É só uma piada (?)

Um dos intuitos deste blog é fomentar a discussão sobre a comédia, para que ela cresça cada vez mais como arte e que o comediante seja cada vez mais visto como profissão, e não como aventura. Para isso, trago hoje um texto (muito bem) escrito por um humorista que admiro e que, aposto, ama a comédia tanto quanto eu.

Ele foi originalmente publicado em http://lektronik.com.br/sobre-fazer-piadas/
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Sobre fazer piadas ou “Uma piada é só uma piada?”

Por Gustavo Suzuki

Desde que comecei a trabalhar com comédia – há uns anos como roteirista/diretor e, há pouco tempo, fazendo stand-up – ouvi milhares de vezes a pergunta:

“Qual o limite do humor?”

Pelo que eu saiba, ninguém até hoje conseguiu responder satisfatoriamente a essa pergunta, gerando discussões bastante infrutíferas entre opiniões que claramente se opõem, mas que não propõem nada de muito concreto.

Por que será que isso acontece? Será que comediantes não sabem pensar sobre comédia? Será que eles não se interessam por essa pergunta? Será que estamos todos fadados a ouvir gente perguntando isso pro resto de nossas vidas?

O filósofo Slavoj Zizek disse certa vez que “o propósito da filosofia não é encontrar respostas, mas formular as perguntas certas”.

Embora eu não seja filósofo – e, portanto, não tenho muito como argumentar a favor ou contra essa frase -, eu curto bastante esse conceito e tento, na medida do possível, adotar isso no meu dia-a-dia. Afinal de contas, quanto tempo a gente não passa girando em falso, pelo simples fato de termos formulado perguntas que não fazem o menor sentido?

Como o cara que leva um pé na bunda da namorada e passa anos se perguntando “o que eu fiz de errado?”, fazendo com que ele tente de tudo para reatar com a moça – quando na verdade ele devia ter se perguntado “porque eu não consigo lidar com a ideia da perda e do amor não correspondido?”.

Ou a pessoa que come um morango com gosto de merda e se pergunta “que espécie de morango é esse que tem sabor de merda? Será que é importado?” – quando na verdade o que ele deveria estar pensando é “acabei de comer um morango contaminado com cocô, qual o hospital mais próximo daqui?”

Talvez, a pergunta “qual o limite do humor?” não nos levou a nenhum lugar interessante porque, no fundo, ela não é a pergunta certa a se fazer.

Talvez, ao invés de “qual o limite do humor?”, nós devêssemos nos perguntar:

“Uma piada é só uma piada?”

Essa pergunta me parece muito mais efetiva. Primeiro porque, se a resposta for um simples “sim” então, bem, não há limites para o humor. Se a piada é uma criação vazia de significados (ou seja, se ela é “só uma piada” e nada mais) então para que colocar limites nela?

O problema é que responder “sim” a essa pergunta não parece me fazer muito sentido. Pra começo de conversa, eu faço comédia. Eu gosto de fazer comédia. Eu poderia dizer inclusive que eu sou apaixonado por comédia. E, sendo assim, eu levo comédia a sério – por mais paradoxal que “levar comédia a sério” possa parecer a alguém que não faz isso da vida e acha que comédia é tão simples quanto ser o cara engraçadão nas mesas de bar. Todo mundo que eu admiro na comédia, de Moliére a Mark Twain, de Bill Murray a Bill Hicks, de Louis C.K. a Jerry Seinfeld, não parecem levar a comédia na brincadeira, tampouco dão sinais de acharem que uma “piada é só uma piada”. Aliás, muito pelo contrário.

Além disso, se você for parar pra pensar, é possível dizer “que x é só x?”, independente de qual o “x” da questão?

Pensa comigo:

Uma roupa é só uma roupa? Ou ela revela milhões de coisas sobre como você vê o mundo, como você quer se encaixar nele, o que você considera bonito e o que, por consequência, você considera feio?

Uma comida é só uma comida? Ou ela é também o fruto de tradições culturais milenares, que moldaram e foram moldadas pelo nosso gosto? Ela não é, como as roupas, ditadas por modas e tendências, questões geográficas e econômicas, que nos ajudam a explicar o próprio contexto em que determinada comida foi feita?

Vamos extrapolar o raciocínio: será que tudo, no fundo, não é assim? Da pessoa em que você votou, às tatuagens que você faz  e ao jeito que você se masturba? Mesmo uma tatuagem que você fez só “porque era bonito” não deixa implícito a sua própria definição de “bonito” e, portanto, acaba sendo muito reveladora por si só? Mesmo que você não vote e ache eleição uma merda, não é uma posição super política essa de ser “apolítico” (já que você claramente se posiciona contra a ideia de um representante eleito democraticamente)? Mesmo você que, como eu, se masturbou na grande maioria das vezes sozinho, não poderia dizer que bater uma punha massa não é, de certa forma, um diálogo com você mesmo? Gosto de teta; gosto de pinto; gosto de pessoas que tem tetas e pintos; gosto de pessoas com tetas e pintos mas só o bastante para me masturbar e não para de fato transar com uma, dado que sou casado, tenho filhos e acredito nos valores familiares cristãos. Cada punheta é uma punheta diferente. Quem aqui nunca chorou depois de gozar, passando o resto da noite em posição fetal?

(Eu que não. Juro.)

Tudo o que a gente faz tem um significado e possui uma via de mão dupla. De um lado, há todo lastro que levou àquela coisa ser feita e/ou consumida. De outro, o que aquela coisa propõe ao mundo assim que ela é criada e exposta.

