Open mic

Inspirado nos vídeos da Carol Zoccoli e também em conversas recentes que tive com outros comediantes, acho que vale a pena tratar desse assunto tão especial. Acho, inclusive, que já o abordei aqui. Porém, se não, é uma falha que corrijo agora.

Open mic é, na minha opinião, uma das mais importantes práticas que existem na comédia stand-up. É por meio do microfone aberto que surgem novos comediantes, oxigeniza-se a cena e também, embora menos comum (infelizmente), comediantes profissionais testam seus materiais novos. O open mic é, geralmente, aberto em shows que têm comediantes profissionais em seu elenco ou em noites específicas para iniciantes.

“Open mic” também é o nome dado a quem está começando no stand-up, engatinhando em seus primeiros meses ou até anos de carreira. E, ao contrário do que muitos pensam, ser “open mic” não é sinônimo de comediante ruim, e sim de comediante iniciante. Assim como estagiário não é o mesmo que funcionário ruim. O open mic é o estagiário do stand-up. Ele está lá para aprender e não há nada, repito, NADA de errado ou vergonhoso nisso.

Não é incomum ouvir frases do tipo: “Não quero que me anuncie como open mic”, “É só falar que é open mic que a plateia já pensa que você é ruim”. Uma vez um cara me falou que queria fazer de convidado, com cachê, e que ele fazia stand-up há 3 meses. Respondi que não ia rolar, mas eu conseguiria um open mic, caso ele quisesse. A tréplica foi: “Hum, prefiro não. Open mic é quem faz pela primeira vez, eu já faço há um tempo”. Não sei o que me espantou mais: a ousadia ou a ignorância.

Algo óbvio, mas que me parece necessitar de explicação: quando um comediante te anuncia como open mic em um show, ele não o faz para te prejudicar ou diminuir, e sim para te proteger. É mesmo? É sim. Porque, quando você é trazido ao palco como alguém que está iniciando na comédia, a plateia te dá um desconto se as tuas piadas não forem tão boas, se a tua presença de palco for ruim ou se você esquecer o texto e sair correndo do palco. E isso é até engraçado pra plateia. Agora, se um comediante profissional (ou anunciado como tal) faz isso, é completamente imperdoável já que, meu deus, ele é um profissional.

Curta essa curta fase como open mic. Esse é o momento de aprender, acertar, errar e ouvir conselhos (principalmente dos humoristas mais experientes. Acredite, ninguém ali quer te foder porque tem ‘medo de perder espaço’). E, por fim, gostaria de dar alguns conselhos gerais, que servem para grande parte dos open mics desse Brasilzão:

Não queira ser polêmico
Vi e continuo vendo muitos open mics com essa intenção. Entendo que, por vezes, a intenção não é exatamente essa, porém a falta de perícia na hora de escrever uma piada sobre um tema delicado acaba sendo mais forte que o objetivo inicial. Piadas sobre temas polêmicos são difíceis de fazer, por isso devem ser tratadas com muito cuidado por quem está começando. “Mas Pedro, muito me admira você, que faz humor negro, vir cagar regra pra gente”. Exatamente porque eu faço humor negro, eu sei da dificuldade e do capricho necessário pra que uma piada dessa funcione.  Eu comecei a escrever e contar piadas sobre esses temas após quatro anos de carreira e, mesmo com essa bagagem, levei mais de um ano pra fazer com que elas funcionassem bem. Hoje, procuro mesclar essas piadas com outros tipos de material, justamente porque sei que muita gente simplesmente não está aberta a ouvir uma piada dessas e fecha a cara só de ouvir a palavra “aids”. Agora, um open mic, que pena para escrever uma piada boa sobre relacionamento (ou qualquer tema comum), tem uma chance quase nula de escrever uma boa piada sobre câncer. Espero que com a seguinte frase, eu consiga esclarecer o assunto: a piada não pode ser engraçada PORQUE fala sobre câncer. Ela tem que ser engraçada APESAR de falar sobre câncer. Vale também para aids, aborto, pedofilia, morte, etc.

Entendam, acredito que cada comediante é livre para fazer a piada que quiser, sobre o tema que quiser, da maneira que quiser. Testar limites e forçar barreiras é importante na comédia, só assim evoluímos como humoristas, plateia e sociedade. Mas acaba sendo muito cômodo para um comediante, principalmente quando iniciante, fazer várias piadas com humor negro, ninguém rir e ele pensar: “Não riram de mim porque essa plateia não entende o meu humor”, do que ir mal e refletir: “Talvez essas piadas não tenham graça nenhuma mesmo”. O conforto de ser incompreendido é sedutor (eu mesmo já caí nele, confesso). Mas, se uma piada choca mais do que faz rir, então ela não é boa.

É como pimenta. Tem gente que gosta mais, gente que gosta menos, mas se você for cozinhar pra muita gente, você tem que achar um meio de todos apreciarem a sua comida, independente de gostarem de pimenta ou não. Deu fome.

Espaço não é direito
Isso é muito importante. Subir em um palco para contar piadas e compartilhar suas ideias não é um direito, é um privilégio. “Ninguém me dá espaço pra fazer stand-up”, muitos dizem. Ninguém é obrigado a te dar espaço, eu digo. Absolutamente nenhum grupo ou comediante tem a obrigação de abrir espaço para open mic. Esse é um ato de gentileza, e que deve ser tratado como tal. E, se você não está satisfeito com as oportunidades que (não) recebe, junte-se com outros open mics, monte um grupo e procure um bar para se apresentar. Faço minhas as palavras de Emicida: “Ao invés de reclamar que eu não toco no Espaço Rap, eu fui trabalhar e arrumei espaço pro meu rap”.

Mire os melhores
Sempre compare-se com os melhores, nunca com os piores. Ser o melhor de uma noite de open mic, não quer dizer que você é bom. Segurar o nível em um show que você faz 5 minutos entre os profissionais, aí começamos a ter indícios de um possível-futuro-bom-comediante. Se você vai fazer uma noite de open mic, compare-se com o Mestre de Cerimônias, e não com os outros open mics. Sempre é melhor você assistir a um comediante excelente e pensar “eu sou uma bosta, olha o nível desse cara, tenho que melhorar muito”, do que ver um humorista horrível e dizer “mas eu sou muito melhor que esse cara, que demais”. Cercar-se de pessoas piores que você significa acomodar-se e nunca melhorar. Se espelhe nos bons, em seus ídolos, e queira chegar o mais perto possível do nível deles.

