Tempo

Estourar o tempo. Um dos mais graves, irritantes e mesquinhos erros que um comediante pode cometer. Estou exagerando? Não mesmo. E explicarei por quê.

É um erro muito grave porque é, também, um erro muito fácil de ser evitado. O tempo de seu material talvez seja o elemento que o comediante mais tenha controle quando está em cima de um palco. Ele sabe que tal bit leva quatro minutos, aquela história sobre o término de namoro tem cinco, a sequência de one-liners é de um minuto. A partir daí, é só colocar a matemática pra funcionar pra não vacilar com os colegas.

“Mas Pedro, eu estou começando agora no stand-up, eu não sei quanto tempo minhas piadas tem”. Sabe sim. Ou pelo menos tem uma ideia. Se você vai fazer um open mic, é bastante comum (recomendável, inclusive), que você ensaie seu texto em casa. Falando sozinho mesmo. Como um pirado. Que você é. Enquanto você está contando suas piadas para o espelho, use o relógio ou celular como cronômetro. Pronto, agora já se sabe o tempo de seu material.

Por que é um erro irritante? Pois, sinceramente, é um saco você ter que ficar dando sinal de luz pra um cara que já deveria ter saído do palco há 6 minutos.
E é mesquinho porque prejudica as apresentações dos comediantes seguintes. “Ah, mas a plateia estava tão boa”. Ótimo, então deixe os outros aproveitarem ela também. Vamos imaginar um cenário aqui: Certo show terá, rigorosamente, uma hora de duração, já que teremos um belo cover de Red Hot Chili Peppers logo após o show. Temos seis comediantes no elenco, portanto, 10 minutos para cada. Agora pense que o primeiro faz 12 minutos, assim como o segundo. O terceiro comediante sobre no palco e faz 11. O quarto humorista, finalmente, crava 10 minutos. O quinto a se apresentar também estoura 1 minutinho. O último comediante terá apenas quatro minutos disponíveis. Se fodeu bonito.

Ilustro meu argumento com essa historinha por quê? Para que se perceba que cada minuto que um comediante estoura, isso estoura no rabo de outro humorista. “Mas é só eu não ser o último que está tudo beleza”. O problema não está na ordem dos comediantes, e sim o respeito que se deve ter com os colegas. Se você sempre estoura o tempo, ficará mal visto no meio e ninguém mais vai querer dividir o palco contigo.

Você acha que alguém aqui vai estourar o tempo? Você acha que há margem pra isso?

Se para um humorista experiente isso já é chato, para um open mic pode ser a perdição. Em um ou dois minutos, um iniciante pode ir de “vamos chamar esse cara de novo” para “dá sinal pra ele sair, rápido!”.

Um open mic tem entre três e cinco minutos para se apresentar. Seja onde for, com quem for, o tempo padrão é esse. Se você tiver que fazer menos, os comediantes do show irão te avisar. Se tiver a oportunidade de fazer mais, também te avisarão. Se ninguém falar nada, de três a cinco minutos. Nada mais. Pode sair do palco com 2 minutos? Pode. Pode sair com 6 minutos? Não.

“EBA! Tenho até cinco minutos pra me apresentar, vou preparar um texto de cinco minutos”. Cuidado. Lembre-se que 5 minutos é o tempo limite, o máximo, onde você deve deixar o palco. Meu conselho é deixar uma margem de segurança. Se é pra fazer no máximo 5 minutos, programe-se para 4. Se é pra fazer até 8, vá com 6 ou 7 minutos. Essa diferença pode evitar que você seja o cuzão que estoura o tempo naquela noite, além de poder garantir até uma apresentação futura nesse show.

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De improviso

Há alguns anos atrás, era corriqueiro ouvir pessoas falando coisas do tipo: “Nossa, adoro aquele stand-up do ‘Improvável’”. Ou então: “O stand-up dos ‘Barbixas’ é muito bom”.

Felizmente, me parece que esses tipos de comentários estão ficando cada vez mais raros, apesar de ser um erro comum de se cometer. O grupo de humor  “Barbixas” faz, entre outras coisas, um espetáculo que apresenta jogos de improviso chamado “Improvável”. Improviso, não stand-up. E essa confusão se dá por algumas razões: O “boom” desses dois estilos no Brasil ocorreu na mesma época e pela mesma plataforma (YouTube). Também colabora para isso o fato de que o stand-up, para olhos desatentos, realmente parece feito de improviso. Parece um bate-papo criado na hora pelo comediante. Outro fator é que algumas pessoas simplesmente são preguiçosas e não se interessam em pesquisar as coisas para saber a diferença entre uma e outra.

