Deixa eu fazer?

Uma das grandes dificuldades que alguns comediantes têm para firmar um texto novo é a escassez de shows. Piadas não podem (nem devem) ser julgadas exclusivamente pela reação que tiveram logo na primeira vez que foram contadas. Já disse aqui no blog uma vez: pode ser sorte de principiante. Caso elas funcionem três ou quatro vezes consecutivas, com um volume uniforme de risadas, aí sim o humorista está com um bom material nas mãos.

Mas o tema que trago para esse post é o seguinte: um humorista, para evoluir, precisa estar no palco. Como você vai fazer suas piadas novas três ou quatro vezes se você não faz shows com frequência? Houston, we have a problem.

Esse é um dos pontos mais peculiares do stand-up. Um atleta pode melhorar suas habilidades treinando. Um jogador de futebol, mesmo que ele não jogue, pode melhorar nos treinos. Para um comediante, “treinos” não servem para muita coisa. O que te faz melhorar é estar diante de pessoas, de uma plateia. Contar suas piadas novas 100 vezes na frente do espelho pode fazer com que você não erre na hora de contá-las, mas isso não faz com que elas se tornem melhores.  Só as apresentações fazem um humorista melhorar. Um comediante que faz 8 shows por mês, tende a evoluir mais que outro que faz apenas 2 no mesmo período.

O que vou dizer agora é óbvio, mas vale a pena ser registrado para se pensar um pouco sobre: cada piada só pode ser contada uma única vez por show. Se você gaguejou na hora do punch, se alguém espirrou durante sua pausa, se a piada era ruim, só no próximo show você terá chance para arrumar isso. O problema é que o próximo show nem sempre é amanhã, ou daqui a uma hora. Às vezes é apenas daqui duas semanas ou um mês.

O que fazer nesse caso? Existem algumas opções:
a) sentar e chorar
b) deixar a angústia te engolir
c) virar caixa de supermercado
d) ir atrás e caçar alguns shows

Eu, particularmente, prefiro a última alternativa. Não tem nada de errado ou vergonhoso em pedir para se apresentar em algum show. E, mesmo que você seja um comediante em início de carreira, eu aposto que nenhum comediante vai te negar a oportunidade de fazer três minutinhos no show dele. O pior que pode acontecer é ele dizer que o show não é aberto para open mic e te indicar um que é.

Digo e repito, pra entrar na cabeça: um humorista só evolui no palco.

Por isso, ressalto a importância de cada show, de cada minuto em cima do palco. Não faz diferença se é num teatro lotado ou em um boteco pra quatro pessoas. Faça o melhor que você puder. Usando as palavras de Rodney Dangerfield (num outro contexto, verdade): “Você nunca sabe quem está te assistindo”. Então, se você não se sente motivado em fazer um show pra meia dúzia de pessoas (e, por vezes, pensa em cancelar a apresentação, um absurdo na minha opinião), pense que uma daquelas pessoas pode ser o diretor de uma empresa importante que, depois de te assistir, vai te contratar para um evento na firma por um cachê polpudo. Outro pode ser de uma televisão que vai estrear um programa de humor e está precisando de roteiristas e elenco, enfim.

Percebi que o post de hoje foi direcionado a quem está iniciando no stand-up, o que não era a ideia inicial. Mas tá valendo, espero que seja útil para alguém.

Malandragem de verdade é viver.

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Testando Piadas #2 – Peixes (Parte 2)

Alguns de vocês devem estar reclamando nesse exato momento: “Ei cara, já vimos você falar sobre os malditos peixes antes! Está querendo nos enrolar, seu patife?”. Não, não estou. O trabalho de criar piadas novas e fazer com que elas funcionem, não leva apenas uma noite de verão. Se você não acompanhou o primeiro show em que testei o material sobre os peixes, faça o favor de ler isso aqui antes de prosseguir.