Espero que todos tenham lido até aqui, espero também que tenha ajudado o máximo de comediantes possível e, se eu escrevi algo aqui que você não gostou, ou que deixou alguma dúvida, deixe um comentário ou escreva para pedropontolemos@gmail.com que ficarei feliz em conversar, para fazer a comédia crescer mais e mais em nossa pátria amada e idolatrada salve salve brasil.

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Tempo

Estourar o tempo. Um dos mais graves, irritantes e mesquinhos erros que um comediante pode cometer. Estou exagerando? Não mesmo. E explicarei por quê.

É um erro muito grave porque é, também, um erro muito fácil de ser evitado. O tempo de seu material talvez seja o elemento que o comediante mais tenha controle quando está em cima de um palco. Ele sabe que tal bit leva quatro minutos, aquela história sobre o término de namoro tem cinco, a sequência de one-liners é de um minuto. A partir daí, é só colocar a matemática pra funcionar pra não vacilar com os colegas.

“Mas Pedro, eu estou começando agora no stand-up, eu não sei quanto tempo minhas piadas tem”. Sabe sim. Ou pelo menos tem uma ideia. Se você vai fazer um open mic, é bastante comum (recomendável, inclusive), que você ensaie seu texto em casa. Falando sozinho mesmo. Como um pirado. Que você é. Enquanto você está contando suas piadas para o espelho, use o relógio ou celular como cronômetro. Pronto, agora já se sabe o tempo de seu material.

Por que é um erro irritante? Pois, sinceramente, é um saco você ter que ficar dando sinal de luz pra um cara que já deveria ter saído do palco há 6 minutos.
E é mesquinho porque prejudica as apresentações dos comediantes seguintes. “Ah, mas a plateia estava tão boa”. Ótimo, então deixe os outros aproveitarem ela também. Vamos imaginar um cenário aqui: Certo show terá, rigorosamente, uma hora de duração, já que teremos um belo cover de Red Hot Chili Peppers logo após o show. Temos seis comediantes no elenco, portanto, 10 minutos para cada. Agora pense que o primeiro faz 12 minutos, assim como o segundo. O terceiro comediante sobre no palco e faz 11. O quarto humorista, finalmente, crava 10 minutos. O quinto a se apresentar também estoura 1 minutinho. O último comediante terá apenas quatro minutos disponíveis. Se fodeu bonito.

Ilustro meu argumento com essa historinha por quê? Para que se perceba que cada minuto que um comediante estoura, isso estoura no rabo de outro humorista. “Mas é só eu não ser o último que está tudo beleza”. O problema não está na ordem dos comediantes, e sim o respeito que se deve ter com os colegas. Se você sempre estoura o tempo, ficará mal visto no meio e ninguém mais vai querer dividir o palco contigo.

Você acha que alguém aqui vai estourar o tempo? Você acha que há margem pra isso?

Se para um humorista experiente isso já é chato, para um open mic pode ser a perdição. Em um ou dois minutos, um iniciante pode ir de “vamos chamar esse cara de novo” para “dá sinal pra ele sair, rápido!”.

Um open mic tem entre três e cinco minutos para se apresentar. Seja onde for, com quem for, o tempo padrão é esse. Se você tiver que fazer menos, os comediantes do show irão te avisar. Se tiver a oportunidade de fazer mais, também te avisarão. Se ninguém falar nada, de três a cinco minutos. Nada mais. Pode sair do palco com 2 minutos? Pode. Pode sair com 6 minutos? Não.

“EBA! Tenho até cinco minutos pra me apresentar, vou preparar um texto de cinco minutos”. Cuidado. Lembre-se que 5 minutos é o tempo limite, o máximo, onde você deve deixar o palco. Meu conselho é deixar uma margem de segurança. Se é pra fazer no máximo 5 minutos, programe-se para 4. Se é pra fazer até 8, vá com 6 ou 7 minutos. Essa diferença pode evitar que você seja o cuzão que estoura o tempo naquela noite, além de poder garantir até uma apresentação futura nesse show.

De improviso

Há alguns anos atrás, era corriqueiro ouvir pessoas falando coisas do tipo: “Nossa, adoro aquele stand-up do ‘Improvável’”. Ou então: “O stand-up dos ‘Barbixas’ é muito bom”.

Felizmente, me parece que esses tipos de comentários estão ficando cada vez mais raros, apesar de ser um erro comum de se cometer. O grupo de humor  “Barbixas” faz, entre outras coisas, um espetáculo que apresenta jogos de improviso chamado “Improvável”. Improviso, não stand-up. E essa confusão se dá por algumas razões: O “boom” desses dois estilos no Brasil ocorreu na mesma época e pela mesma plataforma (YouTube). Também colabora para isso o fato de que o stand-up, para olhos desatentos, realmente parece feito de improviso. Parece um bate-papo criado na hora pelo comediante. Outro fator é que algumas pessoas simplesmente são preguiçosas e não se interessam em pesquisar as coisas para saber a diferença entre uma e outra.

Stand-up comedy se baseia em material escrito previamente, testado inúmeras vezes, em diferentes tipos de plateia e lapidado ao longo do tempo. Mas, comédia stand-up contém improviso. Preste atenção. Ele não É improviso, mas CONTÉM improviso. Assim como bolo e fermento não são a mesma coisa, mas um bolo contém fermento. Improviso é um dos elementos que compõem (ou podem compor) uma apresentação de stand-up comedy, e é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Um comediante stand-up acaba improvisando em algumas circunstâncias.

Por interferência da plateia: Alguém do público responde o humorista, uma risada estranha que destoa das demais, o barulho de um copo quebrando ou do garçom derrubando a bandeja, algum idiota falando alto, enfim, qualquer coisa que possa desviar a atenção do público e que o humorista julgue interessante comentá-la.

Tag: Sabe quando um humorista conta uma piada, todo mundo ri e, durante as risadas, ele diz pequenas coisas que fazem o público rir um pouquinho mais? Essas coisinhas se chamam “tags”. Geralmente, essas frases foram construídas de improviso, e posteriormente incorporadas ao material. Isso é ótimo para aumentar algumas piadas que já temos.

