Como começar

A audiência desse blog é, pelo que percebo, majoritariamente formada por aspirantes a humoristas. Pessoas que fazem ou pensam em fazer open mic e que procuram aqui, imagino, dicas para melhorar performance e material. Esse é um dos intuitos d’O Nascimento de uma Piada, sem dúvidas. Mas, mais que técnicas de escrita ou apresentação, tento aqui passar aos iniciantes a ética e o respeito que se deve ter pela arte. Respeitar o meio para ser respeitado por ele. Para quem está querendo ingressar no stand-up, essa é uma lição muito importante, mais até que saber que setup + punchline resultam em uma piada. E, quando falo em respeito, não me refiro apenas a casos que já escrevi aqui, como não roubar material ou nunca estourar o tempo, e sim entender a arte com a qual você está lidando.

Então, o post de hoje será direcionado, principalmente, a quem deseja começar uma carreira no stand-up ou está dando seus primeiros passos na comédia. Mesmo que você não se encaixe nas categorias acima citadas, sinta-se convidado a ler o texto também. Prometo que nada aqui lhe causará cegueira*.

O post não será sobre “como escrever uma piada”. Essa informação você pode encontrar em livros, sites, conversas, basicamente em todo lugar. A Carol Zoccoli fez uma sequência de vídeos explicando bem explicadinho como se escreve uma piada de stand-up. Veja o primeiro deles nesse link (mas não seja um desgraçado ingrato e leia o meu texto antes). Aqui, quero falar mais sobre tratativas e comportamentos. E tentarei ser o mais didático possível, portanto separei tudo em tópicos numerados e muito fáceis de acompanhar, até pra você que não acompanha nada. Simbora.

1) Saiba onde você está se metendo
É muito comum encontrar pessoas que querem começar a fazer stand-up sem ter ideia do que é stand-up. É daí que surgem aquelas figuras que sobem num palco pela primeira vez e começam a contar toneladas de piadas de comediantes que eles viram pelo YouTube, ou então adaptando piadas prontas para a primeira pessoa. Nos dias de hoje, esses são erros inaceitáveis. É inaceitável que você queira fazer stand-up e não saiba que não se pode usar material de outro humorista. Inaceitável. Mais uma vez: inaceitável. Esse é o tipo de coisa que, com o mínimo de pesquisa, se aprende. Está escrito em todo e qualquer lugar e, caso você não tenha encontrado nenhuma linha sobre isso nessa galáxia chamada internet, eu escrevo aqui para você: no stand-up comedy, o humorista deve apresentar apenas piadas escritas por ele ou para ele. Nessa sentença, não existe “porém” ou “mas”. Não há exceções. Esse é o mínimo que alguém deve saber (e praticar) sobre a comédia stand-up. Vamos adiante.

2) Estude, estude, estude e estude
Absorva tudo o que puder sobre o stand-up. Leia todos os livros disponíveis (mesmo os da Judy Carter), veja todos os vídeos que puder no YouTube, procure por entrevistas de seus comediantes favoritos e vá assistir shows ao vivo. Essa exposição a todo tipo de informação sobre a comédia stand-up é muito importante para quem quer ingressar no ramo. Com esse material em mãos, cabe à pessoa filtrar o que lhe serve ou o que deve ser dispensado. Esse é um trabalho que, inclusive, deve ser contínuo durante toda a carreira do comediante. Como em qualquer outra profissão, é importantíssimo se manter atualizado, mesmo que tenha anos de experiência. Adiante.

3) Escreva seu material
Antes de procurar um lugar para se apresentar, você deve escrever algumas piadas para contar no palco. “Mas eu achei que o stand-up fosse feito de improviso. O humorista não inventa aquilo tudo na hora”? Para de ler aqui e volta pra etapa 1, por favor. O material de um comediante stand-up é algo pensado, escrito e reescrito previamente. Se você está começando, eu suplico, não invente de subir no palco sem nada preparado. Isso não vai ser bom pra você, para o público ou para quem te deu oportunidade no show. Escreva seu material antes.
“Mas sobre o que eu devo escrever”? Sobre o que você quiser. Uma velha dica é fazer piadas com algo evidente em você. Gordo, magro, baixinho, altão, careca, perneta, tanto faz. Mas essa técnica não é uma regra, você pode falar sobre qualquer tema. “Quero fazer uma piada sobre AIDS”. Você é livre para isso, mas aqui vai um conselho: a plateia pode até aceitar uma piada ruim sobre relacionamento ou avião (ou qualquer outro tema comum), mas não uma piada ruim sobre AIDS ou estupro (ou qualquer outro assunto delicado). Para o público rir de uma piada sobre relacionamento, essa piada tem que ser boa. Agora, para rir de uma piada sobre estupro, ela deve ser excelente. E, até hoje, eu não me lembro de ter visto um open mic fazer uma piada excelente. Só relembrando: não estou dizendo para você não fazer esse tipo de piada, apenas peço que esteja ciente dos riscos que ela implica.
E, uma última coisa. Escrevi, no primeiro item, que “o humorista deve apresentar apenas piadas escritas por ele ou para ele”. Esse “para ele” é porque, ainda que não muito comum, existem humoristas que contam com redatores, que escrevem piadas para ele ou que o ajudam a escrever. Nos EUA isso é muito corriqueiro, mas no Brasil não adquirimos essa prática. Muitos humoristas são contrários a essa atividade mas eu, particularmente, não vejo problemas. Mas, para quem está começando, eu aconselho a escrever seu próprio material. Isso ajuda o comediante a definir seu estilo de escrita, sua persona e também acelera o seu desenvolvimento. Escreva. Adiante.

