espero outra. Não dava pra continuar com a mesma cabeça.

Você falou que o silêncio não necessariamente significa que a plateia não está gostando do show. O que caracteriza um bom show e um bom material?
Calma, eu falei que não significa que a plateia não está gostando DA PIADA! Silêncio durante o show todo deve ser preocupante independente do estilo. O que quis dizer é que o silêncio pode significar a atenção que você conquistou. Acho que um bom show é caracterizado pelo atendimento à expectativa da plateia e surpresa dos que não conheciam o comediante. Em termos técnicos, acredito que um bom show é aquele escrito com cuidado, estruturado para que as bits tenham uma harmonia entre si. Não acredito que a reação da plateia deva ser uma senóide: picos ritmados de risadas, sempre subindo e descendo. Acho que a reação deve ser como um medidor de batimentos cardíacos de um protagonista de filme de terror: sobe,desce, sobe mais, desce, sobe um pouquinho e de repente sobe pra cacete… enfim, você entendeu. Um bom material, a meu ver, é aquele que você escreve sozinho. Inteiramente sozinho. Sem se valer de pontos de vista anteriores, leia-se clichês, nem de coisas que você viu alguém fazer e achou engraçado. Prefiro muito mais o cara desgraçado que faz a vida merda dele virar comédia ao que pega algo que já é engraçado por natureza ou potencialmente engraçado e simplesmente reproduz a graça daquilo de outra maneira. Gosto muito de material crítico e dos punchs “não acredito que ele falou isso”, seja por ser “politicamente incorreto” ou por simplesmente jogar na cara da própria plateia as coisas hipócritas que eles e todos nós fazemos todos os dias.

Você começou a fazer stand-up e parou por um tempo, retornando quase um ano depois. Primeiro, por que você parou e como foi esse retorno? Você utilizava o mesmo material, teve que escrever coisas novas? Não achava que o material antigo era bom o suficiente?
Bom, eu parei porque sou um imbecil. Foi em 2010, fiz um show só nesse ano, e voltei apenas em julho de 2011. Parei por causa da faculdade, acredita? Porque tinha começado a reprovar e ainda morava com meus pais, aí meu pai mandou um “chega dessa porra, vai estudar”, porque eu tava deslumbrado, achando que tinha talento pra ser o melhor comediante do mundo em meses. Fiquei um ano e meio fora, acompanhei muito pouco do cenário, falei muito pouco com os comediantes que eu conhecia (quase nada) e fui sendo infeliz para caralho. Aí voltei pro lugar de onde nunca deveria ter saído: o palco. Mas voltei do zero, eu nem lembrava mais as bits que eu fazia. Eu havia escrito cinco minutos de material ao longo desse ano e meio de afastamento, só por saudades mesmo e fui testar. Rolou tudo muito bem e ali eu já tinha uma base pra recomeçar. Por um ano, fiz cinco minutos diferentes toda semana, pra firmar o pulso e começar a trabalhar de verdade a parte difícil: persona, delivery, timing, postura, crowdwork… Mas, de qualquer forma, não daria pra usar as piadas antigas porque , como eu falei antes, era outra cabeça, outras preocupações… Se bem que fiz uma ou duas piadas que eu consegui me lembrar daquela época , que foram “reeditadas” e ficaram legais até.

Além de comediante, você também é professor. Como é conciliar essas duas carreiras? Você consegue estabelecer relações entre as duas?
Procuro deixar as duas coisas bem separadas. Eu nunca falo aos meus alunos que sou comediante. Eles sempre descobrem eventualmente, é claro, mas não graças a mim. Em sala eu não sou engraçado o tempo inteiro, não acho que seja o momento, por isso sou comediante em todos os aspectos da minha vida, exceto em sala de aula. Até porque eu trabalho com adolescentes nessa geração em que os pais dão mais limites ao cachorro do que aos filhos, então segurar quarenta/cinquenta alunos por turma nessas condições não é fácil se você resolve ser a miss simpatia. Inclusive, já fiz algumas bits sobre ser professor, mas não ficaram muito boas acho que justamente por esse ser um assunto tão sério pra mim.

Eu te acompanho desde o começo de sua carreira e, consequentemente, seu amadurecimento. Você é um dos comediantes que mais aproveita as coisas que acontecem na sua vida para transformá-las em piadas. Utilizando a famosa frase de Judy Carter, você acha que a própria vida de cada pessoa é a maior inspiração para a criação de seu material?
Sim e não. Acho que nem todo mundo tem uma vida interessante o suficiente, vamos ser sinceros. Acho que mais do que a vida, a maior inspiração deve ser a forma como essa pessoa vê a vida. Um comediante deve estar atento o tempo todo. Um comediante vê um aviso de “proibido fumar” dentro de um ônibus e não pensa “ok, não vou fumar”, ele deve ver esse aviso e viajar por horas sobre aquilo. A forma como ele viaja é o que define o estilo, a persona e a escrita dele. Pessoas “normais” não ligam para detalhes. Comediantes, sim. E sobre a própria vida ser inspiração para o material, acho que sempre pode ser, mas só vai ser engraçado se você costuma se dar mal. Esse é o ser humano, aceite. Eu SEMPRE fui um cara muito azarado, talvez por isso eu tenha criado um “pessimismo cômico” para analisar até os aspectos mais maravilhosos da minha própria vida e levá-los pro palco. Hoje sou muito feliz pessoalmente, mas consigo me imaginar não sendo e escrever sobre isso. Você deve ter reparado, de tudo o que eu levo sobre a minha vida ao palco, eu me dou bem em 0% dos casos.

Você é sempre figura presente em noites de open mic, para testar piadas novas. E, por conta disso, tem muito contato com os humoristas que ainda estão em início de carreira. Você busca passar para eles experiências que obteve?
Já busquei mais. Sinceramente, acompanhei três ou quatro gerações de open-mics que seguiram tentando até hoje e tive uma certa “decepção” de uns anos pra cá. Sempre há opens que acham que já estão prontos, opens que querem cachê desde o segundo show, opens que se sentem superiores aos outros, opens que são fofoqueiros demais, chatos demais, medrosos demais. Na verdade não é preciso ser open pra isso. Comediantes, pedreiros, veterinários, todas as profissões apresentam exemplares desse tipo. Mas é preocupante quando eles são maioria. Posso dizer que atualmente há no máximo uns quatro opens com quem eu ainda converso seriamente sobre comédia.

Ainda sobre quem está começando: percebo que muitos comediantes que estão iniciando agora, já estão começando com alguns vícios no stand-up, que vão de temas abordados até o delivery, o que deixa todas as performances muito parecidas. O que você diria para o open mic que quer se destacar no circuito?
Seja você mesmo, idiota. “Você” pode acabar sendo mais engraçado que qualquer um dos caras que você admira, se você parar de tentar ser esses caras que você admira e deixar que “você” se destaque. Isso é em todos os sentidos: seu jeito, suas ideias, seus medos, suas mágoas. Deixe que tudo isso seja SEU. Não inventa de falar de relacionamento se você é um nerd virgem. Fala sobre ser nerd virgem! Eu prometo a você que vai ser mil vezes mais engraçado. E entregue a piada como você acha que ela deve ser entregue, não como “fulano de tal” entregaria. Se você continuar imitando delivery, vai começar a imitar escrita, se começar a imitar escrita, vai começar a imitar timing e aí… parabéns! “Você” morreu e uma cópia bizarra de “fulano de tal” que nunca vai se destacar acaba de ocupar seu espaço. Seja você mesmo. Idiota. (Tough love)

 

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*entrevista realizada por e-mail.