Construir material: “Peraí, esse cara está maluco! Primeiro ele diz que o material é escrito antes, e agora diz que é feito de improviso? EU NÃO ENTENDO MAIS NADA”. Calma, cacete. Um comediante segue sim um roteiro, um material que ele escreveu antes e que já foi testado blá blá blá. Mas nada impede que esse comediante fuja do roteiro e crie material na hora. É o famoso “escrever no palco”.

Muitos humoristas utilizam essa técnica. Levam um tema ainda bruto para o palco e começam a falar, desenvolvendo-o a hora. Gostaria apenas de ressaltar que essa prática é bastante difícil de dominar, principalmente para quem não tem experiência. Não quero dizer quem pode ou não usar esse método, só estou alertando que ele não é tão fácil quanto parece. Mas se você sente-se seguro para isso, vá em frente.

Aqui no Brasil, um dos comediantes que eu sei que faz isso é o Nigel Goodman. Ele inclusive posta alguns vídeos com o material improvisado, como esses aqui:

Semana passada, conversando com ele, chegamos nesse assunto. Eu faria um show solo na semana seguinte, e estava planejando deixar alguns pedaços do show em aberto para improvisar. Depois de conversar com o Nigel e ele me encorajar a fazê-lo, decidi tentar.
Em um show de 75 minutos de duração, decidi deixar três espaços para improvisar sobre três temas diferentes. Separei o áudio de um deles para que vocês ouçam.

A única coisa que eu tinha na cabeça era a premissa “amor à primeira vista não existe”. Depois da apresentação, posso dizer que fiquei feliz com o resultado e que essa, especialmente, foi a parte do show que eu mais gostei. Não foram as maiores reações, mas com certeza foram as piadas que mais me diverti fazendo.

Quero muito fazer isso mais vezes. É exatamente o tipo de exercício que te mantém no ímpeto de fazer stand-up e tentar coisas novas. Mas, confesso que só me senti à vontade para improvisar dessa maneira porque era um show solo. Não pelo fato de estar sozinho, e sim por ter ainda bastante tempo para fazer um bom show caso os improvisos dessem errado. Esse material do áudio, por exemplo, foi feito com 50 minutos de show, e eu já tinha improvisado os dois outros temas programados. Então, caso não funcionasse, eu ainda teria as piadas de encerramento para fechar em alta. Esse dia, especificamente, eu fiz ainda 20 minutos depois disso. Não sei se, em um show onde eu tenha apenas 15 minutos para me apresentar, se faria um improviso de 5 minutos como esse. Mas é um próximo desafio que vou gostar de ter.

Próximos passos são verificar se consigo transformar essas piadas de improviso em material efetivo do meu show. Digo isso porque, comigo, as piadas improvisadas que absorvo no meu material nunca tem a mesma reação de quando foram contadas pela primeira vez. Mas nesse caso, só tentando para descobrir. E o outro passo é justamente fazer isso mais vezes, em diferentes shows, com diferentes temas.

Essa foi uma grande experiência. Fazer a plateia rir com piadas que você cria na hora tem um sabor diferente. E não é de chocolate com bacon.

Quanto vale o show?

Talvez não exista profissão mais instável que a de comediante. Em todos os aspectos. Tanto no financeiro quanto no artístico. No financeiro, porque se esse mês você fez muito show e um ou outro evento pra empresa, a feira tá garantida. Graninha doce no bolso do brasileiro. Mas no próximo, o cachê pode ser baixo e o evento não aparecer, aí é aperto no cinto e se segurar na mão de Jesus. No artístico, porque se hoje você faz um show onde é ovacionado pela plateia, amanhã pode ser recebido por um silêncio gélido que nem Jack e Rose sentiram quando o Titanic afundou.

Um humorista profissional passa por essas situações dia a dia, show a show. Faz parte da carreira. O post de hoje é sobre uma frase que ouvi de um comediante há algum tempo, antes de um show beneficente, onde nós dois estávamos participando. Sobre a dúvida entre fazer material novo ou não, ele soltou a frase:
“Ah, que se foda, vou fazer material novo. Essas pessoas nem estão pagando”.
Claramente uma declaração infeliz. E isso me fez refletir sobre alguns tópicos. Se liga.

Os comediantes variam seu material de acordo com o local que estão se apresentando ou o cachê que estão recebendo? Essa pergunta se refere a “estou fazendo em um bar, teatro, comedy club maneiro, faço meu melhor texto” ou “esse boteco é uma bosta, vou fazer qualquer coisa”. Aparentemente isso acontece.

Minha opinião? Isso é uma burrice do tamanho de Júpiter, com seus anéis e tudo mais. Não importa onde e em quais condições você está se apresentando, faça sempre o seu melhor. “Ai Pedro, mas então nunca posso testar piadas novas?”. Não, seu idiotinha. Fazer material novo é uma das coisas que movem um comediante. Só estou dizendo que você não deve testar coisas novas só porque o show é em um lugar ruim ou porque não estão te pagando. Isso deve ser parte de sua rotina, independente desses fatores.

Um comediante não deve fazer distinção entre um público que está pagando e outro que não está. Essa é uma atitude burra, cruel e burra novamente, porque é muito burra mesmo. Se você só faz um show com seu melhor material quando está recebendo cachê, você nem sequer merece esse cachê.

Independente do local onde você está se apresentando ou do cachê que está (ou não) recebendo, honre seu compromisso, dê o seu melhor e faça aquelas pessoas felizes por algum tempo. Esse é o trabalho de um comediante. É o seu trabalho.

Evolução x amadurecimento

Pessoas são seres em constante mutação. Como comediantes são pessoas (nunca encontrei um que não fosse), então podemos afirmar também que eles são seres em constante mutação. Particularmente, acho isso incrível.

Acho incrível assistir a evolução de um comediante ao longo de sua carreira. Fico feliz, por exemplo, ao assistir um vídeo do Louis CK em 1987 e compará-lo com seu mais recente especial. Não “comparar” de uma maneira pejorativa, e sim para observar as mudanças ocorridas em um espaço de quase 30 anos. Hoje, Louie é uma pessoa completamente diferente daquela de 1987. Ele ainda é Louis CK, claro, mas durante esse período ele se casou, teve duas filhas, separou-se, rodou os Estados Unidos fazendo stand-up, gravou seis especiais, depois jogou fora o material de todos eles, criou uma série fracassada para a televisão, criou outra série, essa de sucesso retumbante, ficou milionário, isso fora as outras pequenas coisas que mudam na vida pessoal de cada um. Como sei de tudo isso? Não sou amigo, parente, conhecido, nunca o vi de relance no supermercado, aposto que nem sequer estivemos no mesmo continente (se você considerar que América do Norte e do Sul não são um único continente. E a Central, não se esqueça da América Central).

