Para não servir milkshake de ovomaltine

Pense em seu cantor ou banda favoritos. Aposto que você sabe os grandes sucessos deles de trás pra frente. Agora imagine seu comediante favorito. Também presumo que você saiba algumas boas piadas dele de cor.

Não importa quantas vezes você ouve as músicas de seu cantor preferido, provavelmente gostará delas cada vez mais. Mas, se você ouvir a mesma piada duas vezes, não importa o quão boa ela é, a graça não é a mesma.

Faço essa comparação para mostrar que, os grandes sucessos de um comediante tem uma vida muito, mas muito curta. Claro, um humorista pode contar a mesma piada muito tempo (eu mesmo, tenho piadas que conto há 3 anos), porém é necessário que ele tenha ciência que, diferentemente as músicas de um cantor, suas piadas não apenas podem, mas devem deixar de fazer sucesso.

Por que uma piada para de funcionar? O humorista nunca sabe ao certo, mas existem algumas possibilidades: a piada, para ser bem sucedida, trabalha com a surpresa. Ela segue uma certa lógica e, quando essa lógica é quebrada, causa o riso. Quando se sabe o momento e a maneira na qual essa lógica se desvia, a surpresa acaba e a graça desaparece. Por isso, quando você ouve uma mesma piada duas vezes, ela não é mais engraçada.

Outros motivos para que as piadas parem de funcionar: o humorista não as conta da mesma maneira que antes e, por vezes, a falta de “ímpeto” é o bastante para deixar uma piada sem graça. A piada pode ser sobre algo factual, e quando o assunto passa, a piada perde a força. Existem outros aspectos que podem ocasionar isso, mas essa lista pode levar páginas e mais páginas.

Conto tudo isso para ressaltar a importância do humorista sempre renovar o seu material. Isso é fundamental, não só para se ter piadas novas sempre, mas também para a evolução do comediante. Não precisa chegar ao exemplo do mito Louis CK, que escreve UMA HORA de material novinho a cada ano. Mas creio que renovar ao menos metade de suas piadas por temporada é uma boa. Por exemplo: Se o humorista tem uma hora de material, quer dizer que ele faz um número considerável de shows por semana. Logo, tem mais chances de testar piadas novas.

Então, é bastante possível para tal comediante, em um ano, escrever mais meia hora de texto, ficando assim com uma hora e meia de piadas. Matemática na veia. Se o cômico tem 20 minutos de material, isso significa que ele não se apresenta com tanta regularidade ou começou na arte há pouco tempo. Por conta disso, acredito que acrescer 10 minutos novos a seu material é uma boa pedida, dentro de um ano.

Além de tudo isso, escrever e testar piadas novas é (para mim) o mais legal do stand-up. Saber que você ainda consegue escrever e contar coisas engraçadas mesmo depois de anos e anos de carreira é um sentimento muito bom, além de ser um alívio gigantesco, ao pensar: “Ufa, ainda tenho talento. Não preciso trabalhar no Bob’s”.

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Messi ou Brocador (não é sobre futebol)

O que é uma boa piada? É aquela que faz as pessoas rirem bastante, certo? Ahhhh…

A resposta é mais complexa do que parece. Se tratarmos a comédia a grosso modo, a função do humorista é fazer a plateia rir, não importa como ou sobre o quê. E só isso.

Acredito que a piada pode ir além do riso ou da gargalhada. Quando ela, além de divertir, te faz refletir ou ter uma visão nova sobre algum aspecto da vida, essa piada se torna muito melhor.

Com isso, não quero dizer que todo comediante tem a função de transformar pessoas por meio de suas piadas. O objetivo número 1 do stand-up comedy ainda é divertir, mas penso que não faz mal nenhum ter a diversão aliada a uma reflexão ou a uma mensagem.

Talvez tudo fique mais claro com uma metáfora: no futebol, a principal função do atacante é marcar gols. Mas isso não quer dizer que o melhor jogador é aquele que balança mais as redes. O Hernane Brocador pode fazer mais gols que o Messi, mas quem é melhor? Na comédia também é assim. Não necessariamente um comediante que faz a plateia rir escandalosamente é melhor que outro com um menor número de risadas. Quem faz o povo rir mais: George Carlin ou Dane Cook? Provavelmente a segunda opção. Mas qual dos dois é uma lenda do stand-up? Com certeza a primeira opção. E George Carlin significou (e ainda significa) tanto para a comédia não porque o público saía de seus shows sem fôlego e com a barriga doendo de tanto rir, e sim pela maneira com que ele expunha tabus, preconceitos e costumes da sociedade, derrubando todos eles e fazendo ótimas piadas com isso.