Stand-up comedy se baseia em material escrito previamente, testado inúmeras vezes, em diferentes tipos de plateia e lapidado ao longo do tempo. Mas, comédia stand-up contém improviso. Preste atenção. Ele não É improviso, mas CONTÉM improviso. Assim como bolo e fermento não são a mesma coisa, mas um bolo contém fermento. Improviso é um dos elementos que compõem (ou podem compor) uma apresentação de stand-up comedy, e é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Um comediante stand-up acaba improvisando em algumas circunstâncias.

Por interferência da plateia: Alguém do público responde o humorista, uma risada estranha que destoa das demais, o barulho de um copo quebrando ou do garçom derrubando a bandeja, algum idiota falando alto, enfim, qualquer coisa que possa desviar a atenção do público e que o humorista julgue interessante comentá-la.

Tag: Sabe quando um humorista conta uma piada, todo mundo ri e, durante as risadas, ele diz pequenas coisas que fazem o público rir um pouquinho mais? Essas coisinhas se chamam “tags”. Geralmente, essas frases foram construídas de improviso, e posteriormente incorporadas ao material. Isso é ótimo para aumentar algumas piadas que já temos.

Construir material: “Peraí, esse cara está maluco! Primeiro ele diz que o material é escrito antes, e agora diz que é feito de improviso? EU NÃO ENTENDO MAIS NADA”. Calma, cacete. Um comediante segue sim um roteiro, um material que ele escreveu antes e que já foi testado blá blá blá. Mas nada impede que esse comediante fuja do roteiro e crie material na hora. É o famoso “escrever no palco”.

Muitos humoristas utilizam essa técnica. Levam um tema ainda bruto para o palco e começam a falar, desenvolvendo-o a hora. Gostaria apenas de ressaltar que essa prática é bastante difícil de dominar, principalmente para quem não tem experiência. Não quero dizer quem pode ou não usar esse método, só estou alertando que ele não é tão fácil quanto parece. Mas se você sente-se seguro para isso, vá em frente.

Aqui no Brasil, um dos comediantes que eu sei que faz isso é o Nigel Goodman. Ele inclusive posta alguns vídeos com o material improvisado, como esses aqui:

Semana passada, conversando com ele, chegamos nesse assunto. Eu faria um show solo na semana seguinte, e estava planejando deixar alguns pedaços do show em aberto para improvisar. Depois de conversar com o Nigel e ele me encorajar a fazê-lo, decidi tentar.
Em um show de 75 minutos de duração, decidi deixar três espaços para improvisar sobre três temas diferentes. Separei o áudio de um deles para que vocês ouçam.

A única coisa que eu tinha na cabeça era a premissa “amor à primeira vista não existe”. Depois da apresentação, posso dizer que fiquei feliz com o resultado e que essa, especialmente, foi a parte do show que eu mais gostei. Não foram as maiores reações, mas com certeza foram as piadas que mais me diverti fazendo.

Quero muito fazer isso mais vezes. É exatamente o tipo de exercício que te mantém no ímpeto de fazer stand-up e tentar coisas novas. Mas, confesso que só me senti à vontade para improvisar dessa maneira porque era um show solo. Não pelo fato de estar sozinho, e sim por ter ainda bastante tempo para fazer um bom show caso os improvisos dessem errado. Esse material do áudio, por exemplo, foi feito com 50 minutos de show, e eu já tinha improvisado os dois outros temas programados. Então, caso não funcionasse, eu ainda teria as piadas de encerramento para fechar em alta. Esse dia, especificamente, eu fiz ainda 20 minutos depois disso. Não sei se, em um show onde eu tenha apenas 15 minutos para me apresentar, se faria um improviso de 5 minutos como esse. Mas é um próximo desafio que vou gostar de ter.

Próximos passos são verificar se consigo transformar essas piadas de improviso em material efetivo do meu show. Digo isso porque, comigo, as piadas improvisadas que absorvo no meu material nunca tem a mesma reação de quando foram contadas pela primeira vez. Mas nesse caso, só tentando para descobrir. E o outro passo é justamente fazer isso mais vezes, em diferentes shows, com diferentes temas.

Essa foi uma grande experiência. Fazer a plateia rir com piadas que você cria na hora tem um sabor diferente. E não é de chocolate com bacon.