A Usurpadora

Acredito que nada, absolutamente nada irrita mais um comediante do que um ladrão de piadas. Não há outro tema que consiga unir tantos humoristas em prol de uma mesma causa do que fazer justiça contra um surrupiador de risadas. Um sujeito que copia material é execrado no circuito tal qual um estuprador na cadeia.

“Mas, por que é uma falha tão grave copiar uma piada? Já dizia o velho ditado: ‘Piada não tem dono’”. O que não tem dono é o rabo de quem diz isso. O stand-up tem pouquíssimas regras, e uma delas é claríssima: “Nunca copie material de outro comediante”. Um humorista passa dias, noites, semanas, meses e, até mesmo, anos pensando, escrevendo, testando e lapidando suas piadas, até deixá-las perfeitas. É justo que um arrombadinho as copie para contá-las num barzinho do outro lado do país, sendo que o único trabalho que ele teve foi entrar no YouTube e usurpar o material alheio? Deixe que sua consciência responda.

“É comum comediantes roubarem piadas uns dos outros?”. Não. Digo com sinceridade que, entre humoristas profissionais e consolidados no circuito, a incidência desse tipo de coisa é bem pequena. Justamente porque cada um sabe do sacrifício que é escrever míseros cinco minutos de um bom material. Quando isso ocorre, geralmente quem está envolvido é algum tipo de aventureiro, que não tem qualquer pretensão de construir uma carreira na comédia stand-up ou ter o respeito dos colegas. O sabichão só quer aproveitar a onda para fazer uma graninha.

Os casos mais recorrentes acontecem com iniciantes. O jovem quer começar a fazer stand-up, então ele faz um belo apanhado das melhores piadas que os comediantes postam em vídeos na internet. Eis seu texto. Não preciso nem dizer que, se esse open mic estiver fazendo show com humoristas decentes, ele receberá um esporro, bem de leve, só pra deixar de ser trouxa. “Ai, mas coitado do menino, ele tá começando, não sabia que não podia usar piada dos outros”. Sério? Em pleno 2015? Para o cara saber que o stand-up tem que ser autoral, basta ter internet e boa vontade para pesquisar. Se não sabia é porque é burro, preguiçoso ou porque é safado mesmo. Qualquer indivíduo que se interesse pelo stand-up a ponto de querer subir num palco, tem a obrigação de saber o mínimo sobre aquilo. E o mínimo sobre o stand-up é: “Não conte piadas prontas, tampouco de outros comediantes”. Esse é o mínimo. O mínimo. Mínimo. Nada menos que isso. É muito bom ressaltar que a grande maioria dos open mics que eu já vi (e isso reflete o âmbito geral também) é honesta com a arte e escreve suas próprias piadas.

“E o que eu faço quando algum espertalhão copia minhas piadas?”. Bom, existem vários meios de se resolver esse problema. O mais civilizado deles seria ter uma conversa com o sujeito. Se o tal for apenas burro, o susto fará com que ele pare de usar o seu material. Mas, se o cara for um vagabundo mesmo, que não dá a mínima para o fato de estar roubando, apenas espalhe por aí que ele é um safado ladrão de piadas. Dificilmente o cidadão conseguirá se apresentar nos bons shows da cidade/estado. “Não é errado queimar o cara desse jeito?”. Não mais que copiar material e prosseguir com a prática, mesmo após ser avisado que isso dá merda. Existem outros métodos também. Eu mesmo já vi desde barraco na internet até dedo na cara ao vivo, mas penso que a melhor punição que o gatuno pode receber é ter as portas fechadas e não conseguir mais fazer shows. “Posso processar o féladaputa?”. Até pode, mas acho essa uma dor de cabeça bastante desnecessária.

“Pedro, já aconteceu de roubarem piadas suas?”. Sim. Minha atitude foi conversar com o suspeito, disse que sabia o que ele havia feito e pedi para que ele parasse. O cidadão logicamente negou o ocorrido, mas creio que, depois disso, ele não usou mais as minhas piadas. Que certeza eu tenho disso? Nenhuma. Mas o medo de ser apanhado, penso eu, deve ter inibido sua vontade de contar minhas piadas.