Sei de todas essas coisas porque seu material é um reflexo de sua própria vida. Quando era casado, Louie fazia piadas sobre ser casado. Quando se separou, escreveu piadas sobre isso. Repare que ele criou novas piadas, e não reutilizou as antigas, mudando um pouco o setup e adicionando um “ex” antes de “esposa”, mesmo que as piadas sobre ser casado fossem muito, mas muito boas, como essa aqui (a partir dos 4 minutos).

O mesmo processo ocorre quando ele escreve sobre suas filhas. Há piadas de quando elas eram bebês, depois durante toda sua infância e, em seu último especial, ele faz algumas piadas sobre a mais velha estar entrando na adolescência.

Estou frisando esses pontos para dizer o seguinte: é importante a evolução do comediante. Não, espera. Evolução não é a palavra certa. Acho que “amadurecimento”. Sim, essa sim. É importante o amadurecimento do comediante. E, para quem ficou confuso, explico a diferença entre esses dois termos.

Evolução é frequente e constante na vida de qualquer humorista. Quanto mais você se apresenta e escreve, mais rápida será sua evolução, apurando sua técnica de palco e de escrita.

Amadurecimento, ao meu ver, está mais ligado aos temas que você leva para o palco e seu ponto de vista sobre eles. E isso não melhora com o número de vezes que você subiu no palco, e sim com sua experiência de vida, e seu amadurecimento como ser humano.
Jerry Seinfeld disse uma vez que seu número de anos na comédia corresponde ao seu nível de maturidade. Quando se tem três anos de carreira, é como se estivesse com três anos de idade. Dez anos de carreira, dez de idade, vinte de carreira, vinte anos de idade, e assim por diante. Acho isso bastante apropriado.

Com um ou dois anos, a carreira de um comediante é como um bebê nessa idade: só merda e choro.
Creio que aos três ou quatro anos de comédia é que se começa a realmente aprender as coisas, como lidar com diferentes plateias, como escolher o material adequado para determinador dias e lugares, blá blá blá.
E daí por diante.

O ponto que eu quero chegar é que vejo muitos comediantes evoluindo, mas não amadurecendo. Se melhora a postura no palco, se refina a escrita, mas continua não se dizendo nada.

Não estou falando no sentido de “cada piada deve conter uma mensagem para mudar o mundo”, mas creio que o mínimo que um comediante pode fazer é não enganar aquelas pessoas que pagaram para vê-lo.

Exemplo: é compreensível um comediante em início de carreira fazer uma piada sobre ele dar a bunda, mesmo que isso não seja verdade. É compreensível por alguns fatores, como o desespero por risadas que atinge qualquer iniciante, a falta de perícia para escrever qualquer coisa que fuja do senso comum e também a ausência de experiência e confiança pra saber que ele não precisa de uma besteira dessas pra fazer alguém rir.

Esse tipo de coisa passa se for feito por um humorista com meses, talvez um ano de vivência na comédia. Mas não por alguém com 4, 5, 6 anos de carreira. Utilizando a comparação de Seinfeld, é até normal que alguém de 5 anos, em alguns momentos, se comporte como alguém de 3 anos. Mas alguém de 8 se portar como outra pessoa de 2, acho estranho.

Um comediante com vários anos de carreira que faz piadas somente para agradar o público, sem qualquer tipo de crivo, é como uma criança de 8 anos dizendo as mesmas coisas que uma criança de 2 anos. É bizarro, incômodo e também um pouco assustador.

Não traia suas convicções em troca de risadas, principalmente porque você pode escrever piadas que estejam de acordo com essas convicções. E isso não se aplica apenas a posições políticas ou opiniões sobre temas polêmicos, mas também sobre as coisas mais simples da vida.

Se você é solteiro, não diga no palco que você é casado apenas para fazer piadas sobre como sua esposa fictícia é chata e gasta todo o seu dinheiro. Não minta sobre a sua idade, emprego, cidade natal ou sexualidade apenas para ter risadas, não só porque isso é errado, mas também porque é uma burrice, tendo em vista que é muito mais gratificante quando você escreve uma piada verdadeira e a plateia ri disso.

Uma pequena historinha para ilustrar esse pensamento:

Não sei até que ponto isso é verdade, mas certa vez me contaram que determinado comediante foi fazer um show e, em diferentes pontos da apresentação, ele afirmou que era católico, depois evangélico e, por fim, judeu, apenas para fazer piadas sobre essas religiões.

Não seja esse cara.

Não
seja
esse
c
a
r
a

É só uma piada (?)

Um dos intuitos deste blog é fomentar a discussão sobre a comédia, para que ela cresça cada vez mais como arte e que o comediante seja cada vez mais visto como profissão, e não como aventura. Para isso, trago hoje um texto (muito bem) escrito por um humorista que admiro e que, aposto, ama a comédia tanto quanto eu.

Ele foi originalmente publicado em http://lektronik.com.br/sobre-fazer-piadas/
Acessem lá também!

Aproveitem!

 

Sobre fazer piadas ou “Uma piada é só uma piada?”

Por Gustavo Suzuki

Desde que comecei a trabalhar com comédia – há uns anos como roteirista/diretor e, há pouco tempo, fazendo stand-up – ouvi milhares de vezes a pergunta:

“Qual o limite do humor?”

Pelo que eu saiba, ninguém até hoje conseguiu responder satisfatoriamente a essa pergunta, gerando discussões bastante infrutíferas entre opiniões que claramente se opõem, mas que não propõem nada de muito concreto.

Por que será que isso acontece? Será que comediantes não sabem pensar sobre comédia? Será que eles não se interessam por essa pergunta? Será que estamos todos fadados a ouvir gente perguntando isso pro resto de nossas vidas?

O filósofo Slavoj Zizek disse certa vez que “o propósito da filosofia não é encontrar respostas, mas formular as perguntas certas”.

Embora eu não seja filósofo – e, portanto, não tenho muito como argumentar a favor ou contra essa frase -, eu curto bastante esse conceito e tento, na medida do possível, adotar isso no meu dia-a-dia. Afinal de contas, quanto tempo a gente não passa girando em falso, pelo simples fato de termos formulado perguntas que não fazem o menor sentido?

