Você provavelmente não é tão bom quanto pensa

Lembra o que seu pai ou mãe te falavam quando você era adolescente e não se importava com a escola? “Você precisa estudar! Quem não estuda, não tem futuro!”. Sinto informar, mas eles estavam certos.

Para ser um bom profissional, deve-se estudar e se aprofundar em sua área de atuação, seja você um médico, engenheiro, advogado, professor, comediante. Sim, comediante. Para ser um humorista bem sucedido, você também precisa estudar e trabalhar bastante, bebezão.

“Eu comecei a fazer stand-up porque eu não gostava de trabalhar”. Então pare de fazer stand-up, porque isso é trabalhar. Além de ser uma frase imbecil, que reforça a ideia de que comediante não é profissão, ela também dá a impressão para quem está começando na comédia que, para ser um grande humorista, não é necessário esforço.

Mais ou menos um ano depois que eu comecei a fazer stand-up, o comediante Léo Lins lançou um livro chamado “Notas de um comediante stand-up”, no qual ele dá dicas e direcionamentos para quem está iniciando na comédia, e até mesmo para o pessoal que já está no meio há algum tempo. Esse livro foi escrito a partir de anotações que ele fazia após cada show, analisando suas piadas, seu delivery, as reações da plateia, enfim. Lendo esse livro, no final de 2009, foi a primeira vez que percebi que existia um trabalho por trás de cada piada, uma lapidação do material, que cada texto tinha seu trabalho artesanal. Naquela época, a minha rasa noção de trabalhar o material era a seguinte: se escrevia um texto e fazia no palco. Se não funcionava, joga no lixo. Eu nunca me perguntava: “Por que essa piada não funciona? Será que dá certo se contar de outra maneira, usando outras palavras? O setup está claro o suficiente? Existem palavras desnecessárias no punch?”. Nada.

Mas, depois de ler aquilo, pensei: “Se um cara tão bom quanto o Léo se dedica dessa maneira para melhorar cada vez mais, porque eu, que não sou bom, não faço isso?”. Então, comecei também a estudar minhas apresentações, analisá-las, destrinchar piada por piada para saber o que funcionava e porque funcionava, e o que falhava e porque falhava. Fiz isso de dezembro de 2009 a fevereiro de 2011, não com todos os shows que fiz nesse período, pois minha disciplina pra esse tipo de coisa é terrível. Mas o ponto é: parei de fazer isso e os motivos foram muito simples. Primeiro, eu me achava o fodão e, como tal, não precisava mais estudar minhas piadas nem trabalhar minha postura, delivery, tal e tal. Segundo, tinha preguiça demais para trabalhar desse jeito e assumi o “faço stand-up porque não gosto de trabalhar” way of life.

Fiquei até o começo de 2012 nessa maciota, e não foi nada bom para mim. Até fiz bastantes shows, mas o meu material era apenas um amontoado de coisas que eu fazia apenas para ser engraçado. Nenhuma piada refletia uma opinião ou pensamento, tampouco pretendia passar alguma mensagem. Era uma total perda de tempo, tanto minha quanto da plateia.

Conto isso para que nenhum dos comediantes que está começando agora, ou já faz há 6 meses, 1 ou 3 anos caia na mesma armadilha. Você provavelmente não é tão bom quanto pensa e nunca será tão bom a ponto de se dar ao luxo de parar de aprimorar seu material, de buscar novas alternativas para sua comédia, novas influências, de cuidar das suas piadas.

Se você não quer escrever uma análise aprofundada de cada apresentação que faz, o mínimo que você pode fazer é gravar a sua parte no show. Se for em vídeo, ótimo. Assim você pode examinar, além das reações da plateia, também sua postura no palco e a parte física e visual das piadas. Também existe sempre a possibilidade do show ser ótimo e você ter um belo trecho para colocar no YouTube.

Mas, se você não tiver uma câmera ou algo para filmar, sem problemas. Gravar o áudio das suas apresentações já é um bom começo e tenho certeza que vai te ajudar bastante. Esse é o método, inclusive, que eu utilizo. Provavelmente qualquer celular lançado nos últimos 10 anos tem a função “gravador” nele. Coloque na cadeira que pode estar no palco, no bolso da camisa ou da calça, tanto faz. O importante é ter um registro daquele show para ver como você e suas piadas se comportaram.

Importante! Isso deve ser feito em TODO SHOW. Não importa lugar, cachê ou quantidade de público. Certa vez, dei essa dica a um comediante e, no dia do show, tinha pouca gente no bar. Ele me perguntou: “Não preciso gravar hoje né? Tem pouca gente”. Precisa sim, caralho ambulante. Essa gravação não é para ser mostrada a ninguém, é apenas para que você ouça com calma o que foi feito e, assim, descobrir uma maneira de solucionar seus problemas. E, para isso, não há a necessidade de um bar cheio ou um show foda.
Se você deseja se tornar um comediante, não esqueça: ser open mic é como ser um estagiário. Você está aprendendo. A vergonha não é não saber, e sim não querer aprender. E aproveito aqui para citar uma frase que, inclusive, está logo no início de “Notas de um comediante stand-up”, do Léo Lins:

“O inteligente aprende com os próprios erros. O sábio aprende com o erro dos outros”.

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