Cale-se!

O stand-up é uma arte retórica. Deve ser ouvida, mas não respondida. Pensando bem, a plateia deve sim responder ao comediante, mas com risos, não palavras.
Não é incomum alguns membros da plateia ignorarem essa máxima e simplesmente começarem a dialogar com o sujeito em cima do palco. É bom ressaltar que, por vezes, essa intromissão é culpa do próprio humorista. What? Isso mesmo.

Frequentemente ouve-se do primeiro comediante de um show a equivocada, rasa e (na maioria das vezes) desnecessária explicação sobre “o que é o stand-up”. Nela, o humorista vomita frases como “stand-up é uma conversa com a plateia”, “um bate-papo entre amigos” ou então “besteiras que a gente diz na mesa do bar”. Além dos adjetivos que coloquei acima, essas frases dão a permissão para que um espectador desavisado comece e a grasnar. Ué, você não disse que era uma conversa? Então, eles estão conversando contigo.

Sejamos justos, essa não é a única razão para despertar o tagarela desgraçado. E, que surpresa, nem todas elas são más. Não foram poucas as vezes que presenciei (estando no palco ou fora dele) pessoas gostarem tanto de uma piada que começaram a conversar entre si sobre ela. Ou, em casos extremos, alguém grita uma palavra de apoio à ideia do comediante.

Esses episódios são os mais tranquilos de lidar. Geralmente quando isso ocorre, a plateia está afim de assistir ao show e basta que o humorista espere todo mundo se acalmar para prosseguir com a próxima piada. Caso perceba que o burburinho está fugindo de seu controle, ele pode pedir pra galera se acalmar um pouquinho para que o show continue.

Mas, quando essa intromissão do público torna-se desagradável, que diabos eu faço? Bom, se a plateia toda estiver conversando, não há como chamar a atenção de um por um. Não deve-se ignorar a baderna, tampouco mandar todos à bela merda (a não ser que você tenha o apoio do local onde está se apresentando. Caso contrário, há grandes chances de esse ser seu último show na casa). Acredito que, se houver interesse de tentar salvar o show, o comediante deve tentar capturar a atenção da plateia de maneira suave. Falando mais alto ou se calando por completo até que todos percebam que há algo errado. Certa vez, fiz um show no qual todas as pessoas conversavam, exceto quando eu parava de falar. Eu começava, eles também. Eu parava, eles idem. Nesse dia, pensei estar louco. “Será que essas conversas estão só na minha cabeça?”. Nunca saberei.

“Se nada disso funcionar, posso sair do palco o mais rápido possível?”. Depende. Caso apenas a sua parte esteja lamentável, sim. Saia correndo. Mas, se o show inteiro está nesse clima triste, acho vacilo um comediante sair muito antes do tempo preestabelecido. Se todos os outros aguentaram seus 15 minutos em pleno mar revolto, porque você não pode fazer o mesmo? Mas isso não é uma regra, apenas uma opinião.

O mais comum, entretanto, é que o problema esteja concentrado em uma ou duas pessoas, geralmente bastante bêbadas. O famoso heckler, aquele cara que atrapalha o show de todo comediante. Quando o borrachão grita e direção ao palco ou fala alto em sua mesa, a regra número um é ignorar. O bêbado que interrompe quer, mais que tudo, atenção. Seja para “impressionar” a moça que ele trouxe para assistir ao show, seja para ser o engraçadão da mesa dos amigos. Então o melhor a fazer é fingir que ele não existe e, na medida do possível, seguir com o show. Na maioria dos casos, quando ignorado, o cara grita umas duas ou três vezes e desiste de atrapalhar.

Mas quando o sujeito não se acalma, é aí que a porca torce o rabo. Que expressão maravilhosa. Ele grita, xinga e interrompe. “E é nesse momento que eu posso dar um belo esporro no cara, né? Diz que sim, por favor”. Se acalma. Antes de fazer seu roast particular com o cidadão, perceba como está a reação geral da plateia em relação a ele. Talvez mais ninguém esteja escutando o cara falar, e uma bronca nessas condições pode fazer com que o público vire-se contra você.

O ideal é que se ignore o bêbado até o ponto em que todas as outras pessoas também estejam incomodadas com o cara. Quando a situação chega nesse estágio, o humorista tem uma “permissão geral” para calar a boca do falador. Importante! A sua intervenção deve ser o mais rápida e eficaz possível. Não despeje uma tonelada de insultos raivosos e, pelo amor de jesuis, não fique batendo boca com o sujeito. A última coisa que as pessoas querem ver em um show de humor é um comediante debatendo com um bêbado que não é capaz de formular qualquer tipo de pensamento ou argumentação coerente. Repito: seja breve e eficaz. Isso sendo feito com destreza, não só cala o embriagado como também traz a plateia para o lado do humorista e garante um resto de show com uma energia muito boa. Eles estão gratos por você ter restabelecido a harmonia do espetáculo, tal como um dos Vingadores. O Homem-Piada. Melhor não.

Na verdade, o ideal meeeesmo é que, quando o bêbado começa a atrapalhar, algum segurança ou mesmo o gerente do bar vá até o sujeito e o convide a se retirar. E não pensem vocês que isso é uma atitude hostil da casa. Isso deve ser feito para preservar o espetáculo para todas as outras pessoas.

Se você chegou até esse último parágrafo, é porque você curte stand-up (ou então só pulou para cá de gaiato. Sai daqui, vai ler tudo, SAI VAGABUNDO), então deixe sua crítica, elogio ou sugestão para um tema futuro aí na caixa de comentários. Pode também dar a sua opinião sobre o que foi escrito aqui, estamos abertos sempre ao debate. Fique à vontade também para me mandar um email no pedropontolemos@gmail.com ou então um inbox no facebook, é só procurar por “Pedro Lemos”.

Grande abraço.

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2 comentários sobre “Cale-se!

  1. Cara, na boa. Muito didático. Não me leve a sério, mas acho que você deveria dar exemplos, situações que enfrentou, casos com nomes, sobrenomes e etc…. Acho que a leitura além de mais interessante avançaria para muito mais além de uma dissertação quase que jornalística.
    Eu acho. Só acho. Quem sou eu para …enfim.

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    1. Olá Lucas! Agradeço a crítica, são sempre bem vindas. Sobre ser didático, o intuito é justamente esse, para que pessoas de fora do meio também compreendam os textos e interessem-se mais pela arte. A questão de citar nomes e sobrenomes, infelizmente a ética profissional me impede em alguns casos, mas tentarei colocar mais situações enfrentadas por mim para ilustrar melhor os casos. Abraços e obrigado pela audiência.

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