Testando Piadas #3 – Peixes (Parte 3)

Terceira parte sobre o novo material que estou escrevendo, e dessa vez algumas mudanças importantes: os três primeiros shows (o que rendeu dois posts, não perca a conta) em que testei as piadas sobre peixes foram em teatros. Desta vez, a apresentação foi em um bar, o que vale algumas comparações: quando o show é no bar, não necessariamente aquelas pessoas foram lá para assistir a um show de comédia. Boa parte delas foi apenas para beber ou dar em cima de mulheres/homens. E quando seu objetivo é ficar bêbado ou conseguir sexo, você não quer ver um cara contando piadas. Por isso, no bar o comediante precisa conquistar (e manter) a atenção da plateia. No teatro, o público comprou o ingresso exatamente para assistir o show e, por conta disso, está mais disposto a rir.

Outro ponto que diferencia o show no bar e no teatro são as distrações, tanto para o público quanto para o comediante. O bar é um ambiente convidativo para conversas, até mesmo por conta da disposição das mesas e cadeiras. Já presenciei casos bastante comuns em shows de comédia: quando duas ou três piadas de um comediante não funcionam, a plateia do bar tende a dispersar, conversando com os amigos na mesa ou pedindo algo ao garçom. E, mesmo quando a piada é muito boa, já vi as pessoas comentando a piada entre si, o que também atrapalha. E isso também acaba sendo uma distração para o comediante. Outra distração, já mencionada: a bebida. Ah, a doce bebida, que alegra os dias tristes e as noites solitárias. Uma figura presente muitas vezes em apresentações é o bêbado da plateia. Ele é um personagem que tem apenas um intuito: aparecer. As vezes por vontade própria, para parecer muito maneiro para seus amiguinhos, e as vezes também por culpa do próprio humorista, que incentiva a participação da plateia mesmo sabendo que, quando um bêbado é convidado a participar do show, ele nunca mais para.

Recentemente fiz um show (em um bar) em que, antes mesmo do show começar, o dono do lugar alertou os comediantes:
“Tem um pessoal muito bêbado bem na frente do palco”.
Como era de se esperar, eles não calaram a boca um minuto. Gritavam com os comediantes e tudo mais. Quando eu entrei no palco, aconteceu isso aqui:

Mas enfim, isso pode acontecer. Cabe ao comediante lidar com todos os fatores “extra-palco”. Eu escolhi entrar xingando todo mundo, e acabou dando certo, pois o show funcionou sem interrupções depois disso.

Sobre os espetáculos em teatro, não existem essas distrações. Quer dizer, não existem motivos para distrações. Mas, como eu já disse aqui parafraseando Rodney Dangerfield: “Você nunca sabe para quem está se apresentando”. Sempre há a possibilidade de alguém atrapalhar o show, mas as chances disso acontecer são bastante reduzidas.

Quero ressaltar algo muito importante aqui: por mais que possa parecer, shows em teatros não são, necessariamente, melhores que em algum bar. Apenas as condições são melhores para que não haja contratempos. Mas, particularmente, sou do time de humoristas que prefere, em condições normais, fazer stand-up em bar.

Enfim, eu fiz novamente o material dos peixes. Não tinha muita gente no bar, então as reações foram menores. Escuta aí que, depois, vem a análise:

Na primeira piada, aconteceu algo interessante: eu contei errado. Esqueci de falar meia dúzia de palavras que fizeram com que ela deixasse de funcionar. O correto seria: “O peixe é o único animal de estimação que ninguém fica triste quando ele morre”. Eu falei: “Ninguém fica triste quando um peixe morre”. Percebem a diferença? Isso foi o bastante para que a piada não ficasse clara o suficiente e, por isso, não funcionasse.

Outro ponto: essa gagueira maldita na transição de uma piada pra outra tem um simples motivo: eu não tinha a ordem das piadas bem definida na minha cabeça. Quando isso acontece, o comediante precisa ir buscar a piada na memória, e isso demora microssegundos que, no palco, demoram bastante. Como se resolve isso? Estabelecendo uma ordem definida e repeti-la bastante. Quando isso está direito, o humorista já tem no gatilho a piada seguinte antes de terminar a piada presente. É meio bizarro, mas é isso que acontece.

Então, próximo passo: memorizar melhor a ordem das piadas e saber as palavras-chave de cada piada. Essas palavras são essenciais para que a piada funcione.

Digam aí nos comentários o que vocês estão achando de tudo isso.

Valeu, novato.

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Testando Piadas #2 – Peixes (Parte 2)

Alguns de vocês devem estar reclamando nesse exato momento: “Ei cara, já vimos você falar sobre os malditos peixes antes! Está querendo nos enrolar, seu patife?”. Não, não estou. O trabalho de criar piadas novas e fazer com que elas funcionem, não leva apenas uma noite de verão. Se você não acompanhou o primeiro show em que testei o material sobre os peixes, faça o favor de ler isso aqui antes de prosseguir.

Muito bem, agora estamos prontos. Os áudios que estão no post “Testando Piadas #1” foram as primeiras experiências com o uso do material. Depois disso, o trabalho segue, na tentativa de salvar o que não funcionou, ajustar o que deu um resultado mediano, manter as piadas que renderam boas risadas e escrever coisas novas.
Quando fui novamente para o palco, o resultado foi esse aqui:

Quando a piada volta ao palco pela segunda vez, aprimorada, você começa a ter uma noção verdadeira do que funciona ou não. Sou cético com piadas que funcionam muito bem logo na primeira vez. Sempre acho que pode ser sorte de principiante. Agora, se elas funcionam três ou quatro vezes seguidas, abraço-as emocionado e dou boas-vindas à família.