Tenho dois pedidos a fazer: um a você, que frequenta apresentações de stand-up e é um fã do gênero: preste mais atenção no que o humorista está falando, analise mais, seja mais crítico e veja se a piada foi contada com a simples intenção de fazer graça ou se há uma mensagem para ser absorvida por trás de tudo aquilo.

E outro a você comediante, principalmente quem está dando os primeiros passos nessa arte: seja o mais exigente possível com seu material, não leve para o palco uma piada pelo simples fato de achar que “eles vão rir”, se nem você mesmo achou aquilo engraçado. Não busque a risada a todo custo. Não importa o que te disseram, você não é uma “prostituta do humor”, não se venda por algumas risadas com piadas fáceis, estereótipos ou palavrões e besteiras gratuitas. A escolha é sua sobre quem você quer ser:
Messi ou Brocador.

É complicado…

A vida de um comediante, no palco, é marcada por dezenas ou centenas de microdesesperos. Eles acontecem toda vez que o punch (a parte engraçada da piada) sai de sua boca. Por milésimos de segundos, uma apreensão toma conta do humorista: vão ou não rir?

Vindo a risada, o humorista relaxa por longos 20 ou 30 segundos, até que a nova piada termine e a expectativa de riso retorne.

Mas, e se ninguém rir? Aí o comediante não relaxa por longos 20 ou 30 segundos e a expectativa de riso vem ainda maior.

Essa difícil situação pode acontecer por vários motivos: uma palavra mal pronunciada, uma gagueira momentânea, algo tirou a atenção da plateia durante o timing (pausa dada pelo humorista entre a preparação e o desfecho da piada), ninguém estar prestando atenção ou, a hipótese que nenhum comediante gosta de cogitar: a piada é ruim.

Tudo bem, piadas ruins acontecem. Fazem parte da vida de qualquer humorista que escreve e testa seu próprio material. Mas a pergunta é: o que fazer, no palco, quando a piada não funciona?

Muitos performers, principalmente iniciantes, tem a tendência de se desestabilizar com a falta de risadas. Nesse momento, quando o pânico bate no peito do novato, não tem o que fazer. A maionese vai desandar. O que se aprende com o tempo e experiência de palco é que isso é normal e despirocar não adianta nada. É obrigação do comediante manter o sangue frio e focar na próxima piada, para contá-la da melhor maneira possível pois, se isso for feito com dúvidas ou medinhos, aí que não funciona mesmo.

Muitas vezes você já deve ter visto um humorista contar uma piada (geralmente mais longa), ela não tirar risadas do público (ou menos risos que o esperado) e ele soltar um belo suspiro, seguido da fatídica frase:
“É foda”.
Ou, em alguns casos, o mais politizado:
“É complicado”.
Quando o comediante faz isso, tenha a certeza de que essa é a maneira que ele tem para dizer:
“Olha, eu tentei tudo o que eu pude pra fazer vocês rirem disso, mas foi tudo em vão”.

Essa é a parte do show que geralmente mais dou risada. Não por gostar de ver meus colegas se dando mal, e sim porque sei exatamente o quão difícil é a situação que eles estão passando naquele momento. Ali, estou agonizando junto dele e, sempre que eu fico nervoso, dou risada. Não sei o motivo. Talvez deva fazer psicanálise.

Alguém pode estar se perguntando: “Mas Pedro, isso nunca vai deixar de acontecer? Sempre vou ter que lidar com a possibilidade de uma piada falhar”?

Sim.

Mesmo aquelas piadas que foram contadas 99 vezes com um grande sucesso, um dia elas podem não funcionar. Isso porque você nem sempre vai se apresentar no mesmo lugar, para o mesmo tipo de pessoas, que têm as mesmas referências necessárias para a compreensão do chiste. Uma piada que é um grande sucesso contada para um público predominante de casais, talvez não dê certo se feita em um moto clube com roqueiros barbudos e bêbados.

Exatamente por isso é importante que o comediante se acostume com o silêncio, não se deixe abater pela falta de risadas e sempre siga em frente. Quanto mais cedo se aceitar isso, mais o humorista vai curtir estar no palco e melhor desempenhará seu trabalho.

 

 

 

*Lógico que, se uma piada não funciona quase nunca, mesmo em diversos lugares e com diferentes públicos, pelamordedeus, ela é ruim, joga essa merda fora.

