Sobre as redes sociais e o politicamente correto

Que momento delicado para a comédia e para os que dela vivem. Para quem esteve em algum tipo de iglu isolado nas geleiras e não está sabendo, pularam casos polêmicos envolvendo youtubers e comediantes nos últimos dias e semanas. O ponto em comum: acusações de racismo e duras consequências para os envolvidos.

Não acho necessário relembrar nenhuma das histórias, pois o que quero tratar não está dentro delas, e sim fora. Se você não sabe mesmo o que aconteceu, dê um Google em “cocielo mbappe” e, depois, em “jacaré banguela will smith“. Leia e retorne para cá de imediato. Não entrarei no mérito de que se os comentários (ou piadas, como preferirem) foram ou não racistas. Imagino que essa fogueira não precise de mais lenha. Mas gostaria bastante de destacar o desenrolar dos acontecimentos.

Julio Cocielo, youtuber, e Rodrigo Fernandes, humorista, foram duramente criticados e insultados pelos seus comentários (ou piadas) no Twitter. “Racista!” foi o coro entoado com mais força. Não acho que algum dos dois o seja. Cocielo não conheço, mas Rodrigo, apesar de não sermos amigos próximos, já dividimos muitos camarins e conversas e te digo que ele não é racista. Não ser racista, claro, não deixa ninguém imune a fazer comentários racistas, mesmo de modo não-intencional. É para isso que serve aquela palavrinha chamada “educação”, no sentido de ensinar. Mas parece que isso está muito distante do populoso mundo das redes sociais.

Você tem filho? Filha? Eu não. Mas vamos à hipotética situação de que seu neném faça ou diga algo que você não gosta, reprova ou não queira que ele repita. Qual a atitude correta a ser tomada?
a) dar boas palmadas e cintadas e, por que não, socos e murros no fedelho.
b) gritar “RACISTA” na cara de seu bebê até que ele vire o William Waack.
c) conversar com ele sobre e como o que ele fez foi errado e a maneira certa de proceder.

Psicologia infantil, otário. É verdade o ditado “ninguém nasce sabendo”. Mas é verdade também que a gente morre sem saber um montão, cheio de erros e com muitas lacunas no campo da sabedoria. O que você faz pra diminuir essa escassez de saber entre o nascimento e a morte é o que te transforma em uma pessoa decente. É muito difícil aprender sozinho, e não estou falando de matemática ou química, mas de aprendizagem social. Um branco não sabe o quanto dói o racismo. O hetero não sabe como sofre uma vítima de homofobia. O homem não sente como é ser mulher numa sociedade misógina. Mas eles podem aprender. Nós podemos aprender. Queremos aprender, em nossa maioria. Então que nos ensinem, com mais alternativas “c” e menos “a” e “b”. Não porque merecemos, mas porque é um método de ensino mais eficaz.

Mas quem passa suas tardes de bunda quente e dedinhos oleosos na frente de um computador, não está interessado em ensino. Rapaziada quer sangue jorrando, quente, escuro, pintando a lâmina da espada de vermelho-culpa. O insulto e a agressão nunca levaram conhecimento a ninguém, jamais melhoraram uma sociedade ou uma pessoa. Falar que porrada corrige é coisa de Bolsonaro. Você é Bolsonaro? Que bom. Agora, a agressão nas redes sociais acaba se transformando em algo muito, mas muito maior do que o desserviço: o apedrejamento. (Esse termo eu roubei do Instagram da Natalia Klein, que comentou o tema pelos stories. Sigam ela). Transformar indivíduos em mártires, nesse tipo de caso, não parece correto. E os caminhos tomados para que isso aconteça são, também, inadequados. A Idade Média viveu a “caça às bruxas”. Hoje, vivemos a “caça aos twittes antigos”. No caso de Cocielo, especificamente, uma grossa coleção de comentários racistas foi trazida diretamente do passado para colaborar com os fatos do presente. Uma canalhice que, claro, não tira o peso racista dos antigos posts. Mas o racismo também se corrige, se aprende que é errado e se arrepende. Bastante delicada essa história de julgar uma pessoa por algo que ela disse no passado,. porque as pessoas mudam. Aquele cara que vomitava pílulas de racismo no Twitter pode não existir mais, pode ter se arrependido, ter vergonha do que falou. O problema das redes sociais, e é bom começarmos a aprender isso, é que essas baixarias ficam tatuadas no corpanzil da internet e à mostra para quem quiser ver como você era babaca em 2009. E não precisa nem fazer comentário racista pra perceber isso. Basta você lembrar como era o seu primeiro e-mail pra sentir muita, mas muita vergonha de ter sido aquela pessoa um dia.

