É só uma piada (?)

Um dos intuitos deste blog é fomentar a discussão sobre a comédia, para que ela cresça cada vez mais como arte e que o comediante seja cada vez mais visto como profissão, e não como aventura. Para isso, trago hoje um texto (muito bem) escrito por um humorista que admiro e que, aposto, ama a comédia tanto quanto eu.

Ele foi originalmente publicado em http://lektronik.com.br/sobre-fazer-piadas/
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Aproveitem!

 

Sobre fazer piadas ou “Uma piada é só uma piada?”

Por Gustavo Suzuki

Desde que comecei a trabalhar com comédia – há uns anos como roteirista/diretor e, há pouco tempo, fazendo stand-up – ouvi milhares de vezes a pergunta:

“Qual o limite do humor?”

Pelo que eu saiba, ninguém até hoje conseguiu responder satisfatoriamente a essa pergunta, gerando discussões bastante infrutíferas entre opiniões que claramente se opõem, mas que não propõem nada de muito concreto.

Por que será que isso acontece? Será que comediantes não sabem pensar sobre comédia? Será que eles não se interessam por essa pergunta? Será que estamos todos fadados a ouvir gente perguntando isso pro resto de nossas vidas?

O filósofo Slavoj Zizek disse certa vez que “o propósito da filosofia não é encontrar respostas, mas formular as perguntas certas”.

Embora eu não seja filósofo – e, portanto, não tenho muito como argumentar a favor ou contra essa frase -, eu curto bastante esse conceito e tento, na medida do possível, adotar isso no meu dia-a-dia. Afinal de contas, quanto tempo a gente não passa girando em falso, pelo simples fato de termos formulado perguntas que não fazem o menor sentido?

Como o cara que leva um pé na bunda da namorada e passa anos se perguntando “o que eu fiz de errado?”, fazendo com que ele tente de tudo para reatar com a moça – quando na verdade ele devia ter se perguntado “porque eu não consigo lidar com a ideia da perda e do amor não correspondido?”.

Ou a pessoa que come um morango com gosto de merda e se pergunta “que espécie de morango é esse que tem sabor de merda? Será que é importado?” – quando na verdade o que ele deveria estar pensando é “acabei de comer um morango contaminado com cocô, qual o hospital mais próximo daqui?”

Talvez, a pergunta “qual o limite do humor?” não nos levou a nenhum lugar interessante porque, no fundo, ela não é a pergunta certa a se fazer.

Talvez, ao invés de “qual o limite do humor?”, nós devêssemos nos perguntar:

“Uma piada é só uma piada?”

Essa pergunta me parece muito mais efetiva. Primeiro porque, se a resposta for um simples “sim” então, bem, não há limites para o humor. Se a piada é uma criação vazia de significados (ou seja, se ela é “só uma piada” e nada mais) então para que colocar limites nela?

O problema é que responder “sim” a essa pergunta não parece me fazer muito sentido. Pra começo de conversa, eu faço comédia. Eu gosto de fazer comédia. Eu poderia dizer inclusive que eu sou apaixonado por comédia. E, sendo assim, eu levo comédia a sério – por mais paradoxal que “levar comédia a sério” possa parecer a alguém que não faz isso da vida e acha que comédia é tão simples quanto ser o cara engraçadão nas mesas de bar. Todo mundo que eu admiro na comédia, de Moliére a Mark Twain, de Bill Murray a Bill Hicks, de Louis C.K. a Jerry Seinfeld, não parecem levar a comédia na brincadeira, tampouco dão sinais de acharem que uma “piada é só uma piada”. Aliás, muito pelo contrário.

Além disso, se você for parar pra pensar, é possível dizer “que x é só x?”, independente de qual o “x” da questão?

Pensa comigo:

Uma roupa é só uma roupa? Ou ela revela milhões de coisas sobre como você vê o mundo, como você quer se encaixar nele, o que você considera bonito e o que, por consequência, você considera feio?

Uma comida é só uma comida? Ou ela é também o fruto de tradições culturais milenares, que moldaram e foram moldadas pelo nosso gosto? Ela não é, como as roupas, ditadas por modas e tendências, questões geográficas e econômicas, que nos ajudam a explicar o próprio contexto em que determinada comida foi feita?