Por mais que lutemos todos juntos, vejo que esse é um problema que jamais encontrará seu fim. Nesse exato momento, algum comedinha pode estar fazendo o texto do Porchat, do Rafinha, do Duncan, meu ou seu, num boteco em algum vilarejo do norte brasileiro, ou em uma temakeria no interior catarinense, ou num puteiro de beira de estrada na divisa entre São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Como podemos parar esses caras? Não podemos. O que nós, comediantes, podemos fazer é não incentivar esse comportamento. Copia piada? Não faz o meu show. Rouba material? Então não se apresenta aqui. E, aos open mics que já estão na estrada e aos que futuramente estarão nela: escrevam suas próprias piadas. Não caia na tentação de contar aquela piadoca do seu comediante favorito, só porque o show está ruim. Melhor ser ruim e honesto que bom e trapaceiro. Eu prometo, do fundilho do meu coração, que não há sensação igual a ver uma piada que você talhou, com suas próprias mãos e suor, tirando gargalhadas do público. O stand-up dá tanto para o comediante, acho bastante injusto não retribuir com o mínimo de sinceridade e respeito pela arte.

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Pequenas plateias, grandes negócios

Exatamente. Plateias pequenas são, sim, grandes negócios. Obviamente, é muito mais gostoso e divertido para o comediante realizar sua performance perante um público numeroso e ávido por risadas. Mas, é importante que se diga que (quase) nenhum humorista chega a lotar um teatro ou comedy club sem, antes, ter passado por plateias pequenas, para não dizer minúsculas.

Essa é uma fase importante e, no meu ponto de vista, indispensável para qualquer um que queira tornar-se um bom cômico. “Mas, com pouca gente no bar, o show sempre é uma bosta”. Mentira. És um mentiroso e caluniador, caluniador e mentiroso, mentiroso e caluniador, caluniador e mentiroso. Caluniador. Eu mesmo já fiz (e já vi fazerem) shows incríveis com um público que não chegava a dois dígitos. Acredite em mim: o sucesso ou fracasso de uma apresentação está muito mais ligado ao comprometimento do comediante do que com o número de pessoas na plateia.

Se o humorista já subir no palco com a broxante postura de “que bosta, só tem nove pessoas no bar hoje”, o show será sim um martírio. Já presenciei até mesmo iniciantes, nossos queridos open mics, dizendo: “Só tem 10 pessoas no bar hoje. Vamos cancelar?”. Não, não vamos. Guarde consigo essa frase como um conselho: “Comediante que não quer se apresentar com casa vazia, não terá nada a apresentar quando a casa estiver cheia”. Bonito, né? Inventei agora. Mas faz todo o sentido, pode acreditar. Ir bem em um show para 400 pessoas, sinceramente não me impressiona. Mas arrebentar em uma performance para 12, num bar em que a iluminação e o som são precários, cara, você tem o meu respeito.

Não serei hipócrita a ponto de dizer que é supimpa (isso mesmo, SUPIMPA) ficar fazendo apresentações para dez, oito ou quatro pessoas. Mas é um trabalho que precisa ser feito. É uma etapa a ser cumprida. Você não vai sair da fase 1 para chegar à fase 10, sem antes passar pela 2, 3, 4, da água, etc. Desde 2008, quando comecei no stand-up, já fiz dezenas e, quem sabe até, centenas de shows para 20, 15, 10, 8, 5, 3, 2 pessoas. Cheguei a fazer um show para duas pessoas e elas eram minha mãe e meu tio. Vale ressaltar que isso ocorreu em um bar, não na sala da minha casa. Se fosse, certamente teria mais gente.

Mesmo com quase sete anos passados desde então, apresentações com pouco público, volta e meia, acontecem. E deve-se encará-las com profissionalismo. Fazer o seu melhor sempre. Principalmente quando se está em início de carreira. São exatamente nesses shows que você trabalha seu jogo de cintura, sua postura no palco e molda-se como comediante. Um bom humorista deve ser forjado em fogo intenso, ardente, flamejante, e é isso que esses shows são. E aqui cabe um ditado popular que sua vovó Maria dizia: “Aquilo que não nos mata, nos fortalece”.