Tudo é, por assim dizer, “político”. Não “político” no sentido de PT PSDB LULA COLLOR blá blá. Tampouco “político” no sentido de que tudo é deliberadamente uma forma de militância e/ou “mensagem”. Político no seu sentido mais amplo, no que concerne às relações humanas, e à organização de pontos de vista que se juntam por afinidade, ou se embatem pela contradição.

Mais uma vez: não é que uma piada de pontinho diz respeito sempre à questões como “a Kátia Abreu merece ou não ser ministra da agricultura?” (não merece, obviamente). Mas, no mínimo, a piada de pontinho faz uma alusão à tradição das piadas de pontinho, coloca a comédia num patamar do abstrato e do absurdo e isso, por si só, já é um lance meio político.

Jerry Seinfeld disse que stand-up se resume ao seguinte processo: você fala um absurdo e depois você prova esse absurdo. Eu não sei se isso vale para todo o stand-up do mundo, mas certamente vale para o do Seinfeld. Aliás, o que é a comédia dele senão um jeito de dizer: tudo o que está ao nosso redor e que chamamos de “senso comum” e/ou “cotidiano” é na verdade uma série de absurdos que a gente toma por certo só porque não paramos para pensar nisso? Voilá: isso é, por assim, dizer, político.

Portanto, uma piada não é só uma piada. Não tem como. Uma piada é algo que você soltou no mundo. E ela vai não apenas aludir ao que veio antes dela, como vai também reverberar no mundo, nos mais variados graus de intensidade.

O que isso diz, portanto, sobre os “limites do humor”?

Não sei se muita coisa, a não ser o fato de que, talvez, o limite do humor é o limite da elaboração e senso crítico de cada comediante. Talvez, no final das contas, o limite do humor se resume a “eu gosto dessa piada? Então vou fazê-la”. Ou: “Essa piada funcionou na noite de ontem mas diz coisas que eu acho meio merda? Então se pá não vou fazer mais”. Pronto. Mas veja bem – e aí que mora o twist dessa eterna discussão – só gostar de uma piada não quer dizer que ela não diz nada sobre você, sobre seu jeito de encarar o mundo e os outros. A construção formal da piada é um discurso – como a roupa que você veste ou o filtro que você usa no Instagram (vou mandar um Earlybird porque essa coisa meio sepia é tão vintage e bacana néam).

Lembro do Dave Chappelle dizendo no programa da Oprah (se não me engano) que ele encerrou o Chappelle Show depois que um funcionário do estúdio onde ele filmava começou a rir histericamente de uma filmagem, a ponto dele perceber que muita gente estava na verdade rindo DELE e não COM ele. Em outras palavras, o que Chappelle sentia que funcionava como uma crítica ao racismo e outras questões pertinentes a ele, na verdade estava funcionando como um jeito de afirmar estereótipos sobre a cultura afro-americana. É claro que uma piada, como tudo na vida, é passível de interpretações ambíguas e até mesmo errôneas de tal modo que, se eu fosse o Chappelle, talvez não me incomodasse com o brother que ficou rindo da cara dele. De qualquer forma, esse foi o seu “limite do humor”.

E já que entramos no assunto, vamos usar o tema do racismo de exemplo. Racismo pode não ser um tema pertinente à você. Pode ser que você prefira piadas de pontinho a piadas sobre racismo. E, cara, que ótimo que a vida é assim e não um lance em que todo mundo fala da mesma coisa quando sobe num palco. Mas, se por um acaso, você fizer uma piada onde racismo ou raça é um assunto, essa piada vai revelar um ponto de vista. O ponto de vista da piada. Que você disse. E que muitas pessoas vão concordar ou discordar. De qualquer forma, você é responsável pelas suas piadas. Lembre-se que piadas, ao contrário de masturbação, é geralmente feita para um público considerável (claro que você também pode se masturbar na frente de um monte de gente, mas isso é menos comum, até onde eu sei).

“Ah, mas eu estava sendo irônico!”. Bem, você construiu essa ironia? Ou você só foi irônico na sua cabeça? A plateia não tem como adivinhar esse tipo de coisa.

No geral, quem diz que o humor não tem limites, normalmente reclama quando alguém critica suas piadas. Tradicionalmente, respondem com “é só uma piada” ou “você não tem senso de humor”.  Ora, uma democracia não só permite que as pessoas façam piadas, como permite também que as outras pessoas falem mal dela, se assim quiserem. E isso é saudável, porque nenhum comediante faz piada só pra ele mesmo no espelho de casa enquanto escova os dentes. A piada é feita para um público. Ela sugere um diálogo. Se alguém não gostou da sua piada e você não gostou que alguém não gostou da sua piada, esteja preparado para responder com argumentos. Ou então não fale nada. Ou então, be my guest, fale que “é só uma piada”. Você estará esvaziando não só o diálogo, como aquilo que você faz da vida: a própria piada. A escolha é sua.

Você sempre pode também concordar com a pessoa que reclamou da sua piada e admitir que errou, como qualquer ser humano, se esse for o caso. Ás vezes é. Ás vezes não é. Ás vezes a sociedade como um todo não está interessada na sua piada. Paciência, inventa outra piada, porque essa ninguém aguenta mais ouvir. Normal.

