Abre-fecha

Uma dúvida é constante na cabeça de comediantes, novos ou experientes: qual é a melhor piada para abrir? E qual a ideal para encerrar uma apresentação? Existem muitas teorias sobre a escolha mais apropriada. Alguns dizem que o humorista deve abrir o show com sua melhor piada e fechar com a segunda melhor. Outros afirmam que deve-se começar com a segunda melhor, deixando a melhor para o encerramento. Acredito que, por si só, nenhuma das alternativas se sustentam.

Antes de escolher a piada que abre ou fecha uma apresentação simplesmente pela força dela, o comediante deve analisar qual o estilo dessas piadas, o tema que elas abordam e a situação do show. Você estará se apresentando sozinho ou com vários comediantes? Quanto tempo você tem para se apresentar? Em que momento do show você subirá ao palco? Tudo isso deve ser levado em conta.

Particularmente, não acho que piadas muito longas ou com uma temática sexual acentuada sejam boas escolhas para abrir um show, por mais engraçadas que elas sejam. Usar uma piada que leva quase dois minutos para obter uma grande risada, logo no início de uma apresentação de 10 minutos, me parece arriscado. Creio que, no início do seu set, a melhor opção seja utilizar piadas curtas, para ganhar ritmo e embalar a plateia. Isso garante que o público esteja solto já no começo da apresentação, o que facilita o bom andamento do show. Agora, se tratando de um show solo, não vejo maiores problemas em abrir com uma piada um pouco mais longa, já que o comediante terá um tempo maior para imprimir um ritmo adequado ao show, tendo em vista que ele terá mais 60 minutos de espetáculo para tal.

“Mas, já que não posso abrir com aquela minha fabulosa piada sobre os vários tipos de pênis que existem, com o que devo começar”? Em primeiro lugar, não existe isso de “não pode abrir com tal material”. Você é livre para falar sobre o que quiser, no momento que quiser e, sim, ser criticado por isso. Apenas lembre-se que aquelas pessoas, muito provavelmente, não te conhecem e/ou estão vendo você pela primeira ou segunda vez. Imagine você conhecer uma pessoa e suas palavras iniciais para ela serem sobre o quão seu pênis é torto para tal lado. Muito, muito estranho. Creio que aqui, aquela velha máxima de comentar sobre algo evidente em você funciona bem. Se você é um gordo suado, quatro olhos, japa, negão, bicha, pobre ou feio como um rato, falar sobre isso é uma boa maneira de começar o show.

Agora vamos ao final. Como fazer um bom encerramento? Qual piada é a mais apropriada para fechar? Aqui sim, são melhor aceitas as piadas que “refutei” ali em cima. Sexo, palavrões ou piadas longas são melhor apreciadas pelo público no final de uma apresentação. Por quê? Bem, porque no encerramento, o comediante já estabeleceu uma relação com a plateia, eles já se “conhecem”, portanto é permitida uma maior intimidade. “É importante ter piadas fortes no começo para imprimir um ritmo ao show e trazer a plateia para o lado do humorista, ok. Mas, porque é importante fechar com uma grande piada? Afinal, eu já fiz um bom show, não preciso mais provar que sou engraçado”. Da mesma maneira que todos já sabem que você é muito engraçado, eles esperam que você seja ainda mais hilário no final. Quando você está comendo um bolo, a melhor parte não é deixada para o final? Voilà. A expressão “grand finale” não existe à toa.

Encontrar boas piadas de abertura e encerramento não é tarefa fácil para nenhum comediante. Mais difícil ainda é não apegar-se às mesmas a vida inteira. Muitos humoristas passam anos abrindo e fechando seus shows com as mesmas piadas. Já fui vítima desse comodismo, confesso. Um bom humorista não deve ter a piada de abertura e a piada de encerramento, e sim várias que podem ser usadas em diferentes posições em um set list, sem influenciar no resultado final da apresentação. No documentário “I am comic”, Louis CK diz algo que exprime exatamente isso. Nosso careca-ruivo preferido conta que, quando estava construindo o material para seu primeiro especial, ele tinha 40 minutos bons, seguidos de 20 horríveis. Porém, ele não se importava com isso, pois seus cinco minutos finais eram excelentes e, assim, ele conseguia terminar o show em alta. Um belo dia, ele começou a abrir o show com a piada de encerramento e, assim, teria de achar uma nova maneira de fechar bem a apresentação. Então, quando conseguiu escrever uma piada de encerramento tão boa quanto a anterior, ele a jogou novamente para o início e seguiu fazendo isso até eliminar os 20 minutos fedorentos. E, tem algo que ele disse que faz muito, mas muito sentido: “Aqueles 20 minutos não poderiam ser fortes porque eu não precisava que eles fossem”. Isso é uma magistral lição. Um comediante nunca deve se acomodar, deve estar sempre desafiando a si mesmo e, consequentemente, melhorando. E, para que isso aconteça, é necessário correr alguns riscos. Se Louie não tivesse corrido o risco de tirar sua piada de encerramento do final, expondo assim as fraquezas de seu material, ele jamais teria escrito outras ótimas piadas para seu especial.

Você, comediante, open mic, tanto faz, comece a fazer pequenas experiências com seu material, com o propósito de descobrir suas falhas e melhorá-lo. Se existe uma piada com a qual você sempre abre e outra, eternamente utilizada para fechar, tente fazer alguns shows sem uma delas. Procure escrever uma nova piada de abertura, uma outra que possa ser tão forte quanto a de encerramento. Isso pode levar algum tempo, custar-lhe alguns shows ruins, mas se esse é o preço a ser pago para melhorar, eu pago com o maior prazer do mundo.

Este blog é um espaço para o debate sobre comédia. Então, se você concorda, discorda, acha necessário acrescentar alguma coisa em tudo o que foi escrito, tem alguma dúvida ou sugestão para um tema futuro, por favor, deixe seu comentário abaixo, ou então no facebook ou twitter. Caso queira mandar-me uma ameaça mais intimista, pode também enviar um email para pedropontolemos@gmail.com. Se possível, divulgue para seus amigos, familiares ou animais que também gostam de humor e se interessam em discutir o tema. Apenas debatendo é que vamos fazer nossa amada comédia crescer cada vez mais no Brasil.

Até semana que vem.

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2 comentários sobre “Abre-fecha

  1. Sempre cirúrgico, Pedro. Ontem eu estava falando sobre isso com outro comediante, da importância de abrir bem o show com evidências físicas pra que o comediante possa “ser comprado” pela plateia. E só então partir pra outros temas.

    Há um tempo atrás eu abria meu show com 3 one-lines seguidas e depois ia para o texto mais longo. Parei porque eu sentia uma queda de ritmo no meio do texto (talvez o texto fosse mais fraco, ou talvez eu confundia a plateia com a mistura de one-lines/ piadas mais longas).

    Esse seu texto veio em boa hora, porque exatamente o que me falta é esse início com um tema mais pessoal e piadas pra “marcar” o ritmo da apresentação.

    No mais, CK é gênio.

    Abração.

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