Muito bem, agora estamos prontos. Os áudios que estão no post “Testando Piadas #1” foram as primeiras experiências com o uso do material. Depois disso, o trabalho segue, na tentativa de salvar o que não funcionou, ajustar o que deu um resultado mediano, manter as piadas que renderam boas risadas e escrever coisas novas.
Quando fui novamente para o palco, o resultado foi esse aqui:

Quando a piada volta ao palco pela segunda vez, aprimorada, você começa a ter uma noção verdadeira do que funciona ou não. Sou cético com piadas que funcionam muito bem logo na primeira vez. Sempre acho que pode ser sorte de principiante. Agora, se elas funcionam três ou quatro vezes seguidas, abraço-as emocionado e dou boas-vindas à família.

Sobre o material dos peixes, em especial: a comparação sobre a morte do cachorro e do peixe me parece ser o ponto alto do set (sequência de piadas sobre um mesmo tema). A piada que vem antes, sobre ninguém ficar triste quando o peixe morre, não tem uma reação tão forte da plateia, mas é uma boa introdução do tema e prepara o terreno para piada a seguinte. Para ser sincero, são os dois únicos momentos desse material que, por enquanto, me deixam satisfeito. Quase todas as outras partes são bastante inconstantes, o que não é nada bom.

E aqui vai um questionamento: vale a pena para um comediante insistir em contar uma piada que dá certo uma em cada três vezes? Ou mesmo que cause risadas em dois terços das tentativas? Eu acredito que não. Pode até parecer um bom aproveitamento, mas você contar uma piada 30 vezes e ela te deixar na mão em 10, ela está reprovada. O que fazer nesse caso? Se você acredita em determinada ideia, deve-se sim reescrevê-la mais uma vez. Achar o ponto certo de uma piada não é tão fácil quanto parece e pode demorar bastante tempo. Se o humorista não está disposto a isso ou, simplesmente, não acha que a piada vale tanto esforço, o melhor caminho é descartá-la.

O próximo passo é voltar à oficina. Analisar e ajustar as piadas ineficientes. Sinceramente, acredito que posso tirar dois ou três minutos bons de tudo isso. “Dois ou três minutos? Que bela porcaria” alguns podem estar imaginando. Mas o trabalho do comediante é assim. Como o garimpo. Você trabalha dias e semanas peneirando pedras e barro para, talvez, encontrar a pepita de ouro que dará o seu sustento pelos próximos meses. Chorei aqui.
Então, meu compromisso é escrever novamente as piadas que estão bambas e colocá-las pra funcionar. O compromisso de vocês é acessar o blog e me dar feedback e apoio moral comentando o que diabos vocês estão achando de tudo isso. Fechou? Fechou.

Valeu, papito.

 

*E sobre a piada do sushi: ela é realmente um fracasso, como acabei admitindo no próprio show. Três tentativas, nenhum êxito. Então, como no beisebol, três strikes e ela está fora. Credo.

Piadas sujas

Talvez o nome utilizado no título já tenha um cunho preconceituoso. Não era minha intenção, juro. Mas é o termo que, na minha cabeça, mais se adequa ao tema deste post.

Piadas podem ser sujas de diversas maneiras. Escatológicas, sexuais, recheadas de palavrões, escolha a sua preferida e divirta-se. Mas atenção! Uma piada “suja” não, necessariamente, é pior que uma “limpa”.

Sou um dos comediantes que defendem a seguinte ideia: “Não importa sobre o quê você fala, e sim a maneira como você fala”. Se palavrões e grosserias se encaixam na persona do humorista, parecendo autêntico para o público, provavelmente eles vão rir. Um exemplo disso era o comediante Márcio Ribeiro (faleceu em maio de 2013. Aqui uma homenagem a ele), que falava coisas bem baixas, mas ele era hilário pela maneira e naturalidade com que contava as piadas. O mesmo material, nas mãos de outro humorista, provavelmente soaria absurdo e, por vezes, bastante nojento.

O problema com esse tipo de piada começa quando o palavrão/escatologia/sexualidade explícita torna-se gratuitos. De graça até injeção na testa, certo? Errado. Nesse caso, um caminhão de besteiras sem qualquer sentido pode tornar o show bastante desagradável. É comum que isso aconteça, principalmente, com comediantes em início de carreira e que ainda estão inseguros sobre como arrancar risadas. O que exige menos preparo e informação? Fazer piada sobre tipos de cocô ou sobre política internacional? Opção 1. Logo, é comum que humoristas menos preparados (ou mais preguiçosos) sigam o caminho fácil.