Cale-se!

O stand-up é uma arte retórica. Deve ser ouvida, mas não respondida. Pensando bem, a plateia deve sim responder ao comediante, mas com risos, não palavras.
Não é incomum alguns membros da plateia ignorarem essa máxima e simplesmente começarem a dialogar com o sujeito em cima do palco. É bom ressaltar que, por vezes, essa intromissão é culpa do próprio humorista. What? Isso mesmo.

Frequentemente ouve-se do primeiro comediante de um show a equivocada, rasa e (na maioria das vezes) desnecessária explicação sobre “o que é o stand-up”. Nela, o humorista vomita frases como “stand-up é uma conversa com a plateia”, “um bate-papo entre amigos” ou então “besteiras que a gente diz na mesa do bar”. Além dos adjetivos que coloquei acima, essas frases dão a permissão para que um espectador desavisado comece e a grasnar. Ué, você não disse que era uma conversa? Então, eles estão conversando contigo.

Sejamos justos, essa não é a única razão para despertar o tagarela desgraçado. E, que surpresa, nem todas elas são más. Não foram poucas as vezes que presenciei (estando no palco ou fora dele) pessoas gostarem tanto de uma piada que começaram a conversar entre si sobre ela. Ou, em casos extremos, alguém grita uma palavra de apoio à ideia do comediante.

Esses episódios são os mais tranquilos de lidar. Geralmente quando isso ocorre, a plateia está afim de assistir ao show e basta que o humorista espere todo mundo se acalmar para prosseguir com a próxima piada. Caso perceba que o burburinho está fugindo de seu controle, ele pode pedir pra galera se acalmar um pouquinho para que o show continue.

Mas, quando essa intromissão do público torna-se desagradável, que diabos eu faço? Bom, se a plateia toda estiver conversando, não há como chamar a atenção de um por um. Não deve-se ignorar a baderna, tampouco mandar todos à bela merda (a não ser que você tenha o apoio do local onde está se apresentando. Caso contrário, há grandes chances de esse ser seu último show na casa). Acredito que, se houver interesse de tentar salvar o show, o comediante deve tentar capturar a atenção da plateia de maneira suave. Falando mais alto ou se calando por completo até que todos percebam que há algo errado. Certa vez, fiz um show no qual todas as pessoas conversavam, exceto quando eu parava de falar. Eu começava, eles também. Eu parava, eles idem. Nesse dia, pensei estar louco. “Será que essas conversas estão só na minha cabeça?”. Nunca saberei.

“Se nada disso funcionar, posso sair do palco o mais rápido possível?”. Depende. Caso apenas a sua parte esteja lamentável, sim. Saia correndo. Mas, se o show inteiro está nesse clima triste, acho vacilo um comediante sair muito antes do tempo preestabelecido. Se todos os outros aguentaram seus 15 minutos em pleno mar revolto, porque você não pode fazer o mesmo? Mas isso não é uma regra, apenas uma opinião.

O mais comum, entretanto, é que o problema esteja concentrado em uma ou duas pessoas, geralmente bastante bêbadas. O famoso heckler, aquele cara que atrapalha o show de todo comediante. Quando o borrachão grita e direção ao palco ou fala alto em sua mesa, a regra número um é ignorar. O bêbado que interrompe quer, mais que tudo, atenção. Seja para “impressionar” a moça que ele trouxe para assistir ao show, seja para ser o engraçadão da mesa dos amigos. Então o melhor a fazer é fingir que ele não existe e, na medida do possível, seguir com o show. Na maioria dos casos, quando ignorado, o cara grita umas duas ou três vezes e desiste de atrapalhar.