De qualquer forma, o diálogo e a crítica não são apenas bons para a comédia, como também parte dela. Uma piada é sempre ofensiva. Mesmo uma piada de pontinho. Na melhor das hipóteses, ela está ofendendo pontinhos, o que é mais fácil de lidar porque nunca vi um pontinho reclamar na minha vida. De qualquer forma, uma piada quase sempre vai ter como consequência uma reação. Seja ela risadas, vaias, gritos de protestos, aplausos catárticos. Essa reação explícita, direta e corporal que a comédia promove é uma coisa muito própria dela. É meio lindo isso. É bem parecido com música. Se você não está preparado para esse tipo de reação, talvez seja você que não esteja preparado pra comédia, e não o sujeito que não gostou da sua piada.

Piadas são ofensivas. Eu gosto desse fato. Gosto também que a comédia promove, através do riso, a união. Comédia é um balanço interessante entre amor e ódio. Portanto, a comédia nunca é indiferente às coisas. A ofensa faz parte. Que bom. Aliás, existe ato mais político do que ofender?

Dito tudo isso, qual é o MEU limite do humor? Bem, eu gosto de piada de todos os tipos. Acho todos os assuntos válidos. TODOS. Mas torço o nariz para piadas que fomentam certos tipos de preconceitos – em especial, àqueles que corroboram a uma certa forma de opressão. Uma piada machista. Uma piada racista. Uma piada homofóbica – dado que racismo, machismo e homofobia são coisas que eu não curto nem um pouco (se você curte, cara, putz, que barra hein?). O que não quer dizer que eu não aprecie piadas sobre racismo, machismo ou homens, mulheres, negros, brancos, árabes, gays, transexuais. Sou assim enquanto comediante e enquanto plateia. Só não sou heckler – dado que você só pode avaliar uma piada se ouvir ela até o fim (então fica a dica aí pra você: nunca seja heckler).

Meu limite do humor pode ser bem ilustrado com um comediante que já se meteu em grandes “polêmicas”: o Rafinha Bastos. Não ligo para a piada dele sobre transar com o bebê da Wanessa Camargo. Achei fera quando ele falou mal do Luciano Huck (embora, naquele caso, ele não tivesse feito nenhuma piada). Mas acho bem merda a piada dele sobre mulheres feias sendo estupradas. Ei, cara, esse é meu limite do humor. E vou agir como tal.

Qual o seu?

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Entrevista Humorista #2 – Lelo Mattos

O Entrevista Humorista de hoje é com um dos comediantes que mais gosto em Curitiba: Lelo Mattos!

Lelo começou sua carreira no stand-up em 2009, no extinto “Café Comédia”, comandado por Fábio Silvestre no bar Era Só o Que Faltava. Atualmente é integrante do grupo Index Risus Stand-up Comedy e se prepara para estrear seu primeiro show solo, inteligentemente batizado de “LELO”.

 

Você é um dos comediantes que está optando pelo “storytelling”, onde o humorista conta uma história e a plateia ri ao longo dela, e não apenas no punch. Quais as principais diferenças entre escrever piadas em “setup + punch” e “storytelling”?
Acredito que duas principais: no estilo “setup+punch”, você tem muito bem definidos o “setup” e o “punch” e pode saber com muito mais facilidade onde está o problema de uma piada ou onde ela pode ser melhor trabalhada. No storytelling, o setup está ao longo da piada e o punch… também. Às vezes o que era pra ser um setup, na sua concepção de escrita, vira um punchline fortíssimo dependendo de como você está se sentindo naquele dia, o que nos leva ao segundo ponto: é impossível fazer uma bit de storytelling sem se comprometer fisicamente com ela. Você pode fazer uma sequência de steup+punch’s sem mexer um músculo ou com nuances quase artificiais na hora do punchline e mesmo assim ter um set incrível. Mas uma storytelling sem sentimento vira palestra. Esse é um ponto muito importante: você se torna um punchline também. Sua atitude, sua expressão, seu tom de voz, seu sentimento. Tudo isso conta pro delivery de uma bit desse tipo.

O que te fez optar pelo storytelling?
Quando comecei, tinha duas grandes preocupações e objetivos: primeiro, não queria fazer um humor “apelativo”, chegando ao ponto de sequer usar palavrões no palco por boa parte da minha carreira. E segundo, queria fazer algo diferente de tudo o que havia no momento. Essa aversão ao clichê é coisa antiga pra mim, embora naquela época não tivesse nada a ver com conhecimento de comédia. Hoje falo palavrão sem me preocupar e mudei um pouco minha concepção de clichê. Por exemplo, quando comecei e quis escrever um material sobre Curitiba, descartei tudo o que já falavam e procurei algo que ninguém nunca tinha abordado. Assim nasceu a bit sobre o pinhão. Recentemente escrevi mais um material, mas falando exatamente do clichê “curitibano não fala com estranhos”. O resultado foi interessante. Acabei esmiuçando o clichê, sem me preocupar que era um clichê. Tratei como um tema comum e saiu uma bit bem legal. Enfim, respondendo à pergunta, acho que o que foi decisivo para que eu fosse pro caminho do storytelling foi a exposição brutal à comédia estrangeira que eu me coloquei. Consumi e consumo até hoje horas e horas de material estrangeiro e os consumo como espectador o tempo inteiro: dou sonoras gargalhadas, sou surpreendido por callbacks e há algum tempo decidi que queria ser capaz de fazer isso também, entende? Agradar gente chata. Porque a gente fica chato pra cacete quando trabalha com humor.