Sobre o material dos peixes, em especial: a comparação sobre a morte do cachorro e do peixe me parece ser o ponto alto do set (sequência de piadas sobre um mesmo tema). A piada que vem antes, sobre ninguém ficar triste quando o peixe morre, não tem uma reação tão forte da plateia, mas é uma boa introdução do tema e prepara o terreno para piada a seguinte. Para ser sincero, são os dois únicos momentos desse material que, por enquanto, me deixam satisfeito. Quase todas as outras partes são bastante inconstantes, o que não é nada bom.

E aqui vai um questionamento: vale a pena para um comediante insistir em contar uma piada que dá certo uma em cada três vezes? Ou mesmo que cause risadas em dois terços das tentativas? Eu acredito que não. Pode até parecer um bom aproveitamento, mas você contar uma piada 30 vezes e ela te deixar na mão em 10, ela está reprovada. O que fazer nesse caso? Se você acredita em determinada ideia, deve-se sim reescrevê-la mais uma vez. Achar o ponto certo de uma piada não é tão fácil quanto parece e pode demorar bastante tempo. Se o humorista não está disposto a isso ou, simplesmente, não acha que a piada vale tanto esforço, o melhor caminho é descartá-la.

O próximo passo é voltar à oficina. Analisar e ajustar as piadas ineficientes. Sinceramente, acredito que posso tirar dois ou três minutos bons de tudo isso. “Dois ou três minutos? Que bela porcaria” alguns podem estar imaginando. Mas o trabalho do comediante é assim. Como o garimpo. Você trabalha dias e semanas peneirando pedras e barro para, talvez, encontrar a pepita de ouro que dará o seu sustento pelos próximos meses. Chorei aqui.
Então, meu compromisso é escrever novamente as piadas que estão bambas e colocá-las pra funcionar. O compromisso de vocês é acessar o blog e me dar feedback e apoio moral comentando o que diabos vocês estão achando de tudo isso. Fechou? Fechou.

Valeu, papito.

 

*E sobre a piada do sushi: ela é realmente um fracasso, como acabei admitindo no próprio show. Três tentativas, nenhum êxito. Então, como no beisebol, três strikes e ela está fora. Credo.

Testando Piadas #1 – Peixes (Parte 1)

Depois de se escrever uma piada, o que o comediante deve fazer?
a) testá-la no palco.
b) deixá-la jogada no fundo da gaveta.
c) comer um pastel para comemorar o feito.

A resposta correta é a alternativa A. E um pouco da C também. Mas principalmente a A.

Escrever uma piada (ou uma sequência delas) é só o início do trabalho de um humorista. No momento em que ele maquina e coloca o chiste no papel, ele não sabe  se aquilo é engraçado. O máximo que se tem é uma intuição, e isso é tudo o que se precisa pra levar essa piada para o palco. A confirmação sobre o sucesso ou fracasso do material novo só pode ser dada diante da plateia. Acho que foi o comediante Patrice O’Neal que disse: “A piada boa e a piada ruim vem do mesmo lugar”.

Semana passada, assisti em um jornal local matinal sensacional uma reportagem sobre aquários. Depois disso, se sucedeu uma entrevista ao vivo, no estúdio, com um especialista em aquários. Durante uns 10 minutos. Foi uma entrevista longa demais. Demais. E isso me fez escrever algumas piadas, não sobre aquários, mas sobre peixes. “Por que alguém teria um peixe como animal de estimação? O peixe é o único bicho que você tem que ninguém fica triste quando ele morre”. Essa foi a primeira coisa que pensei. Depois de sentar e escrever algumas piadas sobre o tema, o que eu fiz? Alternativa A. E um pouco da C também. Mas principalmente a A.

Fui fazer um show com meu grande parça Diego Castro (em breve entrevista com ele aqui também) no belíssimo Cine Teatro Opera, em Ponta Grossa. Lá ocorreu algo que é muito bom quando se está testando piadas novas: a oportunidade de fazer duas sessões em uma noite só. Mas isso é assunto para outro post.

Enfim, testei as piadas que havia escrito sobre os peixes. E gravei para vocês. Podem conferir o resultado da primeira sessão aqui:

Obs1: Eu não falei “pombo” à toa ali. Tinha feito algumas piadas sobre pombo antes e aquilo ficou na cabeça. Acontece.
Obs2: Depois da piada do sushi, nada daquilo estava escrito. Isso é comum também, quando o comediante desenvolve o texto no palco, improvisando. Quando funciona, isso vira material para ser utilizado posteriormente.
Obs3: O áudio é cortado de uma maneira ridícula porque eu ainda estou aprendendo a mexer no editor. Me desculpem.

E o da segunda sessão aqui:

Obs1: O corte desse audio está melhor. Já aprendi a mexer no editor.

As reações não foram grande coisa? Não. Mas foi o suficiente para ter uma ideia do que funciona ou do que deve ser alterado ou descartado. O que fazer agora? Arrumar as piadas que não tiveram o resultado esperado e escrever algumas outras piadas sobre o tema, além de manter o que funcionou. Para aí testar novamente. Quando isso acontecer, posto aqui.

 

 

Leia esse texto escrito pelo Alexandre Nix do Overcast e fique desgraçado da cabeça ao saber que peixes não existem.