Mas quando o sujeito não se acalma, é aí que a porca torce o rabo. Que expressão maravilhosa. Ele grita, xinga e interrompe. “E é nesse momento que eu posso dar um belo esporro no cara, né? Diz que sim, por favor”. Se acalma. Antes de fazer seu roast particular com o cidadão, perceba como está a reação geral da plateia em relação a ele. Talvez mais ninguém esteja escutando o cara falar, e uma bronca nessas condições pode fazer com que o público vire-se contra você.

O ideal é que se ignore o bêbado até o ponto em que todas as outras pessoas também estejam incomodadas com o cara. Quando a situação chega nesse estágio, o humorista tem uma “permissão geral” para calar a boca do falador. Importante! A sua intervenção deve ser o mais rápida e eficaz possível. Não despeje uma tonelada de insultos raivosos e, pelo amor de jesuis, não fique batendo boca com o sujeito. A última coisa que as pessoas querem ver em um show de humor é um comediante debatendo com um bêbado que não é capaz de formular qualquer tipo de pensamento ou argumentação coerente. Repito: seja breve e eficaz. Isso sendo feito com destreza, não só cala o embriagado como também traz a plateia para o lado do humorista e garante um resto de show com uma energia muito boa. Eles estão gratos por você ter restabelecido a harmonia do espetáculo, tal como um dos Vingadores. O Homem-Piada. Melhor não.

Na verdade, o ideal meeeesmo é que, quando o bêbado começa a atrapalhar, algum segurança ou mesmo o gerente do bar vá até o sujeito e o convide a se retirar. E não pensem vocês que isso é uma atitude hostil da casa. Isso deve ser feito para preservar o espetáculo para todas as outras pessoas.

Se você chegou até esse último parágrafo, é porque você curte stand-up (ou então só pulou para cá de gaiato. Sai daqui, vai ler tudo, SAI VAGABUNDO), então deixe sua crítica, elogio ou sugestão para um tema futuro aí na caixa de comentários. Pode também dar a sua opinião sobre o que foi escrito aqui, estamos abertos sempre ao debate. Fique à vontade também para me mandar um email no pedropontolemos@gmail.com ou então um inbox no facebook, é só procurar por “Pedro Lemos”.

Grande abraço.

Open mic

Inspirado nos vídeos da Carol Zoccoli e também em conversas recentes que tive com outros comediantes, acho que vale a pena tratar desse assunto tão especial. Acho, inclusive, que já o abordei aqui. Porém, se não, é uma falha que corrijo agora.

Open mic é, na minha opinião, uma das mais importantes práticas que existem na comédia stand-up. É por meio do microfone aberto que surgem novos comediantes, oxigeniza-se a cena e também, embora menos comum (infelizmente), comediantes profissionais testam seus materiais novos. O open mic é, geralmente, aberto em shows que têm comediantes profissionais em seu elenco ou em noites específicas para iniciantes.

“Open mic” também é o nome dado a quem está começando no stand-up, engatinhando em seus primeiros meses ou até anos de carreira. E, ao contrário do que muitos pensam, ser “open mic” não é sinônimo de comediante ruim, e sim de comediante iniciante. Assim como estagiário não é o mesmo que funcionário ruim. O open mic é o estagiário do stand-up. Ele está lá para aprender e não há nada, repito, NADA de errado ou vergonhoso nisso.

Não é incomum ouvir frases do tipo: “Não quero que me anuncie como open mic”, “É só falar que é open mic que a plateia já pensa que você é ruim”. Uma vez um cara me falou que queria fazer de convidado, com cachê, e que ele fazia stand-up há 3 meses. Respondi que não ia rolar, mas eu conseguiria um open mic, caso ele quisesse. A tréplica foi: “Hum, prefiro não. Open mic é quem faz pela primeira vez, eu já faço há um tempo”. Não sei o que me espantou mais: a ousadia ou a ignorância.

Algo óbvio, mas que me parece necessitar de explicação: quando um comediante te anuncia como open mic em um show, ele não o faz para te prejudicar ou diminuir, e sim para te proteger. É mesmo? É sim. Porque, quando você é trazido ao palco como alguém que está iniciando na comédia, a plateia te dá um desconto se as tuas piadas não forem tão boas, se a tua presença de palco for ruim ou se você esquecer o texto e sair correndo do palco. E isso é até engraçado pra plateia. Agora, se um comediante profissional (ou anunciado como tal) faz isso, é completamente imperdoável já que, meu deus, ele é um profissional.