Agora, para mim, o caso de Rodrigo Fernandes foi mais grave. Não apenas por se tratar de um comediante, mas porque as consequências foram mais avassaladoras. Claro, Cocielo perdeu patrocínios mas, convenhamos, seu patrimônio deve ser enorme, ele não depende de patrocínios para trabalhar como youtuber e ele não é humorista. Não precisa fazer piadas para sobreviver. Ele pode deitar em uma banheira de nutella e ganhar dinheiro. Rodrigo não. Por conta do incidente, ele foi afastado do programa onde trabalhava, na televisão aberta, e completamente excluído da programação do canal a cabo em que se apresentava. Os programas poderiam perder patrocínios, dinheiro e audiência caso agissem de modo contrário? Sim. Eu entendo o show business, o que não quer dizer que concorde com ele. No caso do SBT, ainda há mais justificativas. O programa que ele participava (Programa da Eliana) não era de humor, a faixa horária é prejudicial (domingo à tarde) enfim, comédia não tem nada a ver com o programa. Mas o Comedy Central, o canal pago, pesou a mão. Não querer o comediante mais daqui pra frente em novos programas? Pleno direito. Apagar tudo o que ele já fez por lá? Achei um pouco demais. Se tem algo que a história da humanidade insiste em nos ensinar é que apagar o passado não é a mehor forma de preparar o futuro. Empurrar a sujeira pra baixo do tapete ainda deixa a casa suja. Essa decisão soa não como um protesto anti-racismo, e sim como uma boa lavada de mãos a lá Pôncio Pilatos. Novamente, compreendo que programas de televisão dependem de anunciantes, mas o cheiro disso é muito mais de “quero me livrar do problema o mais rápido possível” do que “quero entender, combater e resolver o problema”. Pode parecer um pensamento ingênuo, uma utopia criativa que jamais existirá na televisão e, como eu disse, entendo a atitude das emissoras mas, como comediante, não concordo com elas.

Não é certo alguém sair com pecha de racista dessa história, que tenha sua carreira arruinada e vida transformada num inferno. As pessoas são livres para reclamar à vontade, mandar mensagens de reprovação nas redes sociais, dizer que não gostou da piada, dizer que ela é racista, mas não de tatuar na testa de alguém “eu sou racista e vacilão”. Às vezes, a piada é racista sim. Até muito mais vezes do que deveria ser. E esse é um problema da sociedade como um todo, não apenas da classe humorística. O mundo não mudou pra melhor porque o Rodrigo perdeu o emprego ou o Cocielo foi escrachado. Quando um racista de fode, eu acho lindo, mas não é o caso. São pessoas que cometeram erros e estão pagando por eles com juros altíssimos.

Entendam. Não sou um daqueles comediantes que acha que o mundo está ficando chato, que o politicamente correto blá blá blá bá. Eu brinco muito com humor negro nos meus textos, adoro esse tipo de comédia, e nunca tive qualquer tipo de problema com a plateia. Muitos gostam, muitos não, mas assim é em tudo na vida. Talvez eu não tive ainda nenhum problema, estou bem ciente disso. Sei que o mundo está mudando e, com ele, os parâmetros da sociadade sobre o que é aceitável ou não. E cabe aqui uma reflexão aos meus colegas e amigos comediantes. Será que adianta falar tanto do politicamente correto? Será que traz benefício reclamar que hoje em dia não pode falar mais nada? Será que não é melhor escrever mais, criar outras maneiras de dizer aquilo que você quer? Um cenário sempre me passa pela cabeça quando toco nesse assunto:

Imagina o que seria da cultura brasileira se, na época da Ditadura Militar, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, cada vez que censurados fossem, apenas reclamassem uns pros outros sobre como a censura é uma merda e que não se pode falar nada? Todo mundo sabe disso, mas o que nós vamos fazer para mudar essa cena? Que atitudes podemos tomar para que nossa expressão artística chegue em sua totalidade ao público? No caso acima, eles escreveram músicas melhores, mais elaboradas, burlaram a censura e se fizeram ouvir. Será que não falta um tiquinho disso pra nós também? Escrever piadas mais elaboradas, melhores, que enganem a “censura” e que nos façam ser ouvidos? Eu gostaria muito de ver algum comediante postar uma piada no Twitter, as pessoas reclamarem da piada, e esse comediante responder: “Gente, me dá 24h que eu volto com uma versão melhor dessa piada”. E no dia seguinte, ele está com uma nova piada, mais inteligente, mais profunda, tão boa que os burrões das redes sociais, como os burrões da censura militar, seriam incapazes de achar algum defeito nela.

Como eu deixo claro desde o início desse blog, aqui é e sempre será um espaço para livre debate sobre comédia. Fiquem à vontade para expor (com educação e sem baixaria, por favor) suas opiniões nos comentários. Podem mandar emails também no pedropontolemos@gmail.com, caso queiram escrever respostas a esse texto. Dependendo delas, as publico aqui também. O debate nos fortalece como comediantes, amantes do gênero e como sociedade.

Que George Carlin cuide de vocês.

