É complicado…

A vida de um comediante, no palco, é marcada por dezenas ou centenas de microdesesperos. Eles acontecem toda vez que o punch (a parte engraçada da piada) sai de sua boca. Por milésimos de segundos, uma apreensão toma conta do humorista: vão ou não rir?

Vindo a risada, o humorista relaxa por longos 20 ou 30 segundos, até que a nova piada termine e a expectativa de riso retorne.

Mas, e se ninguém rir? Aí o comediante não relaxa por longos 20 ou 30 segundos e a expectativa de riso vem ainda maior.

Essa difícil situação pode acontecer por vários motivos: uma palavra mal pronunciada, uma gagueira momentânea, algo tirou a atenção da plateia durante o timing (pausa dada pelo humorista entre a preparação e o desfecho da piada), ninguém estar prestando atenção ou, a hipótese que nenhum comediante gosta de cogitar: a piada é ruim.

Tudo bem, piadas ruins acontecem. Fazem parte da vida de qualquer humorista que escreve e testa seu próprio material. Mas a pergunta é: o que fazer, no palco, quando a piada não funciona?

Muitos performers, principalmente iniciantes, tem a tendência de se desestabilizar com a falta de risadas. Nesse momento, quando o pânico bate no peito do novato, não tem o que fazer. A maionese vai desandar. O que se aprende com o tempo e experiência de palco é que isso é normal e despirocar não adianta nada. É obrigação do comediante manter o sangue frio e focar na próxima piada, para contá-la da melhor maneira possível pois, se isso for feito com dúvidas ou medinhos, aí que não funciona mesmo.

Muitas vezes você já deve ter visto um humorista contar uma piada (geralmente mais longa), ela não tirar risadas do público (ou menos risos que o esperado) e ele soltar um belo suspiro, seguido da fatídica frase:
“É foda”.
Ou, em alguns casos, o mais politizado:
“É complicado”.
Quando o comediante faz isso, tenha a certeza de que essa é a maneira que ele tem para dizer:
“Olha, eu tentei tudo o que eu pude pra fazer vocês rirem disso, mas foi tudo em vão”.

Essa é a parte do show que geralmente mais dou risada. Não por gostar de ver meus colegas se dando mal, e sim porque sei exatamente o quão difícil é a situação que eles estão passando naquele momento. Ali, estou agonizando junto dele e, sempre que eu fico nervoso, dou risada. Não sei o motivo. Talvez deva fazer psicanálise.

Alguém pode estar se perguntando: “Mas Pedro, isso nunca vai deixar de acontecer? Sempre vou ter que lidar com a possibilidade de uma piada falhar”?

Sim.

Mesmo aquelas piadas que foram contadas 99 vezes com um grande sucesso, um dia elas podem não funcionar. Isso porque você nem sempre vai se apresentar no mesmo lugar, para o mesmo tipo de pessoas, que têm as mesmas referências necessárias para a compreensão do chiste. Uma piada que é um grande sucesso contada para um público predominante de casais, talvez não dê certo se feita em um moto clube com roqueiros barbudos e bêbados.

Exatamente por isso é importante que o comediante se acostume com o silêncio, não se deixe abater pela falta de risadas e sempre siga em frente. Quanto mais cedo se aceitar isso, mais o humorista vai curtir estar no palco e melhor desempenhará seu trabalho.

 

 

 

*Lógico que, se uma piada não funciona quase nunca, mesmo em diversos lugares e com diferentes públicos, pelamordedeus, ela é ruim, joga essa merda fora.

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