O seu estilo de material é realmente mais parecido com o de comediantes estrangeiros do que o encontrado aqui no Brasil, com piadas não tão demarcadas. Como você observa a reação do público com esse estilo de escrita?
Nesse estilo é um pouco mais difícil ler a reação da plateia. Quando você demarca a piada, as pessoas vão rir se ela for boa e permanecerão em silêncio (ou conversarão para cacete, dependendo do nível de educação delas) se ela for ruim. Já no storytelling, você deve acompanhar as nuances do comportamento da plateia. Um silêncio completo, por exemplo, nem sempre significa que a piada está ruim, pode significar apenas que você conseguiu a atenção de que precisava e que o próximo punchline só não vai funcionar se for realmente sem graça. Para mim também facilita muito conseguir enxergar os rostos das pessoas, para saber se elas estão se deixando levar pelo que eu estou fazendo no palco.

E a plateia, como reage a essa maneira de contar piadas? Me dá a impressão que muita gente ainda precisa daquela “indicação” de que a piada terminou para, aí sim, rir.
Definitivamente. Muita gente não esboça nenhuma reação com “…e escondi minha carteira”, mas ri como um bebê de vídeo do YouTube com “…e escondi minha carteira, porque tinha um corinthiano do lado”. Mas tudo o que foi dito antes naquela bit já era suficiente pro ato de “esconder a carteira” ser engraçado. A menção do corinthiano é o Liminha pulando com uma placa de “risadas” no meio da plateia. A forma que eu encontrei de escapar disso no storytelling foi justamente me entregar mais emocionalmente às bits. Como se estivesse escrevendo uma sitcom. Na elaboração das tramas de uma sitcom, você joga tudo às últimas consequências: se um personagem está com fome, ele não come há três dias. Se perde o emprego, ele é assaltado e despejado do apartamento no mesmo dia. É sempre o mais intenso possível. É isso o que eu procuro nas minhas bits. Colocar uma maior intensidade emocional em cada informação e punchline.

Você é um humorista que costuma contar as piadas exatamente como elas foram escritas. Esse método, inclusive, era utilizado por George Carlin. Como manter a naturalidade de um material, mesmo sendo tão literal?
É bem simples, na verdade: eu escrevo falando. Literalmente. Eu falo a frase antes de escrevê-las, ou seja, só vai pro papel aquilo que sonoramente me parece engraçado. É uma cena ridícula de se ver, mas ajuda muito na hora de passar naturalidade, porque mesmo que eu esteja fazendo a piada pela primeira vez no palco, eu já contei aquela história várias vezes antes. Outro método que eu utilizo, mais especificamente para o material puramente de storytelling, é criar uma sequência lógica de eventos, em vez de escrever ipsis litteris.

É normal que um comediante altere a forma com que ele escreve o material ao longo de sua trajetória na comédia. Você, com cinco anos de carreira, como vê as piadas que escreve hoje, em comparação com as do início de sua carreira?
Mudei completamente, depois voltei, depois mudei de novo, depois viajei muito no que eu queria realmente fazer, depois voltei à primeira mudança e hoje nem sei mais o que estou fazendo. Na verdade acho que o meu material amadureceu junto comigo. Quando eu comecei a escrever comédia, tinha 19 anos e só sabia beber e empurrar a faculdade com a barriga. Hoje vou completar 25 anos no fim do ano, estou casado, tenho uma filha e espero outra. Não dava pra continuar com a mesma cabeça.

Você falou que o silêncio não necessariamente significa que a plateia não está gostando do show. O que caracteriza um bom show e um bom material?
Calma, eu falei que não significa que a plateia não está gostando DA PIADA! Silêncio durante o show todo deve ser preocupante independente do estilo. O que quis dizer é que o silêncio pode significar a atenção que você conquistou. Acho que um bom show é caracterizado pelo atendimento à expectativa da plateia e surpresa dos que não conheciam o comediante. Em termos técnicos, acredito que um bom show é aquele escrito com cuidado, estruturado para que as bits tenham uma harmonia entre si. Não acredito que a reação da plateia deva ser uma senóide: picos ritmados de risadas, sempre subindo e descendo. Acho que a reação deve ser como um medidor de batimentos cardíacos de um protagonista de filme de terror: sobe,desce, sobe mais, desce, sobe um pouquinho e de repente sobe pra cacete… enfim, você entendeu. Um bom material, a meu ver, é aquele que você escreve sozinho. Inteiramente sozinho. Sem se valer de pontos de vista anteriores, leia-se clichês, nem de coisas que você viu alguém fazer e achou engraçado. Prefiro muito mais o cara desgraçado que faz a vida merda dele virar comédia ao que pega algo que já é engraçado por natureza ou potencialmente engraçado e simplesmente reproduz a graça daquilo de outra maneira. Gosto muito de material crítico e dos punchs “não acredito que ele falou isso”, seja por ser “politicamente incorreto” ou por simplesmente jogar na cara da própria plateia as coisas hipócritas que eles e todos nós fazemos todos os dias.