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Cinco pontos de um comediante – #3 Ponto de vista

Seguimos à luta, camaradas. Hoje apresentando mais um dos cinco pontos de um comediante. Caso você esteja voltando de um coma e não tenha lido os dois posts anteriores sobre o assunto, clique aqui para ler sobre ritmo e aqui para o post sobre escrita. O assunto de hoje é um dos que eu venho conversando com mais afinco com meus colegas comediantes e creio ser um dos fatores que mais marcam um grande cômico stand-up: o ponto de vista.

Gosto de falar sobre esse tema por um simples motivo: acredito que não exista um grande comediante que não tenha ponto de vista em suas piadas. Pense nos mais variados nomes, das mais diferentes épocas, todos têm ponto de vista muito bem definido em cada piada. Quando Chris Rock fala sobre seu divórcio no especial “Tamborine” (assistam no Netflix), quem assiste sabe exatamente o seu posicionamento sobre o assunto, o lado que ele está abordando e o sentimento dele a respeito do tema. Todo mundo que assistiu sabe, de modo límpido, o que ele pensa a respeito daquele tópico. Não são apenas piadas sobre divórcio ou casamento. São posicionamentos dentro do tema.

Sabemos o que George Carlin pensa sobre aviões, o que Louis CK pensa sobre criar suas filhas, o que Jerry Seinfeld pensa sobre taxistas. Tudo isso ocorre porque todos eles têm um ponto de vista claro no assunto. Eles não buscam a piada que “a plateia vai rir”. Eles tentam fazer com que o que eles pensam se torne engraçado para a plateia. Esse é o verdadeiro desafio.

“Mas eles têm décadas de comédia, eu sou apenas um aprendiz com ranho escorrendo do nariz, eu tenho que fazer piada pela piada”. O cacete que tem. Desde cedo o comediante tem que desenvolver seu ponto de vista. Existem humoristas com excelente técnica de escrita, mas nunca serão grandes comediantes. Um dos motivos é a ausência justamente desse elemento. Piadas sem ponto de vista são ocas, vazias por dentro. A embalagem pode até ser bonita, mas o conteúdo não existe.

Qual o seu take particular do mundo? E isso engloba não apenas assuntos pessoais, mas também os maiores clichês da história da humanidade. Quer fazer piada sobre a Preta Gil? Ótimo. Mas escreva sobre o que você REALMENTE pensa sobre a Preta Gil. Acha ela feia? Bonita? Gorda? Magra? Pense com a sua cabeça, não com a dos outros. Seja original. Quer fazer piadas sobre relacionamentos? Quais seus verdadeiros sentimentos sobre seu namoro, casamento, esposa, marido? Você não aguenta mais? Você adora ser casado? Você queria um marido mais bonito? Seja verdadeiro. Exprima suas ideias. Novamente: pense com a sua cabeça. Não caia na tentação de escrever o que você acha que as pessoas querem ouvir. Escreva o que você quer dizer.

Quando você faz a piada pela piada, uma piada “oca”, você está pensando com a cabeça de todo mundo. Te desafio: abra o word, seu caderno, escreva na parede com seu próprio sangue. Tire uns minutos e escreva alguma piada sobre relacionamento. Ser casado, estar namorando, não importa. Escreva. Agora leia em voz alta essa porcaria aí. Você realmente concorda com o que essa piada diz? Ela exprime sua verdadeira visão sobre esse relacionamento? Ou você está apenas replicando elementos e clichês que você já ouviu outros humoristas falando? Reflita. Faça isso com todas as suas piadas. Reflita. Pense com a sua cabeça. Se você não acha que mulher dirige mal, que a Regina Casé é feia, que comida de avião é ruim, por que você fala isso no palco? Seja verdadeiro, não tenha medo de expressar suas ideias, seu olhar particular do mundo. Porque é justamente isso que marca um comediante: a maneira peculiar com que ele observa as coisas. Um humorista jamais será grande pensando com a cabeça dos outros. Todos os gigantes têm raciocínio próprio. Reflita.

Claro, o ponto de vista não se resume a opinião do humorista sobre um assunto. O ponto de vista do Anthony Jeselnik é que ele é um maldito que ri de qualquer desgraça. O do Steven Wright ou do Mitch Hedberg são a lógica e pensamento absurdos. Nenhum deles chega a expressar opinião, mas ninguém duvida que todos têm pontos de vista claríssimos. Quando você assiste qualquer um deles, você conhece o comediante, você o entende e compreende a maneira como ele pensa.

Fiquem de olho no blog, sigam ele no WordPress, curtam minha página no Facebook, pois é por lá que sempre divulgo quando tem post novo. Em breve nos encontramos para mais uma conversa gostosa. Te espero.