4) Procure um lugar para se apresentar
Se você mora em cidades como São Paulo ou Curitiba, basta procurar algum show de stand-up que abra espaço para open mic. Existem, inclusive, algumas noites próprias para isso. Importante: quando você conseguir um open mic, por favor, respeite o tempo. Esse é o principal motivo que leva alguns iniciantes a serem mal vistos pelos comediantes profissionais. Fazer o tempo determinado (3 ou 5 minutos) não é nada difícil, além de significar respeito pelo show e pelos profissionais que te deram essa oportunidade.
Mas a grande maioria das pessoas não mora nesses centros ou próximo a eles. “Não existe nenhum show de stand-up na minha cidade ou na região. O que eu faço”? Crie seu próprio show. Com certeza sua cidade, por menor que seja, tem um bar, um restaurante, uma pizzaria, um teatro, um auditório, algum lugar onde você possa se apresentar.
“Mas eu vou me apresentar sozinho? Não tenho como fazer uma hora de show”. Não precisa. Vá, por exemplo, a algum lugar que tenha música ao vivo e fale com o dono do local, explicando que você é um humorista e que está procurando um lugar para se apresentar. Peça para fazer 10 minutos durante o intervalo do músico. Pronto. Se você conseguir fazer isso uma vez por semana, já vai estar se apresentando mais que muita gente nos grandes centros. Além disso, essa “ousadia” incentiva outras pessoas que queiram se apresentar. Tenho certeza que tem uma ou duas pessoas na sua cidade que também morrem de vontade de começar a fazer stand-up. Afirmo que, se elas souberem que alguém está se apresentando na cidade, vão se interessar em fazer também, e isso pode ser o início de um grupo na sua região. Com um show completo, vocês podem até pleitear uma noite no bar só para vocês.
“Mas eu sou ruim, ninguém vai deixar eu me apresentar”. Eu tenho certeza que é, mas ninguém nasce sabendo. Um comediante só melhora subindo no palco e fazendo shows. E outra: se não tem nenhum humorista na sua região, eles terão que se contentar com você. Mas não se conforme com isso, por favor. Se esforce para melhorar e dar ao seu público o melhor show que você puder.

5) Siga em frente
A partir daqui, é só seguir em frente. A caminhada de um humorista não é tão fácil e gloriosa quanto parece, mas eu acredito que, se você ama de verdade a comédia, tudo vai valer a pena. Desde os shows ruins para quase ninguém, passando pelo dinheiro inexistente nos primeiros anos de carreira até a luta diária para ter um lugarzinho para desenvolver seu ato. São percalços que você deve enfrentar para se tornar, um dia, um comediante. E, aqui, vão uns últimos conselhos: continue estudando e procurando evoluir. Nunca se sinta plenamente satisfeito ou confortável com o que você está fazendo. Saia da zona de conforto. Nunca recuse tempo de palco. Não diga nem faça o típico “não me apresento nesse bar, o público aqui é horrível”. Ótimo, se o público aqui é horrível, então é aqui que você deve se apresentar cada vez mais. Se você faz o publico ruim rir, fará o público bom mijar. E, o mais importante, respeite o meio que o meio vai te respeitar. Seja correto com seus colegas e com a sua arte e eles farão o mesmo com você.

Espero ter ajudado você que quer começar ou já começou no stand-up. Seguindo esses passos, não posso garantir que você vai ser um bom comediante, mas será sim um bom profissional. E isso já é boa parte do caminho.

Sei que faz tempo que não posto nada aqui no blog. Não me sinto em dívida com nenhum de vocês porque, bem, eu não tenho obrigação de porra nenhuma. Só pra esclarecer que eu dei um tempinho no blog porque estou preparando algumas coisas bem legais que vou divulgar em breve.

Sai da chuva moleque.

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