Queria ser Kuririn

Você, comediante ou aspirante, já teve aquela noite em que deu tudo errado em cima do palco? Nenhuma piada funciona direito, o que começa a deixar a plateia meio dispersa. Você já contou suas melhores piadas e conquistou apenas risos tímidos. Já não sabe mais o que fazer para ganhar a atenção do público. Olha, estou suando frio só de imaginar esse cenário.

Acontece que apresentações tenebrosas, como a descrita acima, são parte da vida de um humorista. Mesmo os melhores, um dia ou outro, enfrentam noites de pesadelos. A grande questão é como cada comediante reage diante de dificuldades como essa.

Alguns ficam seriamente abatidos, mesmo sabendo que vão passar por algumas dessas enrascadas ao longo da carreira, outros não se importam e seguem como se nada tivesse acontecido. Eu, em particular, faço parte do primeiro grupo, pelo menos na noite do ocorrido. Bastante chateado, fico remoendo o sabor de bosta daquele show até chegar em casa e dormir. Mas, no dia seguinte, já sou membro integrante do segundo time. Penso: “Aconteceu, ok, não adianta ficar chorando, vamos melhorar pra próxima”. Sinceramente, essa mistura de sentimentos me parece saudável. Ficar abalado por dias e dias pode minar sua confiança e fazer com que um show ruim se transforme em outros péssimos. É aquela velha história de se enterrar em um buraco cada vez mais fundo. Assim como, se mostrar insensível diante de uma ou mais apresentações malfeitas, pode deixar o humorista “cego”. Ter uma sequência de shows tenebrosos e não ligar o sinal de alerta, achando que uma hora a má fase passa, é preocupante. Se você não fizer nada diferente, nunca nada vai mudar.

No meu ponto de vista, shows ruins são tão importantes quanto os bons, desde que você saiba (e queira) aprender o que eles estão dispostos a ensinar. Apresentações excelentes são ótimas para levantar o moral (sim, é bom para o moral), mas uma ruim ou outra serve para tirar o humorista do mundo do faz de conta e jogá-lo novamente na vida real.

Vou contar-lhes uma bela história que aconteceu com um amigo meu. E, quando eu digo “amigo”, quero dizer que ocorreu comigo mesmo. Há uns quatro ou cinco anos atrás, eu estava em uma maré de shows deslumbrantes. Só apresentações incríveis, apenas performances que arrancavam enormes gargalhadas (pelo menos era assim que eu enxergava a situação na época). Eu estava me sentindo o maioral. Ninguém ganhava de mim. Pode vir qualquer plateia em qualquer lugar que eu destruo. Sou o rei da porra toda. Em uma noite de terça-feira, estava eu a caminho de um show, num bar em que eu nunca havia me apresentado e estava há tempos tentando convencer a produção do local a me levar para fazer lá. Durante o trajeto até o lugar, me peguei justamente com esses pensamentos acima. “Sou muito bom. Não tem ninguém melhor que eu”. O show seria com outros dois comediantes. Um abriria, eu entraria em seguida para, aí sim, o último fechar o show. O primeiro comediante subiu no palco e foi um arregaço gigantesco. O cara arrebentou. Como diria Valeska Popozuda, “só tiro, porrada e bomba”. Imediatamente, pensei: “Hoje vai ser épico. Plateia está uma mãe, é só mandar ver e correr para o abraço”. Quando ele terminou, quase ovacionado, fui chamado ao palco. Primeira piada, a de abertura, que sempre explodia: risada fraca. As seguintes, nem isso. Uma risadinha mais forte uns minutos depois e não me lembro de mais nada. Como se minha memória quisesse me poupar do sofrimento. Só recordo que foi um fiasco. Enorme. Quando anunciei o último humorista da noite, meu derradeiro suspiro de esperança se calou. O sujeito arrebentou também, umas risadas impressionantes, daquelas que se misturam com gritos e pequenas palmas. Eu era uma fraude. Subir no palco ao final do show para dar os últimos recados foi doloroso. Eu não queria mais estar ali. Meu desejo era sumir na fumaça ninja. Me esconder em uma caverna no Nepal e me converter ao budismo. Queria ser Kuririn. Fiquei praguejando contra mim mesmo o resto da noite. Me amaldiçoando. Fora abatido como um cavalo que quebra a perna. Aquela conduta deveria ser sacrificada. Como eu poderia me achar um grande humorista depois de uma noite daquelas? Demorei quase um mês para voltar a fazer um bom show. Levei bomba nas apresentações seguintes. E, relembrando essa noite, confesso, me dói um pouquinho. Não recordo com tristeza. Sinto sim, de leve, a agonia passada naquela terça-feira mas, hoje, relembro daquela ocasião como um dos momentos mais importantes da minha carreira. Naquela noite de setembro, a plateia me deu o que eu precisava, não o que eu queria.

O que eu aprendi depois desse direto-no-queixo do destino? Que, em primeiro lugar, você provavelmente não é tão bom quanto pensa. Em segundo lugar, shows bons e ruins acontecem e é mais importante saber tirar proveito deles do que apenas chorar ou se vangloriar. Terceiro, que as apresentações terríveis são aquelas que mais ensinam a gente, e nos preparam para as dificuldades que virão. E, por fim, que sempre terá o próximo show. Cada apresentação é uma oportunidade para o comediante melhorar ou piorar. Aí, só depende de você.

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