Cinco pontos de um comediante – #2 Escrita

Semana passada apresentei à você, querido leitor, um dos cinco pontos de um comediante: o ritmo. Caso tenha perdido, leia clicando aqui, aqui ou aqui. E aqui também. Apenas relembrando, essa história de “cinco pontos de um comediante” eu criei para meu workshop de comédia, o que não representa, em absoluto, uma verdade institucional do stand-up. São apenas impressões e experiências que obtive nos meus anos de carreira. Isso não quer dizer que estão aí todos ou únicos fatores que fazem um humorista. As imagens são meramente ilustrativas.

No episódio de hoje, trago o elemento que, ironicamente, foi o mais difícil, para mim, escrever: a escrita. A dificuldade se coloca no seguinte obstáculo: é algo muito muito particular de cada pessoa e cada comediante. Não apenas o estilo de escrita, mas também o processo criativo de cada pessoa é particular. Existem comediantes que sentam em frente ao computador e escrevem todos os dias, faça chuva, sol, furacão ou terremoto. Outros ficam à espera da graça divina lhes presentear com inspiração e piadas vindas do céu. Alguns escrevem no palco, outros simplesmente contam histórias que aconteceram. Mas não se engane: mesmo os que não escrevem, literalmente falando, estão escrevendo.

A arte de contar histórias pode parecer tentadora à olhos destreinados. “Eu subo lá, conto uma parada que me aconteceu semana passada, e todo mundo ri, não preciso escrever porra nenhuma, pau no cu desse cara que escreve o blog”. Pau no seu cu, meu amigo. Storytelling requer escrita, pontos de risada, distorções cômicas. Assista ao novo especial do John Mulaney no Netflix e observe como ele constrói suas histórias. Não são contos monótonos onde a plateia ri apenas no desfecho. A cada poucos segundos, ele consegue risadas com comentários adicionais. Isso foi escrito, pensado, trabalhado. Não pense que, por melhor comediante que ele seja, o Kid Gorgeous subiu no palco e simplesmente vomitou a historeta por acaso, sem pensar em ter risadas por minuto, em saber onde e como prender a atenção da plateia e, até mesmo, escolher certas palavras em detrimento a outras, apenas por serem mais engraçadas. Contar histórias requer um trabalho de escrita fodido, seja ele sentando na frente do computador ou talhando o material no palco, como um bom e velho artesão.

Outros comediantes preferem as chamadas “one-liners”, que se popularizaram no Brasil pelo termo “piadas curtas”. Elas são independentes, ou seja, não necessitam de piadas anteriores ou posteriores para fazer sentido. Mesmo assim, podem ser agrupadas em um set, orbitando sobre um mesmo tema. Nesse tipo de chiste, é necessária a concisão máxima. É um concentrado de piada. Tudo o que você quer dizer, com o menor número de palavras possíveis, no menor tempo possível. Delicioso. Uma one-liner, para ser bem realizada, precisa de um final completamente surpreendente. Você só tem um tiro, e ele tem que ser certeiro. Caso a plateia preveja o caminho que você vai tomar, meu amigo, você está perdido e seu tiro sairá pela culatra. Engane os malditos! Aqui um exemplo de uma one-liner minha:

“Li uma notícia sobre um professor de escola pública que foi preso por comprar ‘presentes eróticos’ pra uma aluna de 13 anos. Meu Deus. Como é que um professor tem dinheiro pra comprar presente pra alguém?”

Claro que essa piada tem mais de “uma linha”, mas se caracteriza como one-liner por ter raciocínio próprio, começo, meio e fim e não depender de piadas prévias ou posteriores. Posso contar apenas essa piada e seguir para outro assunto, assim como existe a possibilidade de estendê-lo, falando sobre escolas, professores, notícias malucas ou abuso infantil. As probabilidades são infinitas e suculentas.

Em ambos os casos, a procura é pela quantidade de risadas por minuto. Detesto ser chato e repetitivo nesse ponto, mas detesto ainda mais ir assistir a uma noite de open mic onde o coitado tem 5 minutos pra fazer suas piadas e cada uma delas leva um minuto para ser contada. É necessário encurtar os espaços, tirar o ar entre as linhas, deixar a piada compacta. Quanto menos tempo entre uma risada e outra, melhor. Seja contando histórias, piadas curtas, bits, tanto faz. São apenas métodos diferentes para se chegar a um denominador comum: risadas. Não é porque você está contando uma história que será tolerado ficar um minuto e meio sem risadas. Não é porque está fazendo one-liners que você poderá errar três de quatro piadas. Risadas por minuto, não se esqueça.

Sobre o processo de escrever uma piada, sempre tive grandes ressalvas em apresentá-lo pois, como disse anteriormente, esse é um caminho que cada comediante trilha por si só. Meu método pode servir para uns e não para outros. Você pode criar seu próprio processo, onde só consegue escrever piadas trancado no porão de sua casa, vestindo as calcinhas da sua mãe. Problema seu. Mas creio que mal não fará expor minha maneira de escrever e, por favor, não siga isso como uma verdade. É apenas mais um jeito de escrever, assim como existem milhares de outros. Algum deles servirá em você. Assim como as calcinhas de sua mãe.

Para eu compor um set de piadas sobre determinado tema, esse tema necessariamente precisa me tocar de alguma forma. Ou eu o adoro, ou detesto. Se algo me incomoda profundamente, tenho vontade de tocar no assunto. Tenho, confesso, dificuldades em me manter motivado para escrever sobre as notícias da semana. Escrevo? Escrevo. Mas sem um pingo de tesão. “Lula preso”? Não me interessa. “Rato tomando banho”? Engraçado, mas também não mexe comigo. Eu necessito de um fator motivacional que me leve a expressar um ponto de vista sobre o assunto.

Porém, uma vez tendo o assunto que quero falar sobre, sento-me na frente do computador e simplesmente despejo a emoção. “Eu odeio fila de mercado por isso, isso e isso”, “eu amo cachorros por isso, isso e aquilo”, sem buscar, em primeiro plano, a piada. Com a emoção correta, eu consigo mostrar meu ponto de vista e, aí, colocar em forma de piada é a parte mais fácil (ao menos para mim). É como encher forminhas de gelo. Tendo o líquido certo, posso colocar na forminha que quiser, desde as quadradas até as em formato de melancia. Delicioso.

O processo de escrita de piadas é sempre uma dúvida muito grande para quem está começando na comédia. E deveria ser mesmo. Esse é o ganha pão, a parte mais importante de um humorista. O material é a base de sua casa. Usar uma roupa maneira não vai te fazer mais engraçado se você não tiver a base. Palavrões não serão motivos de riso se não tiver a base. Texto é sua base. Nada cresce sem a base. Nunca se esqueça disso.

Quem é mestre em ensinar escrita é a Carol Zoccoli. Aqui estão alguns vídeos dela mostrando a mecânica das piadas, tipos de punchline e mais outras minúcias para quem se interessa. Vejam todos os vídeos dela, vejam vídeos dos outros, vejam comediantes ao vivo e notem como eles preparam as piadas, como distorcem o punchline, com que frequência conseguem risos. Estudem.

Semana que vem posto mais um texto sobre os cinco pontos de um comediante. Caso tenha alguma dúvida, comente abaixo ou nos outros posts. Sugestões sobre temas também são bem-vindas. Um grande abraço e uma dedada.

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