Entrevista Humorista #1 – Gabe Cielici

Então, meu povo. Esse é o primeiro post do “Entrevista Humorista”, um nome bastante autoexplicativo. Aqui, entrevisto humoristas (exatamente) para saber suas opiniões e impressões sobre a comédia.

Só para ressaltar: “Entrevista Humorista” é o nome de um projeto que bolei para o rádio, com a mesma ideia. Inclusive foi meu TCC na faculdade de jornalismo. Talvez ele vire áudio também futuramente.

Para o post de estreia, entrevistei um rapaz que está se destacando cada vez mais no cenário paulista do stand-up: Gabe Cielici. Vamos a um breve histórico dele.

Natural de Santos, Gabe Cielici faz stand-up comedy desde 2011. É o criador d’A Espetacular Hora da Comédia, show referência na comédia underground do Brasil, além de fazer parte do elenco do Comedians Club. Gabe ainda tem o show “Músicas Para Ex-Namoradas”, onde ele toca canções sobre seus relacionamentos frustrados.

 

Aproveitem a entrevista!

 

Gabe, talvez você seja o comediante com mais fluxo de pensamento que eu conheço. Tem ideia de quantas piadas você escreve por dia?
Não tenho uma média de piadas, mas eu sei o quanto consigo escrever por dia. Eu sei os meus limites. Tive uma fase de escrever 10 piadas por dia. Sei que se tiver inspirado, e afim de escrever mesmo, posso sentar e escrever 5 ou 10 one-liner (nota: one-liner é um estilo de piada curta e que funciona independente das piadas que vêm antes ou depois) por dia. Isso eu consigo fazer. Mas, hoje em dia, eu tenho escrito algumas piadas que não são tão one-liner. Eu faço uma one-liner e também algumas maiores.

Você acaba testando todas essas piadas que escreve?
Eu testo praticamente tudo, mesmo que não acabe levando a diante. Tem piada que eu só fiz uma vez na vida. Por exemplo, uma sobre odiar alguém, que inclusive está no YouTube (clique aqui para assistir).

Sobre seu estilo de escrita, você nota diferenças entre a época que você começou e agora?
Acho que não mudou nada. O que eu acho que aconteceu foi, quando comecei,  tinha uma ideia do que eu queria fazer, só que todo mundo começou a me “podar”. Isso porque eu comecei com uma galera um pouco mais “coxinha”, e eu tinha esses meus pensamentos loucos, que pra mim são naturais, mas isso era muito “podado” pelos outros. A primeira piada que eu escrevi foi falando que minha ex-namorada terminou comigo, então eu roubei as coisas dela que estavam na minha casa e vendi. E isso aconteceu mesmo, eu realmente fiz isso. E aí todo mundo ficou falando: “Não, você não deve falar sobre isso”.

Você sofreu mais preconceito do próprio meio do stand-up que da plateia? Como era a reação do público com as suas piadas?
A plateia gostava, mas eu acho que a opinião da plateia não importa. Porque você pode ir a lugares onde as pessoas vão rir de piadas chulas e bestas. Então, será que a opinião daquela plateia importa? E não necessariamente essas pessoas são ignorantes ou à margem da sociedade. Muitas vezes não executivos, e mesmo assim estão lá, rindo de piada de corinthiano, e é isso que eles querem ouvir. Pra mim, importa a opinião do círculo de pessoas que você se cerca, e que as vezes podem fazer parte da plateia, como muitas vezes acontece lá no porão (nota: o porão, aqui mencionado, é o Frey Café, local das apresentações regulares do grupo de Gabe, “A Espetacular Hora da Comédia”). Mas a plateia em geral, é só um mar de gente, todos com opiniões diferentes e ninguém sabe a opinião de ninguém. Nunca dá pra você confiar numa multidão que não se conhece e que você não conhece também. Seria muito burro pra qualquer pessoa fazer isso.

Você citou o porão. Quando você vai fazer um show no interior, ou em outra cidade menor, há a adaptação de material em relação ao que você faz no porão?
Geralmente, os shows que eu faço fora do circuito de São Paulo, são um estupro pessoal (risos). Porque o certo é eu mudar um pouco o material.  As vezes eu faço isso, as vezes não, e em 98% das vezes o resultado é a mesma merda.

Você imagina qual o motivo disso?
Existem lugares que as pessoas não estão prontas pra me ver pela primeira vez. Elas estão prontas pra me ver na televisão, na internet, e aí sim no palco. O pessoal dessa cidade pode ser meio distante da comédia, se bem que eu não acredito muito nisso. Porque, independente de não conhecer stand-up, rir é um impulso natural.

A risada independe do conhecimento da pessoa sobre a arte.
Sim. Mesmo em um lugar onde não se conhece stand-up, eu sou contra a apresentar o stand-up, no sentido de dizer: “o stand-up funciona assim. Se gostou, dá risada, se gostou muito, aplaude. Vou sair e entrar de novo”. Sou contra isso. Porque rir é um impulso natural, e o aplauso também, quando o corpo da pessoa se contrai e ela acaba batendo as mãos, como se fosse um momento de “eureca”, o que mostra que ela concordou com você. Mas, completando a resposta, eu não gosto muito dessa história de “fazer a plateia me comprar”.  A minha busca é por um estilo onde a identificação é espontânea. Eu não treino no espelho, eu não faço porra nenhuma, só tento ser cada vez mais natural. Eu estou indo contra tudo o que me ensinaram aqui.