“Mas se eu fizer uma piada sobre política internacional, ninguém vai entender nada! O público desse bar/teatro/cidade gosta de putaria”. Talvez eles gostem porque nunca lhes foi apresentado outro tipo de piada. Ou realmente eles gostem apenas de piadas de cunho sexual e sobre autodepreciação. Isso pode acontecer. Por isso, acho importante que o humorista tenha alternativas para lidar com todo tipo de público. E isso significa ter piadas dos mais variados temas.

Confesso que eu era bastante radical sobre esse assunto. Nunca gostei muito de fazer piadas “sujas” (perceberam que comecei a usar aspas? Esse termo não cai muito bem), mas simplesmente existem plateias que precisam ouvir um “puta que o pariu” ou então “depois disso eu meti nela” pra te dar atenção.

Tipos de plateia? Talvez seja um bom tema para outro post.

Mas antes, existe um documentário chamado “The Aristocrats” que encaixa bem no assunto colocado hoje. Eu achei incrível. Assistam e depois comentem aí embaixo, pode ser?

Testando Piadas #1 – Peixes (Parte 1)

Depois de se escrever uma piada, o que o comediante deve fazer?
a) testá-la no palco.
b) deixá-la jogada no fundo da gaveta.
c) comer um pastel para comemorar o feito.

A resposta correta é a alternativa A. E um pouco da C também. Mas principalmente a A.

Escrever uma piada (ou uma sequência delas) é só o início do trabalho de um humorista. No momento em que ele maquina e coloca o chiste no papel, ele não sabe  se aquilo é engraçado. O máximo que se tem é uma intuição, e isso é tudo o que se precisa pra levar essa piada para o palco. A confirmação sobre o sucesso ou fracasso do material novo só pode ser dada diante da plateia. Acho que foi o comediante Patrice O’Neal que disse: “A piada boa e a piada ruim vem do mesmo lugar”.

Semana passada, assisti em um jornal local matinal sensacional uma reportagem sobre aquários. Depois disso, se sucedeu uma entrevista ao vivo, no estúdio, com um especialista em aquários. Durante uns 10 minutos. Foi uma entrevista longa demais. Demais. E isso me fez escrever algumas piadas, não sobre aquários, mas sobre peixes. “Por que alguém teria um peixe como animal de estimação? O peixe é o único bicho que você tem que ninguém fica triste quando ele morre”. Essa foi a primeira coisa que pensei. Depois de sentar e escrever algumas piadas sobre o tema, o que eu fiz? Alternativa A. E um pouco da C também. Mas principalmente a A.

Fui fazer um show com meu grande parça Diego Castro (em breve entrevista com ele aqui também) no belíssimo Cine Teatro Opera, em Ponta Grossa. Lá ocorreu algo que é muito bom quando se está testando piadas novas: a oportunidade de fazer duas sessões em uma noite só. Mas isso é assunto para outro post.

Enfim, testei as piadas que havia escrito sobre os peixes. E gravei para vocês. Podem conferir o resultado da primeira sessão aqui:

Obs1: Eu não falei “pombo” à toa ali. Tinha feito algumas piadas sobre pombo antes e aquilo ficou na cabeça. Acontece.
Obs2: Depois da piada do sushi, nada daquilo estava escrito. Isso é comum também, quando o comediante desenvolve o texto no palco, improvisando. Quando funciona, isso vira material para ser utilizado posteriormente.
Obs3: O áudio é cortado de uma maneira ridícula porque eu ainda estou aprendendo a mexer no editor. Me desculpem.

E o da segunda sessão aqui:

Obs1: O corte desse audio está melhor. Já aprendi a mexer no editor.

As reações não foram grande coisa? Não. Mas foi o suficiente para ter uma ideia do que funciona ou do que deve ser alterado ou descartado. O que fazer agora? Arrumar as piadas que não tiveram o resultado esperado e escrever algumas outras piadas sobre o tema, além de manter o que funcionou. Para aí testar novamente. Quando isso acontecer, posto aqui.