Você começou a fazer stand-up e parou por um tempo, retornando quase um ano depois. Primeiro, por que você parou e como foi esse retorno? Você utilizava o mesmo material, teve que escrever coisas novas? Não achava que o material antigo era bom o suficiente?
Bom, eu parei porque sou um imbecil. Foi em 2010, fiz um show só nesse ano, e voltei apenas em julho de 2011. Parei por causa da faculdade, acredita? Porque tinha começado a reprovar e ainda morava com meus pais, aí meu pai mandou um “chega dessa porra, vai estudar”, porque eu tava deslumbrado, achando que tinha talento pra ser o melhor comediante do mundo em meses. Fiquei um ano e meio fora, acompanhei muito pouco do cenário, falei muito pouco com os comediantes que eu conhecia (quase nada) e fui sendo infeliz para caralho. Aí voltei pro lugar de onde nunca deveria ter saído: o palco. Mas voltei do zero, eu nem lembrava mais as bits que eu fazia. Eu havia escrito cinco minutos de material ao longo desse ano e meio de afastamento, só por saudades mesmo e fui testar. Rolou tudo muito bem e ali eu já tinha uma base pra recomeçar. Por um ano, fiz cinco minutos diferentes toda semana, pra firmar o pulso e começar a trabalhar de verdade a parte difícil: persona, delivery, timing, postura, crowdwork… Mas, de qualquer forma, não daria pra usar as piadas antigas porque , como eu falei antes, era outra cabeça, outras preocupações… Se bem que fiz uma ou duas piadas que eu consegui me lembrar daquela época , que foram “reeditadas” e ficaram legais até.

Além de comediante, você também é professor. Como é conciliar essas duas carreiras? Você consegue estabelecer relações entre as duas?
Procuro deixar as duas coisas bem separadas. Eu nunca falo aos meus alunos que sou comediante. Eles sempre descobrem eventualmente, é claro, mas não graças a mim. Em sala eu não sou engraçado o tempo inteiro, não acho que seja o momento, por isso sou comediante em todos os aspectos da minha vida, exceto em sala de aula. Até porque eu trabalho com adolescentes nessa geração em que os pais dão mais limites ao cachorro do que aos filhos, então segurar quarenta/cinquenta alunos por turma nessas condições não é fácil se você resolve ser a miss simpatia. Inclusive, já fiz algumas bits sobre ser professor, mas não ficaram muito boas acho que justamente por esse ser um assunto tão sério pra mim.

Eu te acompanho desde o começo de sua carreira e, consequentemente, seu amadurecimento. Você é um dos comediantes que mais aproveita as coisas que acontecem na sua vida para transformá-las em piadas. Utilizando a famosa frase de Judy Carter, você acha que a própria vida de cada pessoa é a maior inspiração para a criação de seu material?
Sim e não. Acho que nem todo mundo tem uma vida interessante o suficiente, vamos ser sinceros. Acho que mais do que a vida, a maior inspiração deve ser a forma como essa pessoa vê a vida. Um comediante deve estar atento o tempo todo. Um comediante vê um aviso de “proibido fumar” dentro de um ônibus e não pensa “ok, não vou fumar”, ele deve ver esse aviso e viajar por horas sobre aquilo. A forma como ele viaja é o que define o estilo, a persona e a escrita dele. Pessoas “normais” não ligam para detalhes. Comediantes, sim. E sobre a própria vida ser inspiração para o material, acho que sempre pode ser, mas só vai ser engraçado se você costuma se dar mal. Esse é o ser humano, aceite. Eu SEMPRE fui um cara muito azarado, talvez por isso eu tenha criado um “pessimismo cômico” para analisar até os aspectos mais maravilhosos da minha própria vida e levá-los pro palco. Hoje sou muito feliz pessoalmente, mas consigo me imaginar não sendo e escrever sobre isso. Você deve ter reparado, de tudo o que eu levo sobre a minha vida ao palco, eu me dou bem em 0% dos casos.

Você é sempre figura presente em noites de open mic, para testar piadas novas. E, por conta disso, tem muito contato com os humoristas que ainda estão em início de carreira. Você busca passar para eles experiências que obteve?
Já busquei mais. Sinceramente, acompanhei três ou quatro gerações de open-mics que seguiram tentando até hoje e tive uma certa “decepção” de uns anos pra cá. Sempre há opens que acham que já estão prontos, opens que querem cachê desde o segundo show, opens que se sentem superiores aos outros, opens que são fofoqueiros demais, chatos demais, medrosos demais. Na verdade não é preciso ser open pra isso. Comediantes, pedreiros, veterinários, todas as profissões apresentam exemplares desse tipo. Mas é preocupante quando eles são maioria. Posso dizer que atualmente há no máximo uns quatro opens com quem eu ainda converso seriamente sobre comédia.

Ainda sobre quem está começando: percebo que muitos comediantes que estão iniciando agora, já estão começando com alguns vícios no stand-up, que vão de temas abordados até o delivery, o que deixa todas as performances muito parecidas. O que você diria para o open mic que quer se destacar no circuito?
Seja você mesmo, idiota. “Você” pode acabar sendo mais engraçado que qualquer um dos caras que você admira, se você parar de tentar ser esses caras que você admira e deixar que “você” se destaque. Isso é em todos os sentidos: seu jeito, suas ideias, seus medos, suas mágoas. Deixe que tudo isso seja SEU. Não inventa de falar de relacionamento se você é um nerd virgem. Fala sobre ser nerd virgem! Eu prometo a você que vai ser mil vezes mais engraçado. E entregue a piada como você acha que ela deve ser entregue, não como “fulano de tal” entregaria. Se você continuar imitando delivery, vai começar a imitar escrita, se começar a imitar escrita, vai começar a imitar timing e aí… parabéns! “Você” morreu e uma cópia bizarra de “fulano de tal” que nunca vai se destacar acaba de ocupar seu espaço. Seja você mesmo. Idiota. (Tough love)

 

Você pode encontrar o Lelo indo ao:
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Agenda: flavors.me

*entrevista realizada por e-mail.

