Piloto-automático

Há pouco mais de um ano, comecei uma tarefa que, logo depois, tornou-se um hábito. Religiosamente, eu… Não, espera, não gosto desse termo. “Religiosamente”. Me dá calafrios. Selecionei a palavra e cliquei com o botão direito. “Sinônimos”. nenhum. Mas acho que não importa a expressão, desde que ela expresse que faz mais de ano que gravo todas as minhas apresentações, em áudio. Depois ouço-as, analiso-as e faço um pequeno resumo geral do que aconteceu aquela noite.

Creio que essa é uma maneira muito interessante do comediante conhecer seu próprio material mais a fundo, para conseguir extrair o máximo dele. Quem vive de comédia sabe que meio segundo de atraso ao dizer o punchline pode acabar com a força da piada, assim como centésimos de adiantamento em uma palavra tem o poder de matar o final cômico de uma história. Respirações, pausas, entonações, modulações de voz, tudo isso é tão importante para uma boa apresentação quando o próprio material. Por isso, incentivo todos que são ou pretendem ser comediantes a tornar essa prática um hábito em suas vidas. Hoje em dia, qualquer celular tem gravador de áudio e todo mundo tem um computador. Se você não tem um computador, mas está lendo isso, provavelmente está em um lan house, então aproveite e crie logo um Google Drive que funciona do mesmo jeito. O gravador é para, quem diria, gravar a apresentação e o computador para armazenar áudios de shows e escrever suas considerações sobre a performance. Nada que o bom e velho e surrado e comido pelas traças papel e caneta não dê conta também.

Conselhos dados, vamos ao epicentro do post. Essa semana, fiz um show onde testei algumas piadas novas. Abri com um material “garantido”, que eu faço a todo momento. Não funcionou muito bem. Confesso que fiquei apreensivo. O que será desse material novo se até as piadas velhas sucumbiram à batalha? Foram alguns minutos de pedaladas (fiscais?). Me senti como o Lula Inflável, desinflado. Bom, após o início turbulento, chegou a hora de estrear as pobres piadinhas. E não é que as filhas-da-puta foram muito bem? Que grande surpresa.

Dia seguinte, ao realizar minha habitual análise do show, acabei notando com mais clareza os fatores apontados no parágrafo acima. Minhas piadas “garantidas” capengaram, enquanto as novas explodiram. Será que consegui criar piadas tão boas a ponto de fazer meu material antigo assemelhar-se a chorume? Duvido muito. Mas então, o que diabos aconteceu? Aconteceu que eu entrei no piloto-automático.

Isso é algo bastante corriqueiro, na verdade. Não apenas comigo ou com você, mas com qualquer comediante. Quando o humorista executa o mesmo material muitas vezes, consecutivamente, é normal que esse texto seja dito de uma maneira cada vez mais inconsciente. Você não está mais contando as piadas, e sim apenas repetindo-as, de novo e de novo. E, ao entrar nesse processo de “piloto-automático”, seu material perde força. Quando se conta a piada dessa maneira, ela perde impacto pois o comediante não está 100% dentro dela. Quem explicou isso de uma maneira muito bacana foi a Carol Zoccoli nesse vídeo.

Pode-se notar a brusca diferença em relação ao material novo. Como eram coisas (quase) inéditas, eu não sabia direito como elas fariam o público reagir. Logo, dediquei muito mais atenção a elas, para que funcionassem da melhor maneira. E, provavelmente, foi por isso que elas funcionaram bem, enquanto as antigas não chegaram nem perto disso.

“Mas, como eu faço para não entrar nesse ‘piloto-automático’”? O primeiro passo é prestar atenção no que se está fazendo. Se você está contando uma piada e, ao mesmo tempo, pensando em tentar sair com a moça bonita da primeira mesa, você já está no piloto-automático. Fique na piada, coloque todas as emoções necessárias para ela funcione em sua plenitude. Não apenas cuspa o seu material. Sinta ele e faça com que as pessoas da plateia também o sintam. Porém, como eu disse, é comum que isso aconteça, independente do humorista. Quando você notar que está fazendo isso, deixe um pouco o material em questão de lado. Fique um ou dois meses sem fazê-lo, dê umas férias para o coitado. Aposto que ele voltará tinindo para as próximas apresentações. E se mesmo após boas férias nas Bahamas, ele retornar ainda cansado e sem realizar seu trabalho direito, creio que seja a hora de aposentar esse material.

Gosto de pensar que alguns de vocês notaram que não postei nada semana passada. Bom, isso ocorreu porque estou incrivelmente ocupado e procurando dar prioridMENTIRA. Não teve post porque eu não consegui achar algum tema relevante para escrever sobre. Até comecei dois textos, mas eles estavam uma bosta, acreditem em mim. Então, o que vocês podem fazer para me ajudar a manter esse blog funcionando semanalmente, é mandar sugestões de temas para posts futuros. Quais suas dúvidas sobre o mundo do stand-up, meu jovem open mic? Escreva nos comentários aqui no blog, facebook ou twitter. Ou mesmo me mande uma inbox, caso tenhas vergonha de sua dúvida estúpida.

No mais, o de sempre: compartilhem, mostrem pros amigos e mandem críticas, sugestões e elogios porque preciso me manter motivado.

Sério.

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2 comentários sobre “Piloto-automático

  1. Quando comecei a perceber a falta de força em piadas que geralmente são fortes, comecei e refletir sobre o assunto, sobre o que acontecia nas apresentações em que eu ativava o piloto automático. O que eu reparei (pelo menos no meu caso) é que isso acontece muito mais em shows “MEUS” (nas noites de show em que eu sou o organizador, o “dono da noite de humor), e principamente quando vou testar material… Então percebi que minha mente fica apreensiva e ansiosa com o NOVO, como se ela estivesse ainda trabalhando nisso, e liga o PA (pau amigo?) para o que eu já sei que vai (deveria) funcionar.
    Pra mim isso foi tão verdade que depois do show eu nem me lembrava de todas as piadas que havia feito, principalmente porque o NOVO funcionou muito bem.

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  2. Muito bom… Sempre aprendo muito com suas postagens… Meus Parabéns !!
    A minha dificuldade é que aqui no Rio de Janeiro não tem lugares para quem esta começando na comédia fazer um Open Mic, Pra você ter um a oportunidade só em outros estados como São Paulo e Curitiba. Acho que vou ter que criar meu próprio espaço de comédia, pois está Brado aqui…
    Grande Abraço Pedro.

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