 

 

Leia esse texto escrito pelo Alexandre Nix do Overcast e fique desgraçado da cabeça ao saber que peixes não existem.

Escrevendo piadas

Existem duas maneiras de um comediante escrever uma piada: pela inspiração ou pela transpiração.

No caso da inspiração, por muitas vezes a piada vem pronta na cabeça do humorista. Quando ele vê, ouve ou vivencia algo e, no mesmo milésimo de segundo, pensa na piada. Creio que essas são as melhores piadas, as mais espontâneas e mais doces para os comediantes. Mas nem tudo são docinhos caseiros da vovó. O grande problema das piadas que surgem da pura inspiração é, justamente, a inspiração. Isso não é algo com que se possa contar a todo momento e, quando a inspiração some, diga adeus a suas piadas novas por um bom tempo.

Outro método é a transpiração. Sentar em frente ao maldito Word ou diante de folhas de papel (caso você seja o Seinfeld) e escrever, escrever e escrever até sair alguma coisa. Desvantagens desse tipo de escrita: o comediante deve ter a consciência de que grande parte do que ele vai escrever é péssimo e sem condições de se usar em um palco. Alguém iniciante ou simplesmente impaciente pode desistir nas primeiras 10 páginas. Mas o segredo é continuar escrevendo. Acho que é como você vasculhar no lixo: por um bom tempo só tem cascas de banana e camisinhas usadas. De vez em quando se acha uma latinha de alumínio que dá pra vender por 5 centavos, mas se você continuar escrevendo (ou revirando o lixo), pode ser que encontre uma joia valiosa. Bela metáfora. Mas esse método também tem suas vantagens, como não? Quanto mais o comediante se educa em escrever todo o dia, mais fácil é de sair um bom material e ele conseguir seu tesouro. Além disso, ele não ficará desesperado quando tiver algum prazo estourando (como a entrega de um roteiro ou piadas sob encomenda).

E também há uma terceira maneira de se escrever piadas (contrariando o que eu disse na primeira linha desse post), que é apenas uma combinação das duas anteriores. Você tem um fragmentozinho de ideia, e escreve páginas e páginas sobre aquilo. Acho que é o método mais comum entre os comediantes.

No próximo post (que deve sair amanhã) tem áudio meu testando piadas e contando sobre esse processo.

Quero saber o que vocês estão achando do blog e também o que vocês gostariam de ver por aqui. Então comentem aí. Porém, sempre com educação, seus pivetes.

Olhe para os dois lados antes de atravessar.

Sobre o que você fala

Durante bastante tempo na minha carreira (tempo até demais) eu não me preocupava muito com os assuntos que eu tratava no palco. Minha bússola apontava sempre para o “só quero fazer esse povo rir”. Hoje não é mais assim.

Não é que antes eu estava errado e hoje estou certo. Tampouco vice-versa. Mas minha cabeça mudou, minhas opiniões também. Hoje o meu norte é fazer a plateia rir, mas de algo que eu queira dizer, e não de uma besteira qualquer. Não significa, necessariamente, que todas as piadas que escrevo agora tratam de assuntos filosóficos ou profundos. Longe disso. Mas acho que o mínimo que posso fazer é levar para o palco uma opinião sobre algo, ou um pensamento que tive e acho interessante dividir com os outros.

Talvez isso pareça confuso.

Chora me liga.

Início

Piadas são como pessoas. Elas nascem, crescem e, sim, morrem. Às vezes de morte morrida, às vezes de morte matada. Mas como elas surgem? Como elas chegam à cabeça do humorista? Como ela é lapidada até fazer multidões gargalharem? Piadas têm que ter algo a dizer, ou devem apenas fazer rir, sem preocupações sociais? O que leva um comediante a escrever sobre determinado assunto? Muitas perguntas para um blog só. Mas, com um grande esforço, vou tentar encontrar respostas para (quase) todas elas.

O intuito desse blog é mostrar como alguns humoristas (inclusive eu mesmo) criam as suas piadas, como as desenvolvem e outras coisas mais.

Então fica atento, porque logo mais tem postagem nova no blog.

Fica na escola.