A Usurpadora

Acredito que nada, absolutamente nada irrita mais um comediante do que um ladrão de piadas. Não há outro tema que consiga unir tantos humoristas em prol de uma mesma causa do que fazer justiça contra um surrupiador de risadas. Um sujeito que copia material é execrado no circuito tal qual um estuprador na cadeia.

“Mas, por que é uma falha tão grave copiar uma piada? Já dizia o velho ditado: ‘Piada não tem dono’”. O que não tem dono é o rabo de quem diz isso. O stand-up tem pouquíssimas regras, e uma delas é claríssima: “Nunca copie material de outro comediante”. Um humorista passa dias, noites, semanas, meses e, até mesmo, anos pensando, escrevendo, testando e lapidando suas piadas, até deixá-las perfeitas. É justo que um arrombadinho as copie para contá-las num barzinho do outro lado do país, sendo que o único trabalho que ele teve foi entrar no YouTube e usurpar o material alheio? Deixe que sua consciência responda.

“É comum comediantes roubarem piadas uns dos outros?”. Não. Digo com sinceridade que, entre humoristas profissionais e consolidados no circuito, a incidência desse tipo de coisa é bem pequena. Justamente porque cada um sabe do sacrifício que é escrever míseros cinco minutos de um bom material. Quando isso ocorre, geralmente quem está envolvido é algum tipo de aventureiro, que não tem qualquer pretensão de construir uma carreira na comédia stand-up ou ter o respeito dos colegas. O sabichão só quer aproveitar a onda para fazer uma graninha.

Os casos mais recorrentes acontecem com iniciantes. O jovem quer começar a fazer stand-up, então ele faz um belo apanhado das melhores piadas que os comediantes postam em vídeos na internet. Eis seu texto. Não preciso nem dizer que, se esse open mic estiver fazendo show com humoristas decentes, ele receberá um esporro, bem de leve, só pra deixar de ser trouxa. “Ai, mas coitado do menino, ele tá começando, não sabia que não podia usar piada dos outros”. Sério? Em pleno 2015? Para o cara saber que o stand-up tem que ser autoral, basta ter internet e boa vontade para pesquisar. Se não sabia é porque é burro, preguiçoso ou porque é safado mesmo. Qualquer indivíduo que se interesse pelo stand-up a ponto de querer subir num palco, tem a obrigação de saber o mínimo sobre aquilo. E o mínimo sobre o stand-up é: “Não conte piadas prontas, tampouco de outros comediantes”. Esse é o mínimo. O mínimo. Mínimo. Nada menos que isso. É muito bom ressaltar que a grande maioria dos open mics que eu já vi (e isso reflete o âmbito geral também) é honesta com a arte e escreve suas próprias piadas.

“E o que eu faço quando algum espertalhão copia minhas piadas?”. Bom, existem vários meios de se resolver esse problema. O mais civilizado deles seria ter uma conversa com o sujeito. Se o tal for apenas burro, o susto fará com que ele pare de usar o seu material. Mas, se o cara for um vagabundo mesmo, que não dá a mínima para o fato de estar roubando, apenas espalhe por aí que ele é um safado ladrão de piadas. Dificilmente o cidadão conseguirá se apresentar nos bons shows da cidade/estado. “Não é errado queimar o cara desse jeito?”. Não mais que copiar material e prosseguir com a prática, mesmo após ser avisado que isso dá merda. Existem outros métodos também. Eu mesmo já vi desde barraco na internet até dedo na cara ao vivo, mas penso que a melhor punição que o gatuno pode receber é ter as portas fechadas e não conseguir mais fazer shows. “Posso processar o féladaputa?”. Até pode, mas acho essa uma dor de cabeça bastante desnecessária.

“Pedro, já aconteceu de roubarem piadas suas?”. Sim. Minha atitude foi conversar com o suspeito, disse que sabia o que ele havia feito e pedi para que ele parasse. O cidadão logicamente negou o ocorrido, mas creio que, depois disso, ele não usou mais as minhas piadas. Que certeza eu tenho disso? Nenhuma. Mas o medo de ser apanhado, penso eu, deve ter inibido sua vontade de contar minhas piadas.

Por mais que lutemos todos juntos, vejo que esse é um problema que jamais encontrará seu fim. Nesse exato momento, algum comedinha pode estar fazendo o texto do Porchat, do Rafinha, do Duncan, meu ou seu, num boteco em algum vilarejo do norte brasileiro, ou em uma temakeria no interior catarinense, ou num puteiro de beira de estrada na divisa entre São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Como podemos parar esses caras? Não podemos. O que nós, comediantes, podemos fazer é não incentivar esse comportamento. Copia piada? Não faz o meu show. Rouba material? Então não se apresenta aqui. E, aos open mics que já estão na estrada e aos que futuramente estarão nela: escrevam suas próprias piadas. Não caia na tentação de contar aquela piadoca do seu comediante favorito, só porque o show está ruim. Melhor ser ruim e honesto que bom e trapaceiro. Eu prometo, do fundilho do meu coração, que não há sensação igual a ver uma piada que você talhou, com suas próprias mãos e suor, tirando gargalhadas do público. O stand-up dá tanto para o comediante, acho bastante injusto não retribuir com o mínimo de sinceridade e respeito pela arte.

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2 comentários sobre “A Usurpadora

  1. Parabéns pelo blog, seus textos são excelentes e ajudam muito quem está começando. Sou de uma turma que fez curso com a Larissa Câmara e estamos buscando espaço, esses “macetes” ajudam muito a nos preparar para perrengues que estão por vir, abs sucesso

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