Vamos extrapolar o raciocínio: será que tudo, no fundo, não é assim? Da pessoa em que você votou, às tatuagens que você faz  e ao jeito que você se masturba? Mesmo uma tatuagem que você fez só “porque era bonito” não deixa implícito a sua própria definição de “bonito” e, portanto, acaba sendo muito reveladora por si só? Mesmo que você não vote e ache eleição uma merda, não é uma posição super política essa de ser “apolítico” (já que você claramente se posiciona contra a ideia de um representante eleito democraticamente)? Mesmo você que, como eu, se masturbou na grande maioria das vezes sozinho, não poderia dizer que bater uma punha massa não é, de certa forma, um diálogo com você mesmo? Gosto de teta; gosto de pinto; gosto de pessoas que tem tetas e pintos; gosto de pessoas com tetas e pintos mas só o bastante para me masturbar e não para de fato transar com uma, dado que sou casado, tenho filhos e acredito nos valores familiares cristãos. Cada punheta é uma punheta diferente. Quem aqui nunca chorou depois de gozar, passando o resto da noite em posição fetal?

(Eu que não. Juro.)

Tudo o que a gente faz tem um significado e possui uma via de mão dupla. De um lado, há todo lastro que levou àquela coisa ser feita e/ou consumida. De outro, o que aquela coisa propõe ao mundo assim que ela é criada e exposta.

Tudo é, por assim dizer, “político”. Não “político” no sentido de PT PSDB LULA COLLOR blá blá. Tampouco “político” no sentido de que tudo é deliberadamente uma forma de militância e/ou “mensagem”. Político no seu sentido mais amplo, no que concerne às relações humanas, e à organização de pontos de vista que se juntam por afinidade, ou se embatem pela contradição.

Mais uma vez: não é que uma piada de pontinho diz respeito sempre à questões como “a Kátia Abreu merece ou não ser ministra da agricultura?” (não merece, obviamente). Mas, no mínimo, a piada de pontinho faz uma alusão à tradição das piadas de pontinho, coloca a comédia num patamar do abstrato e do absurdo e isso, por si só, já é um lance meio político.

Jerry Seinfeld disse que stand-up se resume ao seguinte processo: você fala um absurdo e depois você prova esse absurdo. Eu não sei se isso vale para todo o stand-up do mundo, mas certamente vale para o do Seinfeld. Aliás, o que é a comédia dele senão um jeito de dizer: tudo o que está ao nosso redor e que chamamos de “senso comum” e/ou “cotidiano” é na verdade uma série de absurdos que a gente toma por certo só porque não paramos para pensar nisso? Voilá: isso é, por assim, dizer, político.

Portanto, uma piada não é só uma piada. Não tem como. Uma piada é algo que você soltou no mundo. E ela vai não apenas aludir ao que veio antes dela, como vai também reverberar no mundo, nos mais variados graus de intensidade.

O que isso diz, portanto, sobre os “limites do humor”?

Não sei se muita coisa, a não ser o fato de que, talvez, o limite do humor é o limite da elaboração e senso crítico de cada comediante. Talvez, no final das contas, o limite do humor se resume a “eu gosto dessa piada? Então vou fazê-la”. Ou: “Essa piada funcionou na noite de ontem mas diz coisas que eu acho meio merda? Então se pá não vou fazer mais”. Pronto. Mas veja bem – e aí que mora o twist dessa eterna discussão – só gostar de uma piada não quer dizer que ela não diz nada sobre você, sobre seu jeito de encarar o mundo e os outros. A construção formal da piada é um discurso – como a roupa que você veste ou o filtro que você usa no Instagram (vou mandar um Earlybird porque essa coisa meio sepia é tão vintage e bacana néam).

Lembro do Dave Chappelle dizendo no programa da Oprah (se não me engano) que ele encerrou o Chappelle Show depois que um funcionário do estúdio onde ele filmava começou a rir histericamente de uma filmagem, a ponto dele perceber que muita gente estava na verdade rindo DELE e não COM ele. Em outras palavras, o que Chappelle sentia que funcionava como uma crítica ao racismo e outras questões pertinentes a ele, na verdade estava funcionando como um jeito de afirmar estereótipos sobre a cultura afro-americana. É claro que uma piada, como tudo na vida, é passível de interpretações ambíguas e até mesmo errôneas de tal modo que, se eu fosse o Chappelle, talvez não me incomodasse com o brother que ficou rindo da cara dele. De qualquer forma, esse foi o seu “limite do humor”.