Como o cara que leva um pé na bunda da namorada e passa anos se perguntando “o que eu fiz de errado?”, fazendo com que ele tente de tudo para reatar com a moça – quando na verdade ele devia ter se perguntado “porque eu não consigo lidar com a ideia da perda e do amor não correspondido?”.

Ou a pessoa que come um morango com gosto de merda e se pergunta “que espécie de morango é esse que tem sabor de merda? Será que é importado?” – quando na verdade o que ele deveria estar pensando é “acabei de comer um morango contaminado com cocô, qual o hospital mais próximo daqui?”

Talvez, a pergunta “qual o limite do humor?” não nos levou a nenhum lugar interessante porque, no fundo, ela não é a pergunta certa a se fazer.

Talvez, ao invés de “qual o limite do humor?”, nós devêssemos nos perguntar:

“Uma piada é só uma piada?”

Essa pergunta me parece muito mais efetiva. Primeiro porque, se a resposta for um simples “sim” então, bem, não há limites para o humor. Se a piada é uma criação vazia de significados (ou seja, se ela é “só uma piada” e nada mais) então para que colocar limites nela?

O problema é que responder “sim” a essa pergunta não parece me fazer muito sentido. Pra começo de conversa, eu faço comédia. Eu gosto de fazer comédia. Eu poderia dizer inclusive que eu sou apaixonado por comédia. E, sendo assim, eu levo comédia a sério – por mais paradoxal que “levar comédia a sério” possa parecer a alguém que não faz isso da vida e acha que comédia é tão simples quanto ser o cara engraçadão nas mesas de bar. Todo mundo que eu admiro na comédia, de Moliére a Mark Twain, de Bill Murray a Bill Hicks, de Louis C.K. a Jerry Seinfeld, não parecem levar a comédia na brincadeira, tampouco dão sinais de acharem que uma “piada é só uma piada”. Aliás, muito pelo contrário.

Além disso, se você for parar pra pensar, é possível dizer “que x é só x?”, independente de qual o “x” da questão?

Pensa comigo:

Uma roupa é só uma roupa? Ou ela revela milhões de coisas sobre como você vê o mundo, como você quer se encaixar nele, o que você considera bonito e o que, por consequência, você considera feio?

Uma comida é só uma comida? Ou ela é também o fruto de tradições culturais milenares, que moldaram e foram moldadas pelo nosso gosto? Ela não é, como as roupas, ditadas por modas e tendências, questões geográficas e econômicas, que nos ajudam a explicar o próprio contexto em que determinada comida foi feita?

Vamos extrapolar o raciocínio: será que tudo, no fundo, não é assim? Da pessoa em que você votou, às tatuagens que você faz  e ao jeito que você se masturba? Mesmo uma tatuagem que você fez só “porque era bonito” não deixa implícito a sua própria definição de “bonito” e, portanto, acaba sendo muito reveladora por si só? Mesmo que você não vote e ache eleição uma merda, não é uma posição super política essa de ser “apolítico” (já que você claramente se posiciona contra a ideia de um representante eleito democraticamente)? Mesmo você que, como eu, se masturbou na grande maioria das vezes sozinho, não poderia dizer que bater uma punha massa não é, de certa forma, um diálogo com você mesmo? Gosto de teta; gosto de pinto; gosto de pessoas que tem tetas e pintos; gosto de pessoas com tetas e pintos mas só o bastante para me masturbar e não para de fato transar com uma, dado que sou casado, tenho filhos e acredito nos valores familiares cristãos. Cada punheta é uma punheta diferente. Quem aqui nunca chorou depois de gozar, passando o resto da noite em posição fetal?

(Eu que não. Juro.)

Tudo o que a gente faz tem um significado e possui uma via de mão dupla. De um lado, há todo lastro que levou àquela coisa ser feita e/ou consumida. De outro, o que aquela coisa propõe ao mundo assim que ela é criada e exposta.

Tudo é, por assim dizer, “político”. Não “político” no sentido de PT PSDB LULA COLLOR blá blá. Tampouco “político” no sentido de que tudo é deliberadamente uma forma de militância e/ou “mensagem”. Político no seu sentido mais amplo, no que concerne às relações humanas, e à organização de pontos de vista que se juntam por afinidade, ou se embatem pela contradição.

Mais uma vez: não é que uma piada de pontinho diz respeito sempre à questões como “a Kátia Abreu merece ou não ser ministra da agricultura?” (não merece, obviamente). Mas, no mínimo, a piada de pontinho faz uma alusão à tradição das piadas de pontinho, coloca a comédia num patamar do abstrato e do absurdo e isso, por si só, já é um lance meio político.

Jerry Seinfeld disse que stand-up se resume ao seguinte processo: você fala um absurdo e depois você prova esse absurdo. Eu não sei se isso vale para todo o stand-up do mundo, mas certamente vale para o do Seinfeld. Aliás, o que é a comédia dele senão um jeito de dizer: tudo o que está ao nosso redor e que chamamos de “senso comum” e/ou “cotidiano” é na verdade uma série de absurdos que a gente toma por certo só porque não paramos para pensar nisso? Voilá: isso é, por assim, dizer, político.

Portanto, uma piada não é só uma piada. Não tem como. Uma piada é algo que você soltou no mundo. E ela vai não apenas aludir ao que veio antes dela, como vai também reverberar no mundo, nos mais variados graus de intensidade.

O que isso diz, portanto, sobre os “limites do humor”?

Não sei se muita coisa, a não ser o fato de que, talvez, o limite do humor é o limite da elaboração e senso crítico de cada comediante. Talvez, no final das contas, o limite do humor se resume a “eu gosto dessa piada? Então vou fazê-la”. Ou: “Essa piada funcionou na noite de ontem mas diz coisas que eu acho meio merda? Então se pá não vou fazer mais”. Pronto. Mas veja bem – e aí que mora o twist dessa eterna discussão – só gostar de uma piada não quer dizer que ela não diz nada sobre você, sobre seu jeito de encarar o mundo e os outros. A construção formal da piada é um discurso – como a roupa que você veste ou o filtro que você usa no Instagram (vou mandar um Earlybird porque essa coisa meio sepia é tão vintage e bacana néam).

