Onde os fracos não têm vez

E ele voltou. O blog ressuscitou tal qual Jesus Cristo. Aqui, sempre me esforcei em dar boas dicas para quem está querendo começar a fazer stand-up comedy, porque penso que o comediante não é só um palerma que “sobe no palco pra falar umas merdas”. Comédia (stand-up e em geral) necessita estudo aprofundado e muita, mas muita prática. E aqui, procuro deixar minha contribuição pra essa arte que tanto me deu ao longo desses (poucos) 8 anos de carreira.

E esse é o intuito real e verdadeiro d’O Nascimento de uma Piada. Nunca foi de minha vontade (ou intenção) expressar opiniões sobre qualquer coisa aqui. O que geralmente apresento são relatos e experiências vividas, que têm como motivação deixar mais claro o entendimento do texto por você, seu leitorzinho de ensino médio. Entretanto, essa semana aconteceu um fato que creio valer a reflexão de meus pares comediantes e quem mais se interessa pela arte de fazer rir.

Pulou na timeline, tal qual um canguru com Eduardo Paes em sua bolsa, o acontecido com Marcela Tavares. Aparentemente, Marcela é uma vlogger que está tentando a migração para os palcos. Apesar disso, ela foi convidada para abrir (com um número de comédia) o show da banda Skank em Nova York. Mas essa não é a notícia. A notícia, dada por imensos veículos de comunicação, como G1, Veja e Estadão, é que Marcelita foi vaiada por ter feito críticas ao Brasil. O vídeo está aqui. Assista que, depois, vamos à peleja.

Um minuto e meio de um belo reboliço, hein? Em tão pouco tempo, a vlogger disse que o Brasil está uma merda, foi vaiada, contou uma piada ruim, foi vaiada mais um pouco e saiu do palco. Vamos às explanações.

Primeiramente, aqui cabe uma lição muito importante que o stand-up gosta de dar, mas que muitos comediantes (ou “comediantes”, com aspas mesmo) se recusam a aprender: o humorista é responsável por tudo o que diz. Tudo o que você fala em cima de um palco causa algum impacto na plateia. E ela responde instantaneamente. Seja com risadas, gargalhadas, aplausos, gritos, silêncio, chiados ou vaias. Isso, talvez, seja uma coisa que alguém como um vlogger não está acostumado. Você vocifera coisas para sua camerinha, ela não reage. Posta no YouTube, ele não impede. Alguém comenta que não gostou, é um hater filho da puta. O palco é um lugar onde os fracos não têm vez. A plateia te dá a resposta imediata, e isso é sim cruel para quem não está preparado. Eles não são haters, são pessoas comuns que não gostaram do que foi dito. E não gostaram a ponto de vaiar.

Provavelmente (e aqui estou trabalhando com suposições, já que não consigo ler mentes), Tavares leu seu público errado. É uma habilidade muito importante essa: saber ler a plateia. Ela deve ter pensado: “um monte de brasileiro em Nova York, deve ser tudo classe alta que odeia a Dilma, vou falar que o Brasil é uma merda que geral vai à loucura”. O que me faz imaginar isso? O simples comentário que ela fez após a primeira onda de vaias. “Então por que vocês estão aqui”? Porque, para ela, aparentemente só sai do Brasil quem odeia o país, e não quem está buscando uma condição melhor de vida para si e sua família, e sofre todo dia com uma saudade absurda da sua terra, e vê em um show do Skank uma oportunidade, mesmo que breve, de recordar o que é ser brasileiro, falar e ouvir sua língua, de relembrar o gosto de sua cultura, de não se sentir um forasteiro, um intruso. Saiba ler sua plateia.

Logo depois, ela saiu do palco. Eu duvido que seu contrato estipulava um show de minuto e meio. “Mas Pedro, ela estava sendo vaiada, o que mais você queria que ela fizesse”? Aguenta. Não escreveu essas piadas? Não pensou que elas eram boas? Então as banque. O público está vaiando? Espere, tente controlá-los. Você é a porra do comediante. Você é o capitão desse navio. Mostre que você está no comando, que você sabe onde está indo, que sabe o que está fazendo. Você é o domador e a plateia é o leão: ou você os controla ou eles te engolem.

Mas a estória não acaba por aí. Tavares, após o show, fez uma “live” para seus fãs na internet. Segue:

Para mim, esse vídeo retrata de maneira gloriosa como funciona a relação “vlogger – stand-up – plateia – fãs”.

Marcela falou besteira, foi vaiada, saiu do palco e depois foi se explicar… com os fãs na internet. Não seria o caso de se explicar com quem estava no local? Isso exemplifica o seguinte: vloggers que fazem stand-up e já começam em teatros lotados, nunca se apresentam para uma plateia de verdade. Eles só fazem performances para seus fãs, que vão adorar cada frase dita e perdoar cada erro cometido. Se você quer ser um comediante de verdade, por mais famoso que seja, comece por baixo. Quem gosta de você, vai rir de tudo. Você não é bom porque fez sua mãe ou sua namorada rir, e sim porque você fez rir um desconhecido bêbado que não queria assistir comédia.

Um caso ótimo de se citar é o do ator Marcelo Serrado. Global, ele começou a fazer stand-up e, claro, lotou qualquer teatro que quis. Apesar disso, o maldito queria melhorar, e foi fazer show fora da sua zona de conforto, longe dos braços de seu público. Não sei se hoje ele é bom ou não, mas posso garantir que ele melhorou. E por que diabos ele fez isso? Porque ele provavelmente se importa com a qualidade do que está apresentando e respeita o stand-up comedy como arte, e não como um caça-níquel.

“Pedro, você é contra os vloggers que vão pro stand-up”? Não. Tenho um pouco de inveja? Sim. Inveja porque eles rapidamente conquistaram um público que muita gente boa pra caralho e que está na estrada há 10 anos ainda não conseguiu. Mas isso não é culpa deles, óbvio. E também não acho que eles prejudicam o stand-up comedy com seus shows superlotados em teatros. Quem vai assistir o Whindersson, Kefera ou Marcela Tavares, não vai porque eles estarão fazendo stand-up, e sim porque eles são quem são. Se eles fizessem números de mágica, malabares ou cagassem em 13 baldes de alumínio, o tamanho do público seria o mesmo. Eles não pertencem ao circuito do stand-up, não vivem o mercado real da comédia. Eles moram em um mundo paralelo, um universo alternativo. Isso também não quer dizer que nenhum deles tenha talento. Nunca vi vlog ou show do Whindersson, mas já ouvi comentários dizendo que é bom. Nunca vi vlog ou show da Marcela Tavares (só o fatídico vídeo acima), mas já ouvi comentários dizendo que é ruim. E é assim a vida. Uns são bons, outros são ruins, uns fazem sucesso, outros não.

O grande ponto desse post é o seguinte: o que aconteceu com Marcela Tavares, não aconteceu porque a plateia era hater, burra ou nacionalista, e sim porque ela não está preparada pra fazer o que está se propondo a fazer. Se ela (ou qualquer outra pessoa) quer ser comediante, quer tratar o stand-up como um modo de vida, e não uma maneira de encher os bolsos com ouro de tolo, ótimo. Então estude, trabalhe, se foda, se levante, trabalhe, se foda novamente, se levante sempre. Se te vaiarem, não chore, repense conceitos, veja o que você fez de errado. Não culpe os outros pela sua falha. Saia da zona de conforto, seja ela qual for, porque ela não te faz bem.

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2 comentários sobre “Onde os fracos não têm vez

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