Curta essa curta fase como open mic. Esse é o momento de aprender, acertar, errar e ouvir conselhos (principalmente dos humoristas mais experientes. Acredite, ninguém ali quer te foder porque tem ‘medo de perder espaço’). E, por fim, gostaria de dar alguns conselhos gerais, que servem para grande parte dos open mics desse Brasilzão:

Não queira ser polêmico
Vi e continuo vendo muitos open mics com essa intenção. Entendo que, por vezes, a intenção não é exatamente essa, porém a falta de perícia na hora de escrever uma piada sobre um tema delicado acaba sendo mais forte que o objetivo inicial. Piadas sobre temas polêmicos são difíceis de fazer, por isso devem ser tratadas com muito cuidado por quem está começando. “Mas Pedro, muito me admira você, que faz humor negro, vir cagar regra pra gente”. Exatamente porque eu faço humor negro, eu sei da dificuldade e do capricho necessário pra que uma piada dessa funcione.  Eu comecei a escrever e contar piadas sobre esses temas após quatro anos de carreira e, mesmo com essa bagagem, levei mais de um ano pra fazer com que elas funcionassem bem. Hoje, procuro mesclar essas piadas com outros tipos de material, justamente porque sei que muita gente simplesmente não está aberta a ouvir uma piada dessas e fecha a cara só de ouvir a palavra “aids”. Agora, um open mic, que pena para escrever uma piada boa sobre relacionamento (ou qualquer tema comum), tem uma chance quase nula de escrever uma boa piada sobre câncer. Espero que com a seguinte frase, eu consiga esclarecer o assunto: a piada não pode ser engraçada PORQUE fala sobre câncer. Ela tem que ser engraçada APESAR de falar sobre câncer. Vale também para aids, aborto, pedofilia, morte, etc.

Entendam, acredito que cada comediante é livre para fazer a piada que quiser, sobre o tema que quiser, da maneira que quiser. Testar limites e forçar barreiras é importante na comédia, só assim evoluímos como humoristas, plateia e sociedade. Mas acaba sendo muito cômodo para um comediante, principalmente quando iniciante, fazer várias piadas com humor negro, ninguém rir e ele pensar: “Não riram de mim porque essa plateia não entende o meu humor”, do que ir mal e refletir: “Talvez essas piadas não tenham graça nenhuma mesmo”. O conforto de ser incompreendido é sedutor (eu mesmo já caí nele, confesso). Mas, se uma piada choca mais do que faz rir, então ela não é boa.

É como pimenta. Tem gente que gosta mais, gente que gosta menos, mas se você for cozinhar pra muita gente, você tem que achar um meio de todos apreciarem a sua comida, independente de gostarem de pimenta ou não. Deu fome.

Espaço não é direito
Isso é muito importante. Subir em um palco para contar piadas e compartilhar suas ideias não é um direito, é um privilégio. “Ninguém me dá espaço pra fazer stand-up”, muitos dizem. Ninguém é obrigado a te dar espaço, eu digo. Absolutamente nenhum grupo ou comediante tem a obrigação de abrir espaço para open mic. Esse é um ato de gentileza, e que deve ser tratado como tal. E, se você não está satisfeito com as oportunidades que (não) recebe, junte-se com outros open mics, monte um grupo e procure um bar para se apresentar. Faço minhas as palavras de Emicida: “Ao invés de reclamar que eu não toco no Espaço Rap, eu fui trabalhar e arrumei espaço pro meu rap”.