Lembro do Dave Chappelle dizendo no programa da Oprah (se não me engano) que ele encerrou o Chappelle Show depois que um funcionário do estúdio onde ele filmava começou a rir histericamente de uma filmagem, a ponto dele perceber que muita gente estava na verdade rindo DELE e não COM ele. Em outras palavras, o que Chappelle sentia que funcionava como uma crítica ao racismo e outras questões pertinentes a ele, na verdade estava funcionando como um jeito de afirmar estereótipos sobre a cultura afro-americana. É claro que uma piada, como tudo na vida, é passível de interpretações ambíguas e até mesmo errôneas de tal modo que, se eu fosse o Chappelle, talvez não me incomodasse com o brother que ficou rindo da cara dele. De qualquer forma, esse foi o seu “limite do humor”.

E já que entramos no assunto, vamos usar o tema do racismo de exemplo. Racismo pode não ser um tema pertinente à você. Pode ser que você prefira piadas de pontinho a piadas sobre racismo. E, cara, que ótimo que a vida é assim e não um lance em que todo mundo fala da mesma coisa quando sobe num palco. Mas, se por um acaso, você fizer uma piada onde racismo ou raça é um assunto, essa piada vai revelar um ponto de vista. O ponto de vista da piada. Que você disse. E que muitas pessoas vão concordar ou discordar. De qualquer forma, você é responsável pelas suas piadas. Lembre-se que piadas, ao contrário de masturbação, é geralmente feita para um público considerável (claro que você também pode se masturbar na frente de um monte de gente, mas isso é menos comum, até onde eu sei).

“Ah, mas eu estava sendo irônico!”. Bem, você construiu essa ironia? Ou você só foi irônico na sua cabeça? A plateia não tem como adivinhar esse tipo de coisa.

No geral, quem diz que o humor não tem limites, normalmente reclama quando alguém critica suas piadas. Tradicionalmente, respondem com “é só uma piada” ou “você não tem senso de humor”.  Ora, uma democracia não só permite que as pessoas façam piadas, como permite também que as outras pessoas falem mal dela, se assim quiserem. E isso é saudável, porque nenhum comediante faz piada só pra ele mesmo no espelho de casa enquanto escova os dentes. A piada é feita para um público. Ela sugere um diálogo. Se alguém não gostou da sua piada e você não gostou que alguém não gostou da sua piada, esteja preparado para responder com argumentos. Ou então não fale nada. Ou então, be my guest, fale que “é só uma piada”. Você estará esvaziando não só o diálogo, como aquilo que você faz da vida: a própria piada. A escolha é sua.

Você sempre pode também concordar com a pessoa que reclamou da sua piada e admitir que errou, como qualquer ser humano, se esse for o caso. Ás vezes é. Ás vezes não é. Ás vezes a sociedade como um todo não está interessada na sua piada. Paciência, inventa outra piada, porque essa ninguém aguenta mais ouvir. Normal.

De qualquer forma, o diálogo e a crítica não são apenas bons para a comédia, como também parte dela. Uma piada é sempre ofensiva. Mesmo uma piada de pontinho. Na melhor das hipóteses, ela está ofendendo pontinhos, o que é mais fácil de lidar porque nunca vi um pontinho reclamar na minha vida. De qualquer forma, uma piada quase sempre vai ter como consequência uma reação. Seja ela risadas, vaias, gritos de protestos, aplausos catárticos. Essa reação explícita, direta e corporal que a comédia promove é uma coisa muito própria dela. É meio lindo isso. É bem parecido com música. Se você não está preparado para esse tipo de reação, talvez seja você que não esteja preparado pra comédia, e não o sujeito que não gostou da sua piada.

Piadas são ofensivas. Eu gosto desse fato. Gosto também que a comédia promove, através do riso, a união. Comédia é um balanço interessante entre amor e ódio. Portanto, a comédia nunca é indiferente às coisas. A ofensa faz parte. Que bom. Aliás, existe ato mais político do que ofender?

Dito tudo isso, qual é o MEU limite do humor? Bem, eu gosto de piada de todos os tipos. Acho todos os assuntos válidos. TODOS. Mas torço o nariz para piadas que fomentam certos tipos de preconceitos – em especial, àqueles que corroboram a uma certa forma de opressão. Uma piada machista. Uma piada racista. Uma piada homofóbica – dado que racismo, machismo e homofobia são coisas que eu não curto nem um pouco (se você curte, cara, putz, que barra hein?). O que não quer dizer que eu não aprecie piadas sobre racismo, machismo ou homens, mulheres, negros, brancos, árabes, gays, transexuais. Sou assim enquanto comediante e enquanto plateia. Só não sou heckler – dado que você só pode avaliar uma piada se ouvir ela até o fim (então fica a dica aí pra você: nunca seja heckler).

Meu limite do humor pode ser bem ilustrado com um comediante que já se meteu em grandes “polêmicas”: o Rafinha Bastos. Não ligo para a piada dele sobre transar com o bebê da Wanessa Camargo. Achei fera quando ele falou mal do Luciano Huck (embora, naquele caso, ele não tivesse feito nenhuma piada). Mas acho bem merda a piada dele sobre mulheres feias sendo estupradas. Ei, cara, esse é meu limite do humor. E vou agir como tal.

Qual o seu?

Entrevista Humorista #2 – Lelo Mattos

O Entrevista Humorista de hoje é com um dos comediantes que mais gosto em Curitiba: Lelo Mattos!

Lelo começou sua carreira no stand-up em 2009, no extinto “Café Comédia”, comandado por Fábio Silvestre no bar Era Só o Que Faltava. Atualmente é integrante do grupo Index Risus Stand-up Comedy e se prepara para estrear seu primeiro show solo, inteligentemente batizado de “LELO”.

 

Você é um dos comediantes que está optando pelo “storytelling”, onde o humorista conta uma história e a plateia ri ao longo dela, e não apenas no punch. Quais as principais diferenças entre escrever piadas em “setup + punch” e “storytelling”?
Acredito que duas principais: no estilo “setup+punch”, você tem muito bem definidos o “setup” e o “punch” e pode saber com muito mais facilidade onde está o problema de uma piada ou onde ela pode ser melhor trabalhada. No storytelling, o setup está ao longo da piada e o punch… também. Às vezes o que era pra ser um setup, na sua concepção de escrita, vira um punchline fortíssimo dependendo de como você está se sentindo naquele dia, o que nos leva ao segundo ponto: é impossível fazer uma bit de storytelling sem se comprometer fisicamente com ela. Você pode fazer uma sequência de steup+punch’s sem mexer um músculo ou com nuances quase artificiais na hora do punchline e mesmo assim ter um set incrível. Mas uma storytelling sem sentimento vira palestra. Esse é um ponto muito importante: você se torna um punchline também. Sua atitude, sua expressão, seu tom de voz, seu sentimento. Tudo isso conta pro delivery de uma bit desse tipo.

