De improviso

Há alguns anos atrás, era corriqueiro ouvir pessoas falando coisas do tipo: “Nossa, adoro aquele stand-up do ‘Improvável’”. Ou então: “O stand-up dos ‘Barbixas’ é muito bom”.

Felizmente, me parece que esses tipos de comentários estão ficando cada vez mais raros, apesar de ser um erro comum de se cometer. O grupo de humor  “Barbixas” faz, entre outras coisas, um espetáculo que apresenta jogos de improviso chamado “Improvável”. Improviso, não stand-up. E essa confusão se dá por algumas razões: O “boom” desses dois estilos no Brasil ocorreu na mesma época e pela mesma plataforma (YouTube). Também colabora para isso o fato de que o stand-up, para olhos desatentos, realmente parece feito de improviso. Parece um bate-papo criado na hora pelo comediante. Outro fator é que algumas pessoas simplesmente são preguiçosas e não se interessam em pesquisar as coisas para saber a diferença entre uma e outra.

Stand-up comedy se baseia em material escrito previamente, testado inúmeras vezes, em diferentes tipos de plateia e lapidado ao longo do tempo. Mas, comédia stand-up contém improviso. Preste atenção. Ele não É improviso, mas CONTÉM improviso. Assim como bolo e fermento não são a mesma coisa, mas um bolo contém fermento. Improviso é um dos elementos que compõem (ou podem compor) uma apresentação de stand-up comedy, e é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Um comediante stand-up acaba improvisando em algumas circunstâncias.

Por interferência da plateia: Alguém do público responde o humorista, uma risada estranha que destoa das demais, o barulho de um copo quebrando ou do garçom derrubando a bandeja, algum idiota falando alto, enfim, qualquer coisa que possa desviar a atenção do público e que o humorista julgue interessante comentá-la.

Tag: Sabe quando um humorista conta uma piada, todo mundo ri e, durante as risadas, ele diz pequenas coisas que fazem o público rir um pouquinho mais? Essas coisinhas se chamam “tags”. Geralmente, essas frases foram construídas de improviso, e posteriormente incorporadas ao material. Isso é ótimo para aumentar algumas piadas que já temos.

Construir material: “Peraí, esse cara está maluco! Primeiro ele diz que o material é escrito antes, e agora diz que é feito de improviso? EU NÃO ENTENDO MAIS NADA”. Calma, cacete. Um comediante segue sim um roteiro, um material que ele escreveu antes e que já foi testado blá blá blá. Mas nada impede que esse comediante fuja do roteiro e crie material na hora. É o famoso “escrever no palco”.

Muitos humoristas utilizam essa técnica. Levam um tema ainda bruto para o palco e começam a falar, desenvolvendo-o a hora. Gostaria apenas de ressaltar que essa prática é bastante difícil de dominar, principalmente para quem não tem experiência. Não quero dizer quem pode ou não usar esse método, só estou alertando que ele não é tão fácil quanto parece. Mas se você sente-se seguro para isso, vá em frente.

Aqui no Brasil, um dos comediantes que eu sei que faz isso é o Nigel Goodman. Ele inclusive posta alguns vídeos com o material improvisado, como esses aqui:

Semana passada, conversando com ele, chegamos nesse assunto. Eu faria um show solo na semana seguinte, e estava planejando deixar alguns pedaços do show em aberto para improvisar. Depois de conversar com o Nigel e ele me encorajar a fazê-lo, decidi tentar.
Em um show de 75 minutos de duração, decidi deixar três espaços para improvisar sobre três temas diferentes. Separei o áudio de um deles para que vocês ouçam.

A única coisa que eu tinha na cabeça era a premissa “amor à primeira vista não existe”. Depois da apresentação, posso dizer que fiquei feliz com o resultado e que essa, especialmente, foi a parte do show que eu mais gostei. Não foram as maiores reações, mas com certeza foram as piadas que mais me diverti fazendo.

Quero muito fazer isso mais vezes. É exatamente o tipo de exercício que te mantém no ímpeto de fazer stand-up e tentar coisas novas. Mas, confesso que só me senti à vontade para improvisar dessa maneira porque era um show solo. Não pelo fato de estar sozinho, e sim por ter ainda bastante tempo para fazer um bom show caso os improvisos dessem errado. Esse material do áudio, por exemplo, foi feito com 50 minutos de show, e eu já tinha improvisado os dois outros temas programados. Então, caso não funcionasse, eu ainda teria as piadas de encerramento para fechar em alta. Esse dia, especificamente, eu fiz ainda 20 minutos depois disso. Não sei se, em um show onde eu tenha apenas 15 minutos para me apresentar, se faria um improviso de 5 minutos como esse. Mas é um próximo desafio que vou gostar de ter.

Próximos passos são verificar se consigo transformar essas piadas de improviso em material efetivo do meu show. Digo isso porque, comigo, as piadas improvisadas que absorvo no meu material nunca tem a mesma reação de quando foram contadas pela primeira vez. Mas nesse caso, só tentando para descobrir. E o outro passo é justamente fazer isso mais vezes, em diferentes shows, com diferentes temas.

Essa foi uma grande experiência. Fazer a plateia rir com piadas que você cria na hora tem um sabor diferente. E não é de chocolate com bacon.

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2 comentários sobre “De improviso

  1. Cara.. se vc não me contasse que era improviso, não daria pra perceber.. parecia que você tava muito seguro do que ia falar e do timing da piada.. o punch saiu abraçado no setup, e foi do caralho.. Parecia que ja estava tudo testado e lapidado .. Não estou falando para puxar seu saco.. haha. Mas sim, pq fiquei surpreso quando vc me disse que era improviso.. Na hora até achei que vc tinha improvisado um emotional tag, ou coisa assim.. Mas ouvindo o áudio, novamente, vejo que foi a piada inteira … As vezes a gente se fode um monte pra sentar, escrever, testar, melhorar, lapidar, retestar, reescrever… e a piada ainda não tem o resultado que gostaríamos.. E você conseguiu um puta resultado, escrevendo no palco.. Já tinha visto aqueles videos do Nigel.. No primeiro não flagrei o improviso.. No segundo, um pouco, afinal ele estava levemente caindo de bêbado…haha. Mas posso concluir que vocês dois, são alguns dos comediantes que estão caminhando num passo diferente do que se espera de um comediante stand-up brasileiro.. Até alguns anos atrás, fazer Stand-up era revolucionário.. E quem começou nessa onda, conseguiu uma carreira de sucesso… Agora eu vejo que isso é fora do padrão.. E o jeito como, pelo menos vocês, estão caminhando, promete algo grande pela frente..

    Abraço, A. Ricard’e Souza.

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  2. Hey cara, demais o texto. Aqui nas redondezas o pessoal dos jornais, ainda pública muito, essas besteiras de confundir um com outro, mesmo no release não tendo nada do tipo. Sempre acontece.

    Uma vez eu li, que a única ligação de um com o outro é que:

    O stand-up pra ser bom, precisa parecer que está sendo improvisado, tem que parecer tão natural que veio na hora.

    E o improviso, tem que parecer que foi pensando antes, que foi escrito.

    Enfim, to lendo os textos do blog agora. Parabéns cara.

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