Mire os melhores
Sempre compare-se com os melhores, nunca com os piores. Ser o melhor de uma noite de open mic, não quer dizer que você é bom. Segurar o nível em um show que você faz 5 minutos entre os profissionais, aí começamos a ter indícios de um possível-futuro-bom-comediante. Se você vai fazer uma noite de open mic, compare-se com o Mestre de Cerimônias, e não com os outros open mics. Sempre é melhor você assistir a um comediante excelente e pensar “eu sou uma bosta, olha o nível desse cara, tenho que melhorar muito”, do que ver um humorista horrível e dizer “mas eu sou muito melhor que esse cara, que demais”. Cercar-se de pessoas piores que você significa acomodar-se e nunca melhorar. Se espelhe nos bons, em seus ídolos, e queira chegar o mais perto possível do nível deles.

Espero que todos tenham lido até aqui, espero também que tenha ajudado o máximo de comediantes possível e, se eu escrevi algo aqui que você não gostou, ou que deixou alguma dúvida, deixe um comentário ou escreva para pedropontolemos@gmail.com que ficarei feliz em conversar, para fazer a comédia crescer mais e mais em nossa pátria amada e idolatrada salve salve brasil.

Tempo

Estourar o tempo. Um dos mais graves, irritantes e mesquinhos erros que um comediante pode cometer. Estou exagerando? Não mesmo. E explicarei por quê.

É um erro muito grave porque é, também, um erro muito fácil de ser evitado. O tempo de seu material talvez seja o elemento que o comediante mais tenha controle quando está em cima de um palco. Ele sabe que tal bit leva quatro minutos, aquela história sobre o término de namoro tem cinco, a sequência de one-liners é de um minuto. A partir daí, é só colocar a matemática pra funcionar pra não vacilar com os colegas.

“Mas Pedro, eu estou começando agora no stand-up, eu não sei quanto tempo minhas piadas tem”. Sabe sim. Ou pelo menos tem uma ideia. Se você vai fazer um open mic, é bastante comum (recomendável, inclusive), que você ensaie seu texto em casa. Falando sozinho mesmo. Como um pirado. Que você é. Enquanto você está contando suas piadas para o espelho, use o relógio ou celular como cronômetro. Pronto, agora já se sabe o tempo de seu material.

Por que é um erro irritante? Pois, sinceramente, é um saco você ter que ficar dando sinal de luz pra um cara que já deveria ter saído do palco há 6 minutos.
E é mesquinho porque prejudica as apresentações dos comediantes seguintes. “Ah, mas a plateia estava tão boa”. Ótimo, então deixe os outros aproveitarem ela também. Vamos imaginar um cenário aqui: Certo show terá, rigorosamente, uma hora de duração, já que teremos um belo cover de Red Hot Chili Peppers logo após o show. Temos seis comediantes no elenco, portanto, 10 minutos para cada. Agora pense que o primeiro faz 12 minutos, assim como o segundo. O terceiro comediante sobre no palco e faz 11. O quarto humorista, finalmente, crava 10 minutos. O quinto a se apresentar também estoura 1 minutinho. O último comediante terá apenas quatro minutos disponíveis. Se fodeu bonito.

Ilustro meu argumento com essa historinha por quê? Para que se perceba que cada minuto que um comediante estoura, isso estoura no rabo de outro humorista. “Mas é só eu não ser o último que está tudo beleza”. O problema não está na ordem dos comediantes, e sim o respeito que se deve ter com os colegas. Se você sempre estoura o tempo, ficará mal visto no meio e ninguém mais vai querer dividir o palco contigo.

Você acha que alguém aqui vai estourar o tempo? Você acha que há margem pra isso?

Se para um humorista experiente isso já é chato, para um open mic pode ser a perdição. Em um ou dois minutos, um iniciante pode ir de “vamos chamar esse cara de novo” para “dá sinal pra ele sair, rápido!”.

Um open mic tem entre três e cinco minutos para se apresentar. Seja onde for, com quem for, o tempo padrão é esse. Se você tiver que fazer menos, os comediantes do show irão te avisar. Se tiver a oportunidade de fazer mais, também te avisarão. Se ninguém falar nada, de três a cinco minutos. Nada mais. Pode sair do palco com 2 minutos? Pode. Pode sair com 6 minutos? Não.