O que te fez optar pelo storytelling?
Quando comecei, tinha duas grandes preocupações e objetivos: primeiro, não queria fazer um humor “apelativo”, chegando ao ponto de sequer usar palavrões no palco por boa parte da minha carreira. E segundo, queria fazer algo diferente de tudo o que havia no momento. Essa aversão ao clichê é coisa antiga pra mim, embora naquela época não tivesse nada a ver com conhecimento de comédia. Hoje falo palavrão sem me preocupar e mudei um pouco minha concepção de clichê. Por exemplo, quando comecei e quis escrever um material sobre Curitiba, descartei tudo o que já falavam e procurei algo que ninguém nunca tinha abordado. Assim nasceu a bit sobre o pinhão. Recentemente escrevi mais um material, mas falando exatamente do clichê “curitibano não fala com estranhos”. O resultado foi interessante. Acabei esmiuçando o clichê, sem me preocupar que era um clichê. Tratei como um tema comum e saiu uma bit bem legal. Enfim, respondendo à pergunta, acho que o que foi decisivo para que eu fosse pro caminho do storytelling foi a exposição brutal à comédia estrangeira que eu me coloquei. Consumi e consumo até hoje horas e horas de material estrangeiro e os consumo como espectador o tempo inteiro: dou sonoras gargalhadas, sou surpreendido por callbacks e há algum tempo decidi que queria ser capaz de fazer isso também, entende? Agradar gente chata. Porque a gente fica chato pra cacete quando trabalha com humor.

O seu estilo de material é realmente mais parecido com o de comediantes estrangeiros do que o encontrado aqui no Brasil, com piadas não tão demarcadas. Como você observa a reação do público com esse estilo de escrita?
Nesse estilo é um pouco mais difícil ler a reação da plateia. Quando você demarca a piada, as pessoas vão rir se ela for boa e permanecerão em silêncio (ou conversarão para cacete, dependendo do nível de educação delas) se ela for ruim. Já no storytelling, você deve acompanhar as nuances do comportamento da plateia. Um silêncio completo, por exemplo, nem sempre significa que a piada está ruim, pode significar apenas que você conseguiu a atenção de que precisava e que o próximo punchline só não vai funcionar se for realmente sem graça. Para mim também facilita muito conseguir enxergar os rostos das pessoas, para saber se elas estão se deixando levar pelo que eu estou fazendo no palco.

E a plateia, como reage a essa maneira de contar piadas? Me dá a impressão que muita gente ainda precisa daquela “indicação” de que a piada terminou para, aí sim, rir.
Definitivamente. Muita gente não esboça nenhuma reação com “…e escondi minha carteira”, mas ri como um bebê de vídeo do YouTube com “…e escondi minha carteira, porque tinha um corinthiano do lado”. Mas tudo o que foi dito antes naquela bit já era suficiente pro ato de “esconder a carteira” ser engraçado. A menção do corinthiano é o Liminha pulando com uma placa de “risadas” no meio da plateia. A forma que eu encontrei de escapar disso no storytelling foi justamente me entregar mais emocionalmente às bits. Como se estivesse escrevendo uma sitcom. Na elaboração das tramas de uma sitcom, você joga tudo às últimas consequências: se um personagem está com fome, ele não come há três dias. Se perde o emprego, ele é assaltado e despejado do apartamento no mesmo dia. É sempre o mais intenso possível. É isso o que eu procuro nas minhas bits. Colocar uma maior intensidade emocional em cada informação e punchline.

Você é um humorista que costuma contar as piadas exatamente como elas foram escritas. Esse método, inclusive, era utilizado por George Carlin. Como manter a naturalidade de um material, mesmo sendo tão literal?
É bem simples, na verdade: eu escrevo falando. Literalmente. Eu falo a frase antes de escrevê-las, ou seja, só vai pro papel aquilo que sonoramente me parece engraçado. É uma cena ridícula de se ver, mas ajuda muito na hora de passar naturalidade, porque mesmo que eu esteja fazendo a piada pela primeira vez no palco, eu já contei aquela história várias vezes antes. Outro método que eu utilizo, mais especificamente para o material puramente de storytelling, é criar uma sequência lógica de eventos, em vez de escrever ipsis litteris.

É normal que um comediante altere a forma com que ele escreve o material ao longo de sua trajetória na comédia. Você, com cinco anos de carreira, como vê as piadas que escreve hoje, em comparação com as do início de sua carreira?
Mudei completamente, depois voltei, depois mudei de novo, depois viajei muito no que eu queria realmente fazer, depois voltei à primeira mudança e hoje nem sei mais o que estou fazendo. Na verdade acho que o meu material amadureceu junto comigo. Quando eu comecei a escrever comédia, tinha 19 anos e só sabia beber e empurrar a faculdade com a barriga. Hoje vou completar 25 anos no fim do ano, estou casado, tenho uma filha e espero outra. Não dava pra continuar com a mesma cabeça.

Você falou que o silêncio não necessariamente significa que a plateia não está gostando do show. O que caracteriza um bom show e um bom material?
Calma, eu falei que não significa que a plateia não está gostando DA PIADA! Silêncio durante o show todo deve ser preocupante independente do estilo. O que quis dizer é que o silêncio pode significar a atenção que você conquistou. Acho que um bom show é caracterizado pelo atendimento à expectativa da plateia e surpresa dos que não conheciam o comediante. Em termos técnicos, acredito que um bom show é aquele escrito com cuidado, estruturado para que as bits tenham uma harmonia entre si. Não acredito que a reação da plateia deva ser uma senóide: picos ritmados de risadas, sempre subindo e descendo. Acho que a reação deve ser como um medidor de batimentos cardíacos de um protagonista de filme de terror: sobe,desce, sobe mais, desce, sobe um pouquinho e de repente sobe pra cacete… enfim, você entendeu. Um bom material, a meu ver, é aquele que você escreve sozinho. Inteiramente sozinho. Sem se valer de pontos de vista anteriores, leia-se clichês, nem de coisas que você viu alguém fazer e achou engraçado. Prefiro muito mais o cara desgraçado que faz a vida merda dele virar comédia ao que pega algo que já é engraçado por natureza ou potencialmente engraçado e simplesmente reproduz a graça daquilo de outra maneira. Gosto muito de material crítico e dos punchs “não acredito que ele falou isso”, seja por ser “politicamente incorreto” ou por simplesmente jogar na cara da própria plateia as coisas hipócritas que eles e todos nós fazemos todos os dias.