Você provavelmente não é tão bom quanto pensa

Lembra o que seu pai ou mãe te falavam quando você era adolescente e não se importava com a escola? “Você precisa estudar! Quem não estuda, não tem futuro!”. Sinto informar, mas eles estavam certos.

Para ser um bom profissional, deve-se estudar e se aprofundar em sua área de atuação, seja você um médico, engenheiro, advogado, professor, comediante. Sim, comediante. Para ser um humorista bem sucedido, você também precisa estudar e trabalhar bastante, bebezão.

“Eu comecei a fazer stand-up porque eu não gostava de trabalhar”. Então pare de fazer stand-up, porque isso é trabalhar. Além de ser uma frase imbecil, que reforça a ideia de que comediante não é profissão, ela também dá a impressão para quem está começando na comédia que, para ser um grande humorista, não é necessário esforço.

Mais ou menos um ano depois que eu comecei a fazer stand-up, o comediante Léo Lins lançou um livro chamado “Notas de um comediante stand-up”, no qual ele dá dicas e direcionamentos para quem está iniciando na comédia, e até mesmo para o pessoal que já está no meio há algum tempo. Esse livro foi escrito a partir de anotações que ele fazia após cada show, analisando suas piadas, seu delivery, as reações da plateia, enfim. Lendo esse livro, no final de 2009, foi a primeira vez que percebi que existia um trabalho por trás de cada piada, uma lapidação do material, que cada texto tinha seu trabalho artesanal. Naquela época, a minha rasa noção de trabalhar o material era a seguinte: se escrevia um texto e fazia no palco. Se não funcionava, joga no lixo. Eu nunca me perguntava: “Por que essa piada não funciona? Será que dá certo se contar de outra maneira, usando outras palavras? O setup está claro o suficiente? Existem palavras desnecessárias no punch?”. Nada.

Mas, depois de ler aquilo, pensei: “Se um cara tão bom quanto o Léo se dedica dessa maneira para melhorar cada vez mais, porque eu, que não sou bom, não faço isso?”. Então, comecei também a estudar minhas apresentações, analisá-las, destrinchar piada por piada para saber o que funcionava e porque funcionava, e o que falhava e porque falhava. Fiz isso de dezembro de 2009 a fevereiro de 2011, não com todos os shows que fiz nesse período, pois minha disciplina pra esse tipo de coisa é terrível. Mas o ponto é: parei de fazer isso e os motivos foram muito simples. Primeiro, eu me achava o fodão e, como tal, não precisava mais estudar minhas piadas nem trabalhar minha postura, delivery, tal e tal. Segundo, tinha preguiça demais para trabalhar desse jeito e assumi o “faço stand-up porque não gosto de trabalhar” way of life.

Fiquei até o começo de 2012 nessa maciota, e não foi nada bom para mim. Até fiz bastantes shows, mas o meu material era apenas um amontoado de coisas que eu fazia apenas para ser engraçado. Nenhuma piada refletia uma opinião ou pensamento, tampouco pretendia passar alguma mensagem. Era uma total perda de tempo, tanto minha quanto da plateia.

Conto isso para que nenhum dos comediantes que está começando agora, ou já faz há 6 meses, 1 ou 3 anos caia na mesma armadilha. Você provavelmente não é tão bom quanto pensa e nunca será tão bom a ponto de se dar ao luxo de parar de aprimorar seu material, de buscar novas alternativas para sua comédia, novas influências, de cuidar das suas piadas.

Se você não quer escrever uma análise aprofundada de cada apresentação que faz, o mínimo que você pode fazer é gravar a sua parte no show. Se for em vídeo, ótimo. Assim você pode examinar, além das reações da plateia, também sua postura no palco e a parte física e visual das piadas. Também existe sempre a possibilidade do show ser ótimo e você ter um belo trecho para colocar no YouTube.

Mas, se você não tiver uma câmera ou algo para filmar, sem problemas. Gravar o áudio das suas apresentações já é um bom começo e tenho certeza que vai te ajudar bastante. Esse é o método, inclusive, que eu utilizo. Provavelmente qualquer celular lançado nos últimos 10 anos tem a função “gravador” nele. Coloque na cadeira que pode estar no palco, no bolso da camisa ou da calça, tanto faz. O importante é ter um registro daquele show para ver como você e suas piadas se comportaram.

Importante! Isso deve ser feito em TODO SHOW. Não importa lugar, cachê ou quantidade de público. Certa vez, dei essa dica a um comediante e, no dia do show, tinha pouca gente no bar. Ele me perguntou: “Não preciso gravar hoje né? Tem pouca gente”. Precisa sim, caralho ambulante. Essa gravação não é para ser mostrada a ninguém, é apenas para que você ouça com calma o que foi feito e, assim, descobrir uma maneira de solucionar seus problemas. E, para isso, não há a necessidade de um bar cheio ou um show foda.
Se você deseja se tornar um comediante, não esqueça: ser open mic é como ser um estagiário. Você está aprendendo. A vergonha não é não saber, e sim não querer aprender. E aproveito aqui para citar uma frase que, inclusive, está logo no início de “Notas de um comediante stand-up”, do Léo Lins:

“O inteligente aprende com os próprios erros. O sábio aprende com o erro dos outros”.