“EBA! Tenho até cinco minutos pra me apresentar, vou preparar um texto de cinco minutos”. Cuidado. Lembre-se que 5 minutos é o tempo limite, o máximo, onde você deve deixar o palco. Meu conselho é deixar uma margem de segurança. Se é pra fazer no máximo 5 minutos, programe-se para 4. Se é pra fazer até 8, vá com 6 ou 7 minutos. Essa diferença pode evitar que você seja o cuzão que estoura o tempo naquela noite, além de poder garantir até uma apresentação futura nesse show.

De improviso

Há alguns anos atrás, era corriqueiro ouvir pessoas falando coisas do tipo: “Nossa, adoro aquele stand-up do ‘Improvável’”. Ou então: “O stand-up dos ‘Barbixas’ é muito bom”.

Felizmente, me parece que esses tipos de comentários estão ficando cada vez mais raros, apesar de ser um erro comum de se cometer. O grupo de humor  “Barbixas” faz, entre outras coisas, um espetáculo que apresenta jogos de improviso chamado “Improvável”. Improviso, não stand-up. E essa confusão se dá por algumas razões: O “boom” desses dois estilos no Brasil ocorreu na mesma época e pela mesma plataforma (YouTube). Também colabora para isso o fato de que o stand-up, para olhos desatentos, realmente parece feito de improviso. Parece um bate-papo criado na hora pelo comediante. Outro fator é que algumas pessoas simplesmente são preguiçosas e não se interessam em pesquisar as coisas para saber a diferença entre uma e outra.

Stand-up comedy se baseia em material escrito previamente, testado inúmeras vezes, em diferentes tipos de plateia e lapidado ao longo do tempo. Mas, comédia stand-up contém improviso. Preste atenção. Ele não É improviso, mas CONTÉM improviso. Assim como bolo e fermento não são a mesma coisa, mas um bolo contém fermento. Improviso é um dos elementos que compõem (ou podem compor) uma apresentação de stand-up comedy, e é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Um comediante stand-up acaba improvisando em algumas circunstâncias.

Por interferência da plateia: Alguém do público responde o humorista, uma risada estranha que destoa das demais, o barulho de um copo quebrando ou do garçom derrubando a bandeja, algum idiota falando alto, enfim, qualquer coisa que possa desviar a atenção do público e que o humorista julgue interessante comentá-la.

Tag: Sabe quando um humorista conta uma piada, todo mundo ri e, durante as risadas, ele diz pequenas coisas que fazem o público rir um pouquinho mais? Essas coisinhas se chamam “tags”. Geralmente, essas frases foram construídas de improviso, e posteriormente incorporadas ao material. Isso é ótimo para aumentar algumas piadas que já temos.

Construir material: “Peraí, esse cara está maluco! Primeiro ele diz que o material é escrito antes, e agora diz que é feito de improviso? EU NÃO ENTENDO MAIS NADA”. Calma, cacete. Um comediante segue sim um roteiro, um material que ele escreveu antes e que já foi testado blá blá blá. Mas nada impede que esse comediante fuja do roteiro e crie material na hora. É o famoso “escrever no palco”.

Muitos humoristas utilizam essa técnica. Levam um tema ainda bruto para o palco e começam a falar, desenvolvendo-o a hora. Gostaria apenas de ressaltar que essa prática é bastante difícil de dominar, principalmente para quem não tem experiência. Não quero dizer quem pode ou não usar esse método, só estou alertando que ele não é tão fácil quanto parece. Mas se você sente-se seguro para isso, vá em frente.

Aqui no Brasil, um dos comediantes que eu sei que faz isso é o Nigel Goodman. Ele inclusive posta alguns vídeos com o material improvisado, como esses aqui:

Semana passada, conversando com ele, chegamos nesse assunto. Eu faria um show solo na semana seguinte, e estava planejando deixar alguns pedaços do show em aberto para improvisar. Depois de conversar com o Nigel e ele me encorajar a fazê-lo, decidi tentar.
Em um show de 75 minutos de duração, decidi deixar três espaços para improvisar sobre três temas diferentes. Separei o áudio de um deles para que vocês ouçam.