Você começou a fazer stand-up e parou por um tempo, retornando quase um ano depois. Primeiro, por que você parou e como foi esse retorno? Você utilizava o mesmo material, teve que escrever coisas novas? Não achava que o material antigo era bom o suficiente?
Bom, eu parei porque sou um imbecil. Foi em 2010, fiz um show só nesse ano, e voltei apenas em julho de 2011. Parei por causa da faculdade, acredita? Porque tinha começado a reprovar e ainda morava com meus pais, aí meu pai mandou um “chega dessa porra, vai estudar”, porque eu tava deslumbrado, achando que tinha talento pra ser o melhor comediante do mundo em meses. Fiquei um ano e meio fora, acompanhei muito pouco do cenário, falei muito pouco com os comediantes que eu conhecia (quase nada) e fui sendo infeliz para caralho. Aí voltei pro lugar de onde nunca deveria ter saído: o palco. Mas voltei do zero, eu nem lembrava mais as bits que eu fazia. Eu havia escrito cinco minutos de material ao longo desse ano e meio de afastamento, só por saudades mesmo e fui testar. Rolou tudo muito bem e ali eu já tinha uma base pra recomeçar. Por um ano, fiz cinco minutos diferentes toda semana, pra firmar o pulso e começar a trabalhar de verdade a parte difícil: persona, delivery, timing, postura, crowdwork… Mas, de qualquer forma, não daria pra usar as piadas antigas porque , como eu falei antes, era outra cabeça, outras preocupações… Se bem que fiz uma ou duas piadas que eu consegui me lembrar daquela época , que foram “reeditadas” e ficaram legais até.

Além de comediante, você também é professor. Como é conciliar essas duas carreiras? Você consegue estabelecer relações entre as duas?
Procuro deixar as duas coisas bem separadas. Eu nunca falo aos meus alunos que sou comediante. Eles sempre descobrem eventualmente, é claro, mas não graças a mim. Em sala eu não sou engraçado o tempo inteiro, não acho que seja o momento, por isso sou comediante em todos os aspectos da minha vida, exceto em sala de aula. Até porque eu trabalho com adolescentes nessa geração em que os pais dão mais limites ao cachorro do que aos filhos, então segurar quarenta/cinquenta alunos por turma nessas condições não é fácil se você resolve ser a miss simpatia. Inclusive, já fiz algumas bits sobre ser professor, mas não ficaram muito boas acho que justamente por esse ser um assunto tão sério pra mim.

Eu te acompanho desde o começo de sua carreira e, consequentemente, seu amadurecimento. Você é um dos comediantes que mais aproveita as coisas que acontecem na sua vida para transformá-las em piadas. Utilizando a famosa frase de Judy Carter, você acha que a própria vida de cada pessoa é a maior inspiração para a criação de seu material?
Sim e não. Acho que nem todo mundo tem uma vida interessante o suficiente, vamos ser sinceros. Acho que mais do que a vida, a maior inspiração deve ser a forma como essa pessoa vê a vida. Um comediante deve estar atento o tempo todo. Um comediante vê um aviso de “proibido fumar” dentro de um ônibus e não pensa “ok, não vou fumar”, ele deve ver esse aviso e viajar por horas sobre aquilo. A forma como ele viaja é o que define o estilo, a persona e a escrita dele. Pessoas “normais” não ligam para detalhes. Comediantes, sim. E sobre a própria vida ser inspiração para o material, acho que sempre pode ser, mas só vai ser engraçado se você costuma se dar mal. Esse é o ser humano, aceite. Eu SEMPRE fui um cara muito azarado, talvez por isso eu tenha criado um “pessimismo cômico” para analisar até os aspectos mais maravilhosos da minha própria vida e levá-los pro palco. Hoje sou muito feliz pessoalmente, mas consigo me imaginar não sendo e escrever sobre isso. Você deve ter reparado, de tudo o que eu levo sobre a minha vida ao palco, eu me dou bem em 0% dos casos.

Você é sempre figura presente em noites de open mic, para testar piadas novas. E, por conta disso, tem muito contato com os humoristas que ainda estão em início de carreira. Você busca passar para eles experiências que obteve?
Já busquei mais. Sinceramente, acompanhei três ou quatro gerações de open-mics que seguiram tentando até hoje e tive uma certa “decepção” de uns anos pra cá. Sempre há opens que acham que já estão prontos, opens que querem cachê desde o segundo show, opens que se sentem superiores aos outros, opens que são fofoqueiros demais, chatos demais, medrosos demais. Na verdade não é preciso ser open pra isso. Comediantes, pedreiros, veterinários, todas as profissões apresentam exemplares desse tipo. Mas é preocupante quando eles são maioria. Posso dizer que atualmente há no máximo uns quatro opens com quem eu ainda converso seriamente sobre comédia.

Ainda sobre quem está começando: percebo que muitos comediantes que estão iniciando agora, já estão começando com alguns vícios no stand-up, que vão de temas abordados até o delivery, o que deixa todas as performances muito parecidas. O que você diria para o open mic que quer se destacar no circuito?
Seja você mesmo, idiota. “Você” pode acabar sendo mais engraçado que qualquer um dos caras que você admira, se você parar de tentar ser esses caras que você admira e deixar que “você” se destaque. Isso é em todos os sentidos: seu jeito, suas ideias, seus medos, suas mágoas. Deixe que tudo isso seja SEU. Não inventa de falar de relacionamento se você é um nerd virgem. Fala sobre ser nerd virgem! Eu prometo a você que vai ser mil vezes mais engraçado. E entregue a piada como você acha que ela deve ser entregue, não como “fulano de tal” entregaria. Se você continuar imitando delivery, vai começar a imitar escrita, se começar a imitar escrita, vai começar a imitar timing e aí… parabéns! “Você” morreu e uma cópia bizarra de “fulano de tal” que nunca vai se destacar acaba de ocupar seu espaço. Seja você mesmo. Idiota. (Tough love)

 

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*entrevista realizada por e-mail.