Entrevista Humorista #1 – Gabe Cielici

Então, meu povo. Esse é o primeiro post do “Entrevista Humorista”, um nome bastante autoexplicativo. Aqui, entrevisto humoristas (exatamente) para saber suas opiniões e impressões sobre a comédia.

Só para ressaltar: “Entrevista Humorista” é o nome de um projeto que bolei para o rádio, com a mesma ideia. Inclusive foi meu TCC na faculdade de jornalismo. Talvez ele vire áudio também futuramente.

Para o post de estreia, entrevistei um rapaz que está se destacando cada vez mais no cenário paulista do stand-up: Gabe Cielici. Vamos a um breve histórico dele.

Natural de Santos, Gabe Cielici faz stand-up comedy desde 2011. É o criador d’A Espetacular Hora da Comédia, show referência na comédia underground do Brasil, além de fazer parte do elenco do Comedians Club. Gabe ainda tem o show “Músicas Para Ex-Namoradas”, onde ele toca canções sobre seus relacionamentos frustrados.

 

Aproveitem a entrevista!

 

Gabe, talvez você seja o comediante com mais fluxo de pensamento que eu conheço. Tem ideia de quantas piadas você escreve por dia?
Não tenho uma média de piadas, mas eu sei o quanto consigo escrever por dia. Eu sei os meus limites. Tive uma fase de escrever 10 piadas por dia. Sei que se tiver inspirado, e afim de escrever mesmo, posso sentar e escrever 5 ou 10 one-liner (nota: one-liner é um estilo de piada curta e que funciona independente das piadas que vêm antes ou depois) por dia. Isso eu consigo fazer. Mas, hoje em dia, eu tenho escrito algumas piadas que não são tão one-liner. Eu faço uma one-liner e também algumas maiores.

Você acaba testando todas essas piadas que escreve?
Eu testo praticamente tudo, mesmo que não acabe levando a diante. Tem piada que eu só fiz uma vez na vida. Por exemplo, uma sobre odiar alguém, que inclusive está no YouTube (clique aqui para assistir).

Sobre seu estilo de escrita, você nota diferenças entre a época que você começou e agora?
Acho que não mudou nada. O que eu acho que aconteceu foi, quando comecei,  tinha uma ideia do que eu queria fazer, só que todo mundo começou a me “podar”. Isso porque eu comecei com uma galera um pouco mais “coxinha”, e eu tinha esses meus pensamentos loucos, que pra mim são naturais, mas isso era muito “podado” pelos outros. A primeira piada que eu escrevi foi falando que minha ex-namorada terminou comigo, então eu roubei as coisas dela que estavam na minha casa e vendi. E isso aconteceu mesmo, eu realmente fiz isso. E aí todo mundo ficou falando: “Não, você não deve falar sobre isso”.

Você sofreu mais preconceito do próprio meio do stand-up que da plateia? Como era a reação do público com as suas piadas?
A plateia gostava, mas eu acho que a opinião da plateia não importa. Porque você pode ir a lugares onde as pessoas vão rir de piadas chulas e bestas. Então, será que a opinião daquela plateia importa? E não necessariamente essas pessoas são ignorantes ou à margem da sociedade. Muitas vezes não executivos, e mesmo assim estão lá, rindo de piada de corinthiano, e é isso que eles querem ouvir. Pra mim, importa a opinião do círculo de pessoas que você se cerca, e que as vezes podem fazer parte da plateia, como muitas vezes acontece lá no porão (nota: o porão, aqui mencionado, é o Frey Café, local das apresentações regulares do grupo de Gabe, “A Espetacular Hora da Comédia”). Mas a plateia em geral, é só um mar de gente, todos com opiniões diferentes e ninguém sabe a opinião de ninguém. Nunca dá pra você confiar numa multidão que não se conhece e que você não conhece também. Seria muito burro pra qualquer pessoa fazer isso.

Você citou o porão. Quando você vai fazer um show no interior, ou em outra cidade menor, há a adaptação de material em relação ao que você faz no porão?
Geralmente, os shows que eu faço fora do circuito de São Paulo, são um estupro pessoal (risos). Porque o certo é eu mudar um pouco o material.  As vezes eu faço isso, as vezes não, e em 98% das vezes o resultado é a mesma merda.

Você imagina qual o motivo disso?
Existem lugares que as pessoas não estão prontas pra me ver pela primeira vez. Elas estão prontas pra me ver na televisão, na internet, e aí sim no palco. O pessoal dessa cidade pode ser meio distante da comédia, se bem que eu não acredito muito nisso. Porque, independente de não conhecer stand-up, rir é um impulso natural.

A risada independe do conhecimento da pessoa sobre a arte.
Sim. Mesmo em um lugar onde não se conhece stand-up, eu sou contra a apresentar o stand-up, no sentido de dizer: “o stand-up funciona assim. Se gostou, dá risada, se gostou muito, aplaude. Vou sair e entrar de novo”. Sou contra isso. Porque rir é um impulso natural, e o aplauso também, quando o corpo da pessoa se contrai e ela acaba batendo as mãos, como se fosse um momento de “eureca”, o que mostra que ela concordou com você. Mas, completando a resposta, eu não gosto muito dessa história de “fazer a plateia me comprar”.  A minha busca é por um estilo onde a identificação é espontânea. Eu não treino no espelho, eu não faço porra nenhuma, só tento ser cada vez mais natural. Eu estou indo contra tudo o que me ensinaram aqui.