Cinco pontos de um comediante – #2 Escrita

Semana passada apresentei à você, querido leitor, um dos cinco pontos de um comediante: o ritmo. Caso tenha perdido, leia clicando aqui, aqui ou aqui. E aqui também. Apenas relembrando, essa história de “cinco pontos de um comediante” eu criei para meu workshop de comédia, o que não representa, em absoluto, uma verdade institucional do stand-up. São apenas impressões e experiências que obtive nos meus anos de carreira. Isso não quer dizer que estão aí todos ou únicos fatores que fazem um humorista. As imagens são meramente ilustrativas.

No episódio de hoje, trago o elemento que, ironicamente, foi o mais difícil, para mim, escrever: a escrita. A dificuldade se coloca no seguinte obstáculo: é algo muito muito particular de cada pessoa e cada comediante. Não apenas o estilo de escrita, mas também o processo criativo de cada pessoa é particular. Existem comediantes que sentam em frente ao computador e escrevem todos os dias, faça chuva, sol, furacão ou terremoto. Outros ficam à espera da graça divina lhes presentear com inspiração e piadas vindas do céu. Alguns escrevem no palco, outros simplesmente contam histórias que aconteceram. Mas não se engane: mesmo os que não escrevem, literalmente falando, estão escrevendo.

A arte de contar histórias pode parecer tentadora à olhos destreinados. “Eu subo lá, conto uma parada que me aconteceu semana passada, e todo mundo ri, não preciso escrever porra nenhuma, pau no cu desse cara que escreve o blog”. Pau no seu cu, meu amigo. Storytelling requer escrita, pontos de risada, distorções cômicas. Assista ao novo especial do John Mulaney no Netflix e observe como ele constrói suas histórias. Não são contos monótonos onde a plateia ri apenas no desfecho. A cada poucos segundos, ele consegue risadas com comentários adicionais. Isso foi escrito, pensado, trabalhado. Não pense que, por melhor comediante que ele seja, o Kid Gorgeous subiu no palco e simplesmente vomitou a historeta por acaso, sem pensar em ter risadas por minuto, em saber onde e como prender a atenção da plateia e, até mesmo, escolher certas palavras em detrimento a outras, apenas por serem mais engraçadas. Contar histórias requer um trabalho de escrita fodido, seja ele sentando na frente do computador ou talhando o material no palco, como um bom e velho artesão.

Outros comediantes preferem as chamadas “one-liners”, que se popularizaram no Brasil pelo termo “piadas curtas”. Elas são independentes, ou seja, não necessitam de piadas anteriores ou posteriores para fazer sentido. Mesmo assim, podem ser agrupadas em um set, orbitando sobre um mesmo tema. Nesse tipo de chiste, é necessária a concisão máxima. É um concentrado de piada. Tudo o que você quer dizer, com o menor número de palavras possíveis, no menor tempo possível. Delicioso. Uma one-liner, para ser bem realizada, precisa de um final completamente surpreendente. Você só tem um tiro, e ele tem que ser certeiro. Caso a plateia preveja o caminho que você vai tomar, meu amigo, você está perdido e seu tiro sairá pela culatra. Engane os malditos! Aqui um exemplo de uma one-liner minha:

“Li uma notícia sobre um professor de escola pública que foi preso por comprar ‘presentes eróticos’ pra uma aluna de 13 anos. Meu Deus. Como é que um professor tem dinheiro pra comprar presente pra alguém?”

Claro que essa piada tem mais de “uma linha”, mas se caracteriza como one-liner por ter raciocínio próprio, começo, meio e fim e não depender de piadas prévias ou posteriores. Posso contar apenas essa piada e seguir para outro assunto, assim como existe a possibilidade de estendê-lo, falando sobre escolas, professores, notícias malucas ou abuso infantil. As probabilidades são infinitas e suculentas.

Em ambos os casos, a procura é pela quantidade de risadas por minuto. Detesto ser chato e repetitivo nesse ponto, mas detesto ainda mais ir assistir a uma noite de open mic onde o coitado tem 5 minutos pra fazer suas piadas e cada uma delas leva um minuto para ser contada. É necessário encurtar os espaços, tirar o ar entre as linhas, deixar a piada compacta. Quanto menos tempo entre uma risada e outra, melhor. Seja contando histórias, piadas curtas, bits, tanto faz. São apenas métodos diferentes para se chegar a um denominador comum: risadas. Não é porque você está contando uma história que será tolerado ficar um minuto e meio sem risadas. Não é porque está fazendo one-liners que você poderá errar três de quatro piadas. Risadas por minuto, não se esqueça.

Sobre o processo de escrever uma piada, sempre tive grandes ressalvas em apresentá-lo pois, como disse anteriormente, esse é um caminho que cada comediante trilha por si só. Meu método pode servir para uns e não para outros. Você pode criar seu próprio processo, onde só consegue escrever piadas trancado no porão de sua casa, vestindo as calcinhas da sua mãe. Problema seu. Mas creio que mal não fará expor minha maneira de escrever e, por favor, não siga isso como uma verdade. É apenas mais um jeito de escrever, assim como existem milhares de outros. Algum deles servirá em você. Assim como as calcinhas de sua mãe.