A única coisa que eu tinha na cabeça era a premissa “amor à primeira vista não existe”. Depois da apresentação, posso dizer que fiquei feliz com o resultado e que essa, especialmente, foi a parte do show que eu mais gostei. Não foram as maiores reações, mas com certeza foram as piadas que mais me diverti fazendo.

Quero muito fazer isso mais vezes. É exatamente o tipo de exercício que te mantém no ímpeto de fazer stand-up e tentar coisas novas. Mas, confesso que só me senti à vontade para improvisar dessa maneira porque era um show solo. Não pelo fato de estar sozinho, e sim por ter ainda bastante tempo para fazer um bom show caso os improvisos dessem errado. Esse material do áudio, por exemplo, foi feito com 50 minutos de show, e eu já tinha improvisado os dois outros temas programados. Então, caso não funcionasse, eu ainda teria as piadas de encerramento para fechar em alta. Esse dia, especificamente, eu fiz ainda 20 minutos depois disso. Não sei se, em um show onde eu tenha apenas 15 minutos para me apresentar, se faria um improviso de 5 minutos como esse. Mas é um próximo desafio que vou gostar de ter.

Próximos passos são verificar se consigo transformar essas piadas de improviso em material efetivo do meu show. Digo isso porque, comigo, as piadas improvisadas que absorvo no meu material nunca tem a mesma reação de quando foram contadas pela primeira vez. Mas nesse caso, só tentando para descobrir. E o outro passo é justamente fazer isso mais vezes, em diferentes shows, com diferentes temas.

Essa foi uma grande experiência. Fazer a plateia rir com piadas que você cria na hora tem um sabor diferente. E não é de chocolate com bacon.

Quanto vale o show?

Talvez não exista profissão mais instável que a de comediante. Em todos os aspectos. Tanto no financeiro quanto no artístico. No financeiro, porque se esse mês você fez muito show e um ou outro evento pra empresa, a feira tá garantida. Graninha doce no bolso do brasileiro. Mas no próximo, o cachê pode ser baixo e o evento não aparecer, aí é aperto no cinto e se segurar na mão de Jesus. No artístico, porque se hoje você faz um show onde é ovacionado pela plateia, amanhã pode ser recebido por um silêncio gélido que nem Jack e Rose sentiram quando o Titanic afundou.

Um humorista profissional passa por essas situações dia a dia, show a show. Faz parte da carreira. O post de hoje é sobre uma frase que ouvi de um comediante há algum tempo, antes de um show beneficente, onde nós dois estávamos participando. Sobre a dúvida entre fazer material novo ou não, ele soltou a frase:
“Ah, que se foda, vou fazer material novo. Essas pessoas nem estão pagando”.
Claramente uma declaração infeliz. E isso me fez refletir sobre alguns tópicos. Se liga.

Os comediantes variam seu material de acordo com o local que estão se apresentando ou o cachê que estão recebendo? Essa pergunta se refere a “estou fazendo em um bar, teatro, comedy club maneiro, faço meu melhor texto” ou “esse boteco é uma bosta, vou fazer qualquer coisa”. Aparentemente isso acontece.

Minha opinião? Isso é uma burrice do tamanho de Júpiter, com seus anéis e tudo mais. Não importa onde e em quais condições você está se apresentando, faça sempre o seu melhor. “Ai Pedro, mas então nunca posso testar piadas novas?”. Não, seu idiotinha. Fazer material novo é uma das coisas que movem um comediante. Só estou dizendo que você não deve testar coisas novas só porque o show é em um lugar ruim ou porque não estão te pagando. Isso deve ser parte de sua rotina, independente desses fatores.

Um comediante não deve fazer distinção entre um público que está pagando e outro que não está. Essa é uma atitude burra, cruel e burra novamente, porque é muito burra mesmo. Se você só faz um show com seu melhor material quando está recebendo cachê, você nem sequer merece esse cachê.

Independente do local onde você está se apresentando ou do cachê que está (ou não) recebendo, honre seu compromisso, dê o seu melhor e faça aquelas pessoas felizes por algum tempo. Esse é o trabalho de um comediante. É o seu trabalho.