Testando Piadas #3 – Peixes (Parte 3)

Terceira parte sobre o novo material que estou escrevendo, e dessa vez algumas mudanças importantes: os três primeiros shows (o que rendeu dois posts, não perca a conta) em que testei as piadas sobre peixes foram em teatros. Desta vez, a apresentação foi em um bar, o que vale algumas comparações: quando o show é no bar, não necessariamente aquelas pessoas foram lá para assistir a um show de comédia. Boa parte delas foi apenas para beber ou dar em cima de mulheres/homens. E quando seu objetivo é ficar bêbado ou conseguir sexo, você não quer ver um cara contando piadas. Por isso, no bar o comediante precisa conquistar (e manter) a atenção da plateia. No teatro, o público comprou o ingresso exatamente para assistir o show e, por conta disso, está mais disposto a rir.

Outro ponto que diferencia o show no bar e no teatro são as distrações, tanto para o público quanto para o comediante. O bar é um ambiente convidativo para conversas, até mesmo por conta da disposição das mesas e cadeiras. Já presenciei casos bastante comuns em shows de comédia: quando duas ou três piadas de um comediante não funcionam, a plateia do bar tende a dispersar, conversando com os amigos na mesa ou pedindo algo ao garçom. E, mesmo quando a piada é muito boa, já vi as pessoas comentando a piada entre si, o que também atrapalha. E isso também acaba sendo uma distração para o comediante. Outra distração, já mencionada: a bebida. Ah, a doce bebida, que alegra os dias tristes e as noites solitárias. Uma figura presente muitas vezes em apresentações é o bêbado da plateia. Ele é um personagem que tem apenas um intuito: aparecer. As vezes por vontade própria, para parecer muito maneiro para seus amiguinhos, e as vezes também por culpa do próprio humorista, que incentiva a participação da plateia mesmo sabendo que, quando um bêbado é convidado a participar do show, ele nunca mais para.

Recentemente fiz um show (em um bar) em que, antes mesmo do show começar, o dono do lugar alertou os comediantes:
“Tem um pessoal muito bêbado bem na frente do palco”.
Como era de se esperar, eles não calaram a boca um minuto. Gritavam com os comediantes e tudo mais. Quando eu entrei no palco, aconteceu isso aqui:

Mas enfim, isso pode acontecer. Cabe ao comediante lidar com todos os fatores “extra-palco”. Eu escolhi entrar xingando todo mundo, e acabou dando certo, pois o show funcionou sem interrupções depois disso.

Sobre os espetáculos em teatro, não existem essas distrações. Quer dizer, não existem motivos para distrações. Mas, como eu já disse aqui parafraseando Rodney Dangerfield: “Você nunca sabe para quem está se apresentando”. Sempre há a possibilidade de alguém atrapalhar o show, mas as chances disso acontecer são bastante reduzidas.

Quero ressaltar algo muito importante aqui: por mais que possa parecer, shows em teatros não são, necessariamente, melhores que em algum bar. Apenas as condições são melhores para que não haja contratempos. Mas, particularmente, sou do time de humoristas que prefere, em condições normais, fazer stand-up em bar.

Enfim, eu fiz novamente o material dos peixes. Não tinha muita gente no bar, então as reações foram menores. Escuta aí que, depois, vem a análise:

Na primeira piada, aconteceu algo interessante: eu contei errado. Esqueci de falar meia dúzia de palavras que fizeram com que ela deixasse de funcionar. O correto seria: “O peixe é o único animal de estimação que ninguém fica triste quando ele morre”. Eu falei: “Ninguém fica triste quando um peixe morre”. Percebem a diferença? Isso foi o bastante para que a piada não ficasse clara o suficiente e, por isso, não funcionasse.

Outro ponto: essa gagueira maldita na transição de uma piada pra outra tem um simples motivo: eu não tinha a ordem das piadas bem definida na minha cabeça. Quando isso acontece, o comediante precisa ir buscar a piada na memória, e isso demora microssegundos que, no palco, demoram bastante. Como se resolve isso? Estabelecendo uma ordem definida e repeti-la bastante. Quando isso está direito, o humorista já tem no gatilho a piada seguinte antes de terminar a piada presente. É meio bizarro, mas é isso que acontece.

Então, próximo passo: memorizar melhor a ordem das piadas e saber as palavras-chave de cada piada. Essas palavras são essenciais para que a piada funcione.

Digam aí nos comentários o que vocês estão achando de tudo isso.

Valeu, novato.