Tente SER um comediante

Uma reclamação comum à beça entre comediantes é que o mercado do stand-up comedy está ficando saturado. Todo dia surgem mais e mais humoristas e os shows estão ficando diminutos. Verdade. Apesar de não concordar que exista um inchaço no mercado (vamos lá, não existem sequer 10 comedy clubs no país todo e nem metade das capitais contam com grupos de stand-up), acredito sim que há uma falta de mão-de-obra qualificada. Abundam “humoristas”, com aspas, escasseiam HUMORISTAS, em letras garrafais.

A internet é uma das mães da comédia stand-up no Brasil. É por ela que vários comediantes divulgaram e ainda divulgam seus trabalhos. É um meio simples, rápido, eficaz e, a princípio, gratuito. Mas nem tudo são flores e unicórnios no belo mundo da internet. Graças à essa facilidade em autopromoção, todos os dias somos afogados por convites para curtir páginas de comediantes que desconhecemos. E desconhecemos ou porque nunca tivemos contato, ou porque não são comediantes mesmo.

Percorrendo não apenas as redes sociais, mas também o mundo real, percebo a crescente sede de humoristas iniciantes por curtidas, seguidores, visualizações e compartilhamentos. Todo open mic tem uma página, uma agenda da semana, uma logomarca, um vídeo que ele espera que bombe e o leve ao estrelato. E, não me entendam mal, cada um tem o direito de divulgar seu trabalho e buscar algum tipo de sucesso. Por mim você pode colocar um outdoor no meio da cidade com a sua foto enrolado no fio de um microfone seguida dos dizeres: “Sou o mais pica, me contrata”. Porém, noto que existem muitos que se preocupam mais em atingir 10 mil curtidas em sua página no Facebook do que em construir 10 bons minutos de material no palco. Se empenham mais em parecer um comediante do que em ser um.

O que faz alguém ser comediante não é o número de visualizações que ele tem no Youtube, nem a quantidade de seguidores no Twitter, tampouco o número de curtidas no Instagram. É o palco. O bom, velho, e maldito palco. O público do bar não se importa em quem tem mais seguidores no Snapchat, e sim em quem é mais engraçado, quem tem o melhor material. Criar uma página no face é fácil. Difícil é criar uma piada foda e original.

Acho ótimo que muitos open mics tenham a consciência de que é necessário ter um canal para divulgar seu trabalho para o público. Muitos humoristas com anos de carreira não têm site ou sequer uma página decente (me incluo nesse grupo de preguiçosos). Mas preocupe-se, primeiramente, em ter um bom trabalho para divulgar. Se empenhe mais em fazer shows do que em divulgá-los. Preocupe-se mais em conseguir escrever 10 minutos ótimos do que fazer com que seu vídeo tenha 100 mil visualizações. É como a Chiquinha, que compra um líquido para polir objetos de prata sem ter nenhum objeto de prata em casa.

Não quero dizer que open mics não devem ter suas páginas, projetos de Youtube, agendas da semana ou vídeos compartilhados. Façam à vontade. Só aconselho que estabeleçam prioridades e sempre, sempre e sempre coloquem como prioridade número 1 melhorar como humorista, escrever piadas mais engraçadas, um set melhor construído, fazer um show cada vez melhor. Quem sabe, se você fizer um show muito bom, alguém que te assistiu queira curtir a sua página.

Porque não adianta tentar parecer um comediante. Tente SER um comediante.

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