E já que entramos no assunto, vamos usar o tema do racismo de exemplo. Racismo pode não ser um tema pertinente à você. Pode ser que você prefira piadas de pontinho a piadas sobre racismo. E, cara, que ótimo que a vida é assim e não um lance em que todo mundo fala da mesma coisa quando sobe num palco. Mas, se por um acaso, você fizer uma piada onde racismo ou raça é um assunto, essa piada vai revelar um ponto de vista. O ponto de vista da piada. Que você disse. E que muitas pessoas vão concordar ou discordar. De qualquer forma, você é responsável pelas suas piadas. Lembre-se que piadas, ao contrário de masturbação, é geralmente feita para um público considerável (claro que você também pode se masturbar na frente de um monte de gente, mas isso é menos comum, até onde eu sei).

“Ah, mas eu estava sendo irônico!”. Bem, você construiu essa ironia? Ou você só foi irônico na sua cabeça? A plateia não tem como adivinhar esse tipo de coisa.

No geral, quem diz que o humor não tem limites, normalmente reclama quando alguém critica suas piadas. Tradicionalmente, respondem com “é só uma piada” ou “você não tem senso de humor”.  Ora, uma democracia não só permite que as pessoas façam piadas, como permite também que as outras pessoas falem mal dela, se assim quiserem. E isso é saudável, porque nenhum comediante faz piada só pra ele mesmo no espelho de casa enquanto escova os dentes. A piada é feita para um público. Ela sugere um diálogo. Se alguém não gostou da sua piada e você não gostou que alguém não gostou da sua piada, esteja preparado para responder com argumentos. Ou então não fale nada. Ou então, be my guest, fale que “é só uma piada”. Você estará esvaziando não só o diálogo, como aquilo que você faz da vida: a própria piada. A escolha é sua.

Você sempre pode também concordar com a pessoa que reclamou da sua piada e admitir que errou, como qualquer ser humano, se esse for o caso. Ás vezes é. Ás vezes não é. Ás vezes a sociedade como um todo não está interessada na sua piada. Paciência, inventa outra piada, porque essa ninguém aguenta mais ouvir. Normal.

De qualquer forma, o diálogo e a crítica não são apenas bons para a comédia, como também parte dela. Uma piada é sempre ofensiva. Mesmo uma piada de pontinho. Na melhor das hipóteses, ela está ofendendo pontinhos, o que é mais fácil de lidar porque nunca vi um pontinho reclamar na minha vida. De qualquer forma, uma piada quase sempre vai ter como consequência uma reação. Seja ela risadas, vaias, gritos de protestos, aplausos catárticos. Essa reação explícita, direta e corporal que a comédia promove é uma coisa muito própria dela. É meio lindo isso. É bem parecido com música. Se você não está preparado para esse tipo de reação, talvez seja você que não esteja preparado pra comédia, e não o sujeito que não gostou da sua piada.

Piadas são ofensivas. Eu gosto desse fato. Gosto também que a comédia promove, através do riso, a união. Comédia é um balanço interessante entre amor e ódio. Portanto, a comédia nunca é indiferente às coisas. A ofensa faz parte. Que bom. Aliás, existe ato mais político do que ofender?

Dito tudo isso, qual é o MEU limite do humor? Bem, eu gosto de piada de todos os tipos. Acho todos os assuntos válidos. TODOS. Mas torço o nariz para piadas que fomentam certos tipos de preconceitos – em especial, àqueles que corroboram a uma certa forma de opressão. Uma piada machista. Uma piada racista. Uma piada homofóbica – dado que racismo, machismo e homofobia são coisas que eu não curto nem um pouco (se você curte, cara, putz, que barra hein?). O que não quer dizer que eu não aprecie piadas sobre racismo, machismo ou homens, mulheres, negros, brancos, árabes, gays, transexuais. Sou assim enquanto comediante e enquanto plateia. Só não sou heckler – dado que você só pode avaliar uma piada se ouvir ela até o fim (então fica a dica aí pra você: nunca seja heckler).

Meu limite do humor pode ser bem ilustrado com um comediante que já se meteu em grandes “polêmicas”: o Rafinha Bastos. Não ligo para a piada dele sobre transar com o bebê da Wanessa Camargo. Achei fera quando ele falou mal do Luciano Huck (embora, naquele caso, ele não tivesse feito nenhuma piada). Mas acho bem merda a piada dele sobre mulheres feias sendo estupradas. Ei, cara, esse é meu limite do humor. E vou agir como tal.

Qual o seu?

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