E por quê?
Sempre me ensinaram que você tem que fazer a plateia te comprar, tem que adaptar texto pra alguns lugares, e eu não tô fazendo nada disso. Eu não estou correndo atrás de agradar. Eu faço o que é bom pra mim. Tem até uma música do Jay-Z que fala sobre isso, que diz: “Nobody built like you, you designed yourself”.

Eu gosto bastante dessa atitude de fazer o que você acha legal, independente do lugar. Eu, quando fazia um humor negro mais radical, sofri bastante retaliação do meio, com gente dizendo: “Não vai fazer piada pesada, não faz tal piada”.
Isso é ridículo.

Aconteceu alguma vez contigo?
Sim, acontece muito! Geralmente a pessoa que faz esse tipo de comentário é muito ignorante. Acho que pra você julgar alguém a ponto de falar: “não faz isso”, tem que entender muito do que você está falando.

Eu tenho uma visão de que o comediante brasileiro protege muito a sua plateia, na questão de não fazer uma piada porque alguém pode se ofender, mesmo achando ela engraçada. E, por conta disso, acaba privando a plateia de algumas coisas que ela poderia gostar.
O que aconteceu com ter novas descobertas? Deixa a plateia ter novas descobertas, sobre o que eles querem ou não rir.

Exatamente. O comediante, ao invés de deixar a plateia decidir o que é bom ou ruim pra ela, ele mesmo faz esse crivo e escolhe com o que a plateia se ofende ou não, pode ou não ouvir.
Cara, dá pra contar nas mãos do Rominho (Braga) (nota: Rominho Braga é um comediante paraense que só tem quatro dedos em uma das mãos :D) quantos comediantes têm a ousadia de tentar fazer alguma coisa diferente.

E por que você acha que isso acontece? Eu vejo muitos comediantes bons, com ótimas referências, mas que preferem ficar apenas nas piadas fáceis.
Acho que o treino não adianta nada se você não tiver talento. O treino ajuda o talento a se desenvolver, mas treino sem talento não adianta nada. Tem muito diamante bruto ainda no Brasil, gente que ainda não se descobriu. Acho que daqui a pouco vai aparecer um moleque muito melhor que eu, outro muito melhor que você. Tem gente com muita referência e querendo fazer, mas no final das contas, acho que o que salva no final é o talento. Eu já toquei em banda, e já vi nego ser muito virtuoso, e tocar dez mil vezes melhor que eu, mas ele mal conseguir desenvolver uma música que tivesse identidade. Uma coisa é você ser um veículo, outra coisa é você ser um piloto.

Explique essa analogia.
Tem gente que é veículo, pessoas que são apenas dirigidas, e apenas vão na fila, com todos os outros veículos. E tem gente que é o piloto, que comanda, que sabe pra onde ir. E eu vou te dar um exemplo muito bom para o desfecho dessa analogia. Quando eu comecei a fazer one-liner, tentando esse estilo aqui no Brasil… Eu digo aqui no Brasil porque eu conheci o stand-up nos anos que eu morei nos EUA. Então, quando comecei a fazer one-liner, tentando esse estilo, porque eu estava um pouco perdido ainda, um comediante me falou: ‘Você tem que fazer curvas na comédia. Não pode fazer uma piada e terminar aí. Tem que desenvolver o tema, fazer uma continuação. Você tem que ir cortando caminho”. E eu não quero cortar caminho. Na vida não tem atalho. Eu quero ir reto, meu estilo é assim, é assim que eu faço. Não vou fazer curva, não vou enrolar nas minhas piadas. É isso. O golfinho é um tubarão com down, acabou.

Você está fazendo algo que eu, particularmente, acho fantástico agora, que é contar piadas na rua. Como surgiu essa ideia?
Como eu moro sozinho, e pra não ficar o dia inteiro em casa, eu comecei a ir a cafés pra escrever. Mas eu gastava muito dinheiro lá. Teve dias que eu tomei cinco espressos antes do meio-dia. Então eu comecei a ir pra rua com minha mesinha, pra escrever piadas lá. Aí, as pessoas que passavam me perguntavam o que eu estava fazendo, eu dizia que estava escrevendo piadas, e elas sempre pediam pra eu contar uma piada. Nisso eu comecei a ir pra rua com a mesinha e com uns cartazes escrito: “Conto piada”.

E qual a reação do público quando você conta a piada em um contexto tão diferente. Porque no bar a pessoa está lá para ver o show, mas na rua, ela está passando, indo fazer outra coisa.
As pessoas riem, mas a maior reação é a de surpresa, porque elas não esperam ouvir uma piada ali, naquele momento. Eu vejo também que muitas tem um pouco de receio por achar que vão ter que pagar pra ouvir a piada. Mas agora eu ando com uma plaquinha escrito “de graça”, então acontece muito, até casal, de estarem andando na rua e a mulher fala: “Olha, ele conta piada, vamos lá”, e o cara fica: “Ah, não sei”. Mas quando ele vê que é de graça, aí ele aceita também.

 

 

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Instagram: @EuSouoGabe
Stand-up Comedy: A Espetacular Hora da Comédia, toda terça-feira no Frey Café e Coisinhas, toda quarta na Garagem da Pompéia (ambos às 21h) e todo domingo no Jardim das Delícias (20h), todos em São Paulo/SP
Rua: Geralmente na Avenida Paulista, em frente ao Parque Trianon em horário comercial. Mas para saber se ele estará em algum outro lugar, siga e acesse as redes sociais do cara!