E por quê?
Sempre me ensinaram que você tem que fazer a plateia te comprar, tem que adaptar texto pra alguns lugares, e eu não tô fazendo nada disso. Eu não estou correndo atrás de agradar. Eu faço o que é bom pra mim. Tem até uma música do Jay-Z que fala sobre isso, que diz: “Nobody built like you, you designed yourself”.

Eu gosto bastante dessa atitude de fazer o que você acha legal, independente do lugar. Eu, quando fazia um humor negro mais radical, sofri bastante retaliação do meio, com gente dizendo: “Não vai fazer piada pesada, não faz tal piada”.
Isso é ridículo.

Aconteceu alguma vez contigo?
Sim, acontece muito! Geralmente a pessoa que faz esse tipo de comentário é muito ignorante. Acho que pra você julgar alguém a ponto de falar: “não faz isso”, tem que entender muito do que você está falando.

Eu tenho uma visão de que o comediante brasileiro protege muito a sua plateia, na questão de não fazer uma piada porque alguém pode se ofender, mesmo achando ela engraçada. E, por conta disso, acaba privando a plateia de algumas coisas que ela poderia gostar.
O que aconteceu com ter novas descobertas? Deixa a plateia ter novas descobertas, sobre o que eles querem ou não rir.

Exatamente. O comediante, ao invés de deixar a plateia decidir o que é bom ou ruim pra ela, ele mesmo faz esse crivo e escolhe com o que a plateia se ofende ou não, pode ou não ouvir.
Cara, dá pra contar nas mãos do Rominho (Braga) (nota: Rominho Braga é um comediante paraense que só tem quatro dedos em uma das mãos :D) quantos comediantes têm a ousadia de tentar fazer alguma coisa diferente.

E por que você acha que isso acontece? Eu vejo muitos comediantes bons, com ótimas referências, mas que preferem ficar apenas nas piadas fáceis.
Acho que o treino não adianta nada se você não tiver talento. O treino ajuda o talento a se desenvolver, mas treino sem talento não adianta nada. Tem muito diamante bruto ainda no Brasil, gente que ainda não se descobriu. Acho que daqui a pouco vai aparecer um moleque muito melhor que eu, outro muito melhor que você. Tem gente com muita referência e querendo fazer, mas no final das contas, acho que o que salva no final é o talento. Eu já toquei em banda, e já vi nego ser muito virtuoso, e tocar dez mil vezes melhor que eu, mas ele mal conseguir desenvolver uma música que tivesse identidade. Uma coisa é você ser um veículo, outra coisa é você ser um piloto.

Explique essa analogia.
Tem gente que é veículo, pessoas que são apenas dirigidas, e apenas vão na fila, com todos os outros veículos. E tem gente que é o piloto, que comanda, que sabe pra onde ir. E eu vou te dar um exemplo muito bom para o desfecho dessa analogia. Quando eu comecei a fazer one-liner, tentando esse estilo aqui no Brasil… Eu digo aqui no Brasil porque eu conheci o stand-up nos anos que eu morei nos EUA. Então, quando comecei a fazer one-liner, tentando esse estilo, porque eu estava um pouco perdido ainda, um comediante me falou: ‘Você tem que fazer curvas na comédia. Não pode fazer uma piada e terminar aí. Tem que desenvolver o tema, fazer uma continuação. Você tem que ir cortando caminho”. E eu não quero cortar caminho. Na vida não tem atalho. Eu quero ir reto, meu estilo é assim, é assim que eu faço. Não vou fazer curva, não vou enrolar nas minhas piadas. É isso. O golfinho é um tubarão com down, acabou.

Você está fazendo algo que eu, particularmente, acho fantástico agora, que é contar piadas na rua. Como surgiu essa ideia?
Como eu moro sozinho, e pra não ficar o dia inteiro em casa, eu comecei a ir a cafés pra escrever. Mas eu gastava muito dinheiro lá. Teve dias que eu tomei cinco espressos antes do meio-dia. Então eu comecei a ir pra rua com minha mesinha, pra escrever piadas lá. Aí, as pessoas que passavam me perguntavam o que eu estava fazendo, eu dizia que estava escrevendo piadas, e elas sempre pediam pra eu contar uma piada. Nisso eu comecei a ir pra rua com a mesinha e com uns cartazes escrito: “Conto piada”.

E qual a reação do público quando você conta a piada em um contexto tão diferente. Porque no bar a pessoa está lá para ver o show, mas na rua, ela está passando, indo fazer outra coisa.
As pessoas riem, mas a maior reação é a de surpresa, porque elas não esperam ouvir uma piada ali, naquele momento. Eu vejo também que muitas tem um pouco de receio por achar que vão ter que pagar pra ouvir a piada. Mas agora eu ando com uma plaquinha escrito “de graça”, então acontece muito, até casal, de estarem andando na rua e a mulher fala: “Olha, ele conta piada, vamos lá”, e o cara fica: “Ah, não sei”. Mas quando ele vê que é de graça, aí ele aceita também.

 

 

Para encontrar o Gabe, você pode ir ao:
Twitter: @eusouogabe
YouTube: Canal do Gabe
Instagram: @EuSouoGabe
Stand-up Comedy: A Espetacular Hora da Comédia, toda terça-feira no Frey Café e Coisinhas, toda quarta na Garagem da Pompéia (ambos às 21h) e todo domingo no Jardim das Delícias (20h), todos em São Paulo/SP
Rua: Geralmente na Avenida Paulista, em frente ao Parque Trianon em horário comercial. Mas para saber se ele estará em algum outro lugar, siga e acesse as redes sociais do cara!

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2 comentários sobre “Entrevista Humorista #1 – Gabe Cielici

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