Evolução x amadurecimento

Pessoas são seres em constante mutação. Como comediantes são pessoas (nunca encontrei um que não fosse), então podemos afirmar também que eles são seres em constante mutação. Particularmente, acho isso incrível.

Acho incrível assistir a evolução de um comediante ao longo de sua carreira. Fico feliz, por exemplo, ao assistir um vídeo do Louis CK em 1987 e compará-lo com seu mais recente especial. Não “comparar” de uma maneira pejorativa, e sim para observar as mudanças ocorridas em um espaço de quase 30 anos. Hoje, Louie é uma pessoa completamente diferente daquela de 1987. Ele ainda é Louis CK, claro, mas durante esse período ele se casou, teve duas filhas, separou-se, rodou os Estados Unidos fazendo stand-up, gravou seis especiais, depois jogou fora o material de todos eles, criou uma série fracassada para a televisão, criou outra série, essa de sucesso retumbante, ficou milionário, isso fora as outras pequenas coisas que mudam na vida pessoal de cada um. Como sei de tudo isso? Não sou amigo, parente, conhecido, nunca o vi de relance no supermercado, aposto que nem sequer estivemos no mesmo continente (se você considerar que América do Norte e do Sul não são um único continente. E a Central, não se esqueça da América Central).

Sei de todas essas coisas porque seu material é um reflexo de sua própria vida. Quando era casado, Louie fazia piadas sobre ser casado. Quando se separou, escreveu piadas sobre isso. Repare que ele criou novas piadas, e não reutilizou as antigas, mudando um pouco o setup e adicionando um “ex” antes de “esposa”, mesmo que as piadas sobre ser casado fossem muito, mas muito boas, como essa aqui (a partir dos 4 minutos).

O mesmo processo ocorre quando ele escreve sobre suas filhas. Há piadas de quando elas eram bebês, depois durante toda sua infância e, em seu último especial, ele faz algumas piadas sobre a mais velha estar entrando na adolescência.

Estou frisando esses pontos para dizer o seguinte: é importante a evolução do comediante. Não, espera. Evolução não é a palavra certa. Acho que “amadurecimento”. Sim, essa sim. É importante o amadurecimento do comediante. E, para quem ficou confuso, explico a diferença entre esses dois termos.

Evolução é frequente e constante na vida de qualquer humorista. Quanto mais você se apresenta e escreve, mais rápida será sua evolução, apurando sua técnica de palco e de escrita.

Amadurecimento, ao meu ver, está mais ligado aos temas que você leva para o palco e seu ponto de vista sobre eles. E isso não melhora com o número de vezes que você subiu no palco, e sim com sua experiência de vida, e seu amadurecimento como ser humano.
Jerry Seinfeld disse uma vez que seu número de anos na comédia corresponde ao seu nível de maturidade. Quando se tem três anos de carreira, é como se estivesse com três anos de idade. Dez anos de carreira, dez de idade, vinte de carreira, vinte anos de idade, e assim por diante. Acho isso bastante apropriado.

Com um ou dois anos, a carreira de um comediante é como um bebê nessa idade: só merda e choro.
Creio que aos três ou quatro anos de comédia é que se começa a realmente aprender as coisas, como lidar com diferentes plateias, como escolher o material adequado para determinador dias e lugares, blá blá blá.
E daí por diante.

O ponto que eu quero chegar é que vejo muitos comediantes evoluindo, mas não amadurecendo. Se melhora a postura no palco, se refina a escrita, mas continua não se dizendo nada.

Não estou falando no sentido de “cada piada deve conter uma mensagem para mudar o mundo”, mas creio que o mínimo que um comediante pode fazer é não enganar aquelas pessoas que pagaram para vê-lo.

Exemplo: é compreensível um comediante em início de carreira fazer uma piada sobre ele dar a bunda, mesmo que isso não seja verdade. É compreensível por alguns fatores, como o desespero por risadas que atinge qualquer iniciante, a falta de perícia para escrever qualquer coisa que fuja do senso comum e também a ausência de experiência e confiança pra saber que ele não precisa de uma besteira dessas pra fazer alguém rir.

Esse tipo de coisa passa se for feito por um humorista com meses, talvez um ano de vivência na comédia. Mas não por alguém com 4, 5, 6 anos de carreira. Utilizando a comparação de Seinfeld, é até normal que alguém de 5 anos, em alguns momentos, se comporte como alguém de 3 anos. Mas alguém de 8 se portar como outra pessoa de 2, acho estranho.

Um comediante com vários anos de carreira que faz piadas somente para agradar o público, sem qualquer tipo de crivo, é como uma criança de 8 anos dizendo as mesmas coisas que uma criança de 2 anos. É bizarro, incômodo e também um pouco assustador.

Não traia suas convicções em troca de risadas, principalmente porque você pode escrever piadas que estejam de acordo com essas convicções. E isso não se aplica apenas a posições políticas ou opiniões sobre temas polêmicos, mas também sobre as coisas mais simples da vida.

Se você é solteiro, não diga no palco que você é casado apenas para fazer piadas sobre como sua esposa fictícia é chata e gasta todo o seu dinheiro. Não minta sobre a sua idade, emprego, cidade natal ou sexualidade apenas para ter risadas, não só porque isso é errado, mas também porque é uma burrice, tendo em vista que é muito mais gratificante quando você escreve uma piada verdadeira e a plateia ri disso.

Uma pequena historinha para ilustrar esse pensamento:

Não sei até que ponto isso é verdade, mas certa vez me contaram que determinado comediante foi fazer um show e, em diferentes pontos da apresentação, ele afirmou que era católico, depois evangélico e, por fim, judeu, apenas para fazer piadas sobre essas religiões.

Não seja esse cara.

Não
seja
esse
c
a
r
a

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