Para eu compor um set de piadas sobre determinado tema, esse tema necessariamente precisa me tocar de alguma forma. Ou eu o adoro, ou detesto. Se algo me incomoda profundamente, tenho vontade de tocar no assunto. Tenho, confesso, dificuldades em me manter motivado para escrever sobre as notícias da semana. Escrevo? Escrevo. Mas sem um pingo de tesão. “Lula preso”? Não me interessa. “Rato tomando banho”? Engraçado, mas também não mexe comigo. Eu necessito de um fator motivacional que me leve a expressar um ponto de vista sobre o assunto.

Porém, uma vez tendo o assunto que quero falar sobre, sento-me na frente do computador e simplesmente despejo a emoção. “Eu odeio fila de mercado por isso, isso e isso”, “eu amo cachorros por isso, isso e aquilo”, sem buscar, em primeiro plano, a piada. Com a emoção correta, eu consigo mostrar meu ponto de vista e, aí, colocar em forma de piada é a parte mais fácil (ao menos para mim). É como encher forminhas de gelo. Tendo o líquido certo, posso colocar na forminha que quiser, desde as quadradas até as em formato de melancia. Delicioso.

O processo de escrita de piadas é sempre uma dúvida muito grande para quem está começando na comédia. E deveria ser mesmo. Esse é o ganha pão, a parte mais importante de um humorista. O material é a base de sua casa. Usar uma roupa maneira não vai te fazer mais engraçado se você não tiver a base. Palavrões não serão motivos de riso se não tiver a base. Texto é sua base. Nada cresce sem a base. Nunca se esqueça disso.

Quem é mestre em ensinar escrita é a Carol Zoccoli. Aqui estão alguns vídeos dela mostrando a mecânica das piadas, tipos de punchline e mais outras minúcias para quem se interessa. Vejam todos os vídeos dela, vejam vídeos dos outros, vejam comediantes ao vivo e notem como eles preparam as piadas, como distorcem o punchline, com que frequência conseguem risos. Estudem.

Semana que vem posto mais um texto sobre os cinco pontos de um comediante. Caso tenha alguma dúvida, comente abaixo ou nos outros posts. Sugestões sobre temas também são bem-vindas. Um grande abraço e uma dedada.

Cinco pontos de um comediante – #1 Ritmo

O inverno foi duro. Mais longo que o esperado. E frio, gélido, de partir os ossos. Afortunadamente, o outono fora proveitoso e pude armazenar alimento e gordura suficientes para hibernar. Agora regresso, sonolento e com as juntas estralando, com vontade de cheirar as flores e ser picado por abelhas, ambos frutos da primavera que está logo ali na esquina.

O blog está de volta, não se sabe se para a vida toda ou para uma edição extraordinária, mas o importante é estarmos juntos mais uma vez. A razão do regresso é a mesma da partida: aleatória. Ontem, duas pessoas me lembraram sobre o blog, perguntaram se ele estava morto e por que não foram convidadas para o velório. Respondi que seria de caixão fechado e não lhes devia mais explicações. Aprecie o momento e leia o que eu tenho para lhe contar.

Certa feita, elaborei um (bastante raso, admito) workshop de comédia stand-up, no qual desenvolvi a seguinte teoria: um comediante tem 5 pontos fundamentais em seu processo criativo e performance: escrita, ponto de vista, entrega, timing e ritmo. Hoje, abordaremos o ritmo.

Ao contrário do que possa parecer, o ritmo de uma apresentação de stand-up comedy nada tem a ver com falar rápido ou alto, e sim com fluidez e, principalmente, risadas por minuto. Um comediante que fala monótona e pausadamente, que tem um punch a cada 10 ou 15 segundos (como a lenda Steven Wright) tem um ritmo de apresentação muito maior que um cara que sobe no palco pra vencer o campeonato brasileiro de repentistas, sem uma regularidade de piadas que efetivamente funcionam.

Faça um teste. Assista a um vídeo de seu comediante favorito. Não importa quem seja ou qual seu estilo. One-liner, storytelling, pessoal, observacional, todos eles têm uma coisa em comum: o consistente número de risadas por minuto. Cronometre o tempo que ele leva entre uma piada e outra, entre uma risada e outra. Não sei qual comediante você escolheu, mas ouso dizer que esse número nunca será maior que 20 segundos. Por vezes será, inclusive, muito menor. Mas você deve estar encucado: “Existe alguma maneira de melhorar o ritmo da minha apresentação”? Não.

Mentira, existe sim:

Enxugar setups
Aquela velha e cansada técnica que todo mundo sabe, mas poucos põem em prática. Escreva seu texto, veja quantas palavras/frases/linhas existem para chegar ao punchline. Diminua essa distância. Corte palavras, encurte sentenças, deixe a frase mais concisa e clara que puder. Já vi esse dizer atribuído a Hemingway e Carlos Drummond de Andrade, não sei quem o disse, só sei que cabe como uma luva na comédia stand-up: “Escrever é a arte de cortar palavras”.

Tags
Tag é uma coisinha que deve vir depois do punch naquela formulinha mágica de “setup+punch”. Vou exemplificar com uma piada minha:
SETUP: Meu pai me batia quando eu era criança e sei que ele não me batia por mal, ele só fazia isso com medo que eu virasse gay. Graças a isso hoje eu não sou gay, *PUNCHLINE* eu sou masoquista.

A piada poderia acabar por aí. Setup curto, distorção cômica no punch, a piada funciona. Mas que tal colocar uma tag?
TAG: Quando eu transo com uma mulher, eu peço pra ela me chamar de filho e espancar o meu bumbum.

Agora eu tenho duas risadas utilizando apenas um setup. Double de risadas, ótimo, trabalho concluído. Negativo.
TAG: Ela até bate, mas sem a autoridade que eu quero.

Com um único setup, três focos de risada, ótima maneira de acrescentar ritmo ao material.

Colocar mais piadas no texto
Óbvio parece, mas nem todo mundo se toca disso. Se você curte o storytelling, que tão na moda está, não se contente em ter apenas risada ao final de sua historeta. Ninguém merece ou aguenta ficar ouvindo uma pessoa contar uma história de três minutos que supostamente é cômica, mas só se ri no final dela. Mesmo os comediantes que contam histórias longas têm punchlines a cada uma dúzia de segundos.

Essas são apenas algumas maneiras de se conseguir imprimir um melhor ritmo à apresentação. Outro ponto que ajuda é a fluidez do material. Não é gostoso dirigir um carro e nem sentir a mudança de marcha? Na comédia, é a mesma coisa. Cada piada é uma marcha. Se você ficar travando a cada mudança de piada ou mudar da primeira para a quarta marcha, tudo isso fere o seu ritmo. Para tal, é importante ensaiar bastante o texto, saber organizar as piadas dentro de um set de modo que elas se liguem e tenham uma força crescente.

Espero que esse pequeno texto tenha ajudado a quem quer que seja. Vou tentar atualizar com mais frequência o blog, mas para isso preciso da ajuda de você, amigo internauta. Tem alguma dúvida sobre comédia, algum tópico que acha que merece atenção, alguma dificuldade na vida de open mic que queira esclarecer, comente no post contando seu drama que tentarei ajudar-lhe se estiver dentro do meu alcance.

Onde os fracos não têm vez

E ele voltou. O blog ressuscitou tal qual Jesus Cristo. Aqui, sempre me esforcei em dar boas dicas para quem está querendo começar a fazer stand-up comedy, porque penso que o comediante não é só um palerma que “sobe no palco pra falar umas merdas”. Comédia (stand-up e em geral) necessita estudo aprofundado e muita, mas muita prática. E aqui, procuro deixar minha contribuição pra essa arte que tanto me deu ao longo desses (poucos) 8 anos de carreira.

E esse é o intuito real e verdadeiro d’O Nascimento de uma Piada. Nunca foi de minha vontade (ou intenção) expressar opiniões sobre qualquer coisa aqui. O que geralmente apresento são relatos e experiências vividas, que têm como motivação deixar mais claro o entendimento do texto por você, seu leitorzinho de ensino médio. Entretanto, essa semana aconteceu um fato que creio valer a reflexão de meus pares comediantes e quem mais se interessa pela arte de fazer rir.

Pulou na timeline, tal qual um canguru com Eduardo Paes em sua bolsa, o acontecido com Marcela Tavares. Aparentemente, Marcela é uma vlogger que está tentando a migração para os palcos. Apesar disso, ela foi convidada para abrir (com um número de comédia) o show da banda Skank em Nova York. Mas essa não é a notícia. A notícia, dada por imensos veículos de comunicação, como G1, Veja e Estadão, é que Marcelita foi vaiada por ter feito críticas ao Brasil. O vídeo está aqui. Assista que, depois, vamos à peleja.

Um minuto e meio de um belo reboliço, hein? Em tão pouco tempo, a vlogger disse que o Brasil está uma merda, foi vaiada, contou uma piada ruim, foi vaiada mais um pouco e saiu do palco. Vamos às explanações.

Primeiramente, aqui cabe uma lição muito importante que o stand-up gosta de dar, mas que muitos comediantes (ou “comediantes”, com aspas mesmo) se recusam a aprender: o humorista é responsável por tudo o que diz. Tudo o que você fala em cima de um palco causa algum impacto na plateia. E ela responde instantaneamente. Seja com risadas, gargalhadas, aplausos, gritos, silêncio, chiados ou vaias. Isso, talvez, seja uma coisa que alguém como um vlogger não está acostumado. Você vocifera coisas para sua camerinha, ela não reage. Posta no YouTube, ele não impede. Alguém comenta que não gostou, é um hater filho da puta. O palco é um lugar onde os fracos não têm vez. A plateia te dá a resposta imediata, e isso é sim cruel para quem não está preparado. Eles não são haters, são pessoas comuns que não gostaram do que foi dito. E não gostaram a ponto de vaiar.

Provavelmente (e aqui estou trabalhando com suposições, já que não consigo ler mentes), Tavares leu seu público errado. É uma habilidade muito importante essa: saber ler a plateia. Ela deve ter pensado: “um monte de brasileiro em Nova York, deve ser tudo classe alta que odeia a Dilma, vou falar que o Brasil é uma merda que geral vai à loucura”. O que me faz imaginar isso? O simples comentário que ela fez após a primeira onda de vaias. “Então por que vocês estão aqui”? Porque, para ela, aparentemente só sai do Brasil quem odeia o país, e não quem está buscando uma condição melhor de vida para si e sua família, e sofre todo dia com uma saudade absurda da sua terra, e vê em um show do Skank uma oportunidade, mesmo que breve, de recordar o que é ser brasileiro, falar e ouvir sua língua, de relembrar o gosto de sua cultura, de não se sentir um forasteiro, um intruso. Saiba ler sua plateia.

Logo depois, ela saiu do palco. Eu duvido que seu contrato estipulava um show de minuto e meio. “Mas Pedro, ela estava sendo vaiada, o que mais você queria que ela fizesse”? Aguenta. Não escreveu essas piadas? Não pensou que elas eram boas? Então as banque. O público está vaiando? Espere, tente controlá-los. Você é a porra do comediante. Você é o capitão desse navio. Mostre que você está no comando, que você sabe onde está indo, que sabe o que está fazendo. Você é o domador e a plateia é o leão: ou você os controla ou eles te engolem.

Mas a estória não acaba por aí. Tavares, após o show, fez uma “live” para seus fãs na internet. Segue:

Para mim, esse vídeo retrata de maneira gloriosa como funciona a relação “vlogger – stand-up – plateia – fãs”.

Marcela falou besteira, foi vaiada, saiu do palco e depois foi se explicar… com os fãs na internet. Não seria o caso de se explicar com quem estava no local? Isso exemplifica o seguinte: vloggers que fazem stand-up e já começam em teatros lotados, nunca se apresentam para uma plateia de verdade. Eles só fazem performances para seus fãs, que vão adorar cada frase dita e perdoar cada erro cometido. Se você quer ser um comediante de verdade, por mais famoso que seja, comece por baixo. Quem gosta de você, vai rir de tudo. Você não é bom porque fez sua mãe ou sua namorada rir, e sim porque você fez rir um desconhecido bêbado que não queria assistir comédia.

Um caso ótimo de se citar é o do ator Marcelo Serrado. Global, ele começou a fazer stand-up e, claro, lotou qualquer teatro que quis. Apesar disso, o maldito queria melhorar, e foi fazer show fora da sua zona de conforto, longe dos braços de seu público. Não sei se hoje ele é bom ou não, mas posso garantir que ele melhorou. E por que diabos ele fez isso? Porque ele provavelmente se importa com a qualidade do que está apresentando e respeita o stand-up comedy como arte, e não como um caça-níquel.

“Pedro, você é contra os vloggers que vão pro stand-up”? Não. Tenho um pouco de inveja? Sim. Inveja porque eles rapidamente conquistaram um público que muita gente boa pra caralho e que está na estrada há 10 anos ainda não conseguiu. Mas isso não é culpa deles, óbvio. E também não acho que eles prejudicam o stand-up comedy com seus shows superlotados em teatros. Quem vai assistir o Whindersson, Kefera ou Marcela Tavares, não vai porque eles estarão fazendo stand-up, e sim porque eles são quem são. Se eles fizessem números de mágica, malabares ou cagassem em 13 baldes de alumínio, o tamanho do público seria o mesmo. Eles não pertencem ao circuito do stand-up, não vivem o mercado real da comédia. Eles moram em um mundo paralelo, um universo alternativo. Isso também não quer dizer que nenhum deles tenha talento. Nunca vi vlog ou show do Whindersson, mas já ouvi comentários dizendo que é bom. Nunca vi vlog ou show da Marcela Tavares (só o fatídico vídeo acima), mas já ouvi comentários dizendo que é ruim. E é assim a vida. Uns são bons, outros são ruins, uns fazem sucesso, outros não.

O grande ponto desse post é o seguinte: o que aconteceu com Marcela Tavares, não aconteceu porque a plateia era hater, burra ou nacionalista, e sim porque ela não está preparada pra fazer o que está se propondo a fazer. Se ela (ou qualquer outra pessoa) quer ser comediante, quer tratar o stand-up como um modo de vida, e não uma maneira de encher os bolsos com ouro de tolo, ótimo. Então estude, trabalhe, se foda, se levante, trabalhe, se foda novamente, se levante sempre. Se te vaiarem, não chore, repense conceitos, veja o que você fez de errado. Não culpe os outros pela sua falha. Saia da zona de conforto, seja ela qual for, porque ela não te faz bem.

Tente SER um comediante

Uma reclamação comum à beça entre comediantes é que o mercado do stand-up comedy está ficando saturado. Todo dia surgem mais e mais humoristas e os shows estão ficando diminutos. Verdade. Apesar de não concordar que exista um inchaço no mercado (vamos lá, não existem sequer 10 comedy clubs no país todo e nem metade das capitais contam com grupos de stand-up), acredito sim que há uma falta de mão-de-obra qualificada. Abundam “humoristas”, com aspas, escasseiam HUMORISTAS, em letras garrafais.

A internet é uma das mães da comédia stand-up no Brasil. É por ela que vários comediantes divulgaram e ainda divulgam seus trabalhos. É um meio simples, rápido, eficaz e, a princípio, gratuito. Mas nem tudo são flores e unicórnios no belo mundo da internet. Graças à essa facilidade em autopromoção, todos os dias somos afogados por convites para curtir páginas de comediantes que desconhecemos. E desconhecemos ou porque nunca tivemos contato, ou porque não são comediantes mesmo.

Percorrendo não apenas as redes sociais, mas também o mundo real, percebo a crescente sede de humoristas iniciantes por curtidas, seguidores, visualizações e compartilhamentos. Todo open mic tem uma página, uma agenda da semana, uma logomarca, um vídeo que ele espera que bombe e o leve ao estrelato. E, não me entendam mal, cada um tem o direito de divulgar seu trabalho e buscar algum tipo de sucesso. Por mim você pode colocar um outdoor no meio da cidade com a sua foto enrolado no fio de um microfone seguida dos dizeres: “Sou o mais pica, me contrata”. Porém, noto que existem muitos que se preocupam mais em atingir 10 mil curtidas em sua página no Facebook do que em construir 10 bons minutos de material no palco. Se empenham mais em parecer um comediante do que em ser um.

O que faz alguém ser comediante não é o número de visualizações que ele tem no Youtube, nem a quantidade de seguidores no Twitter, tampouco o número de curtidas no Instagram. É o palco. O bom, velho, e maldito palco. O público do bar não se importa em quem tem mais seguidores no Snapchat, e sim em quem é mais engraçado, quem tem o melhor material. Criar uma página no face é fácil. Difícil é criar uma piada foda e original.

Acho ótimo que muitos open mics tenham a consciência de que é necessário ter um canal para divulgar seu trabalho para o público. Muitos humoristas com anos de carreira não têm site ou sequer uma página decente (me incluo nesse grupo de preguiçosos). Mas preocupe-se, primeiramente, em ter um bom trabalho para divulgar. Se empenhe mais em fazer shows do que em divulgá-los. Preocupe-se mais em conseguir escrever 10 minutos ótimos do que fazer com que seu vídeo tenha 100 mil visualizações. É como a Chiquinha, que compra um líquido para polir objetos de prata sem ter nenhum objeto de prata em casa.

Não quero dizer que open mics não devem ter suas páginas, projetos de Youtube, agendas da semana ou vídeos compartilhados. Façam à vontade. Só aconselho que estabeleçam prioridades e sempre, sempre e sempre coloquem como prioridade número 1 melhorar como humorista, escrever piadas mais engraçadas, um set melhor construído, fazer um show cada vez melhor. Quem sabe, se você fizer um show muito bom, alguém que te assistiu queira curtir a sua página.

Porque não adianta tentar parecer um comediante. Tente SER um comediante.

Como começar

A audiência desse blog é, pelo que percebo, majoritariamente formada por aspirantes a humoristas. Pessoas que fazem ou pensam em fazer open mic e que procuram aqui, imagino, dicas para melhorar performance e material. Esse é um dos intuitos d’O Nascimento de uma Piada, sem dúvidas. Mas, mais que técnicas de escrita ou apresentação, tento aqui passar aos iniciantes a ética e o respeito que se deve ter pela arte. Respeitar o meio para ser respeitado por ele. Para quem está querendo ingressar no stand-up, essa é uma lição muito importante, mais até que saber que setup + punchline resultam em uma piada. E, quando falo em respeito, não me refiro apenas a casos que já escrevi aqui, como não roubar material ou nunca estourar o tempo, e sim entender a arte com a qual você está lidando.

Então, o post de hoje será direcionado, principalmente, a quem deseja começar uma carreira no stand-up ou está dando seus primeiros passos na comédia. Mesmo que você não se encaixe nas categorias acima citadas, sinta-se convidado a ler o texto também. Prometo que nada aqui lhe causará cegueira*.

O post não será sobre “como escrever uma piada”. Essa informação você pode encontrar em livros, sites, conversas, basicamente em todo lugar. A Carol Zoccoli fez uma sequência de vídeos explicando bem explicadinho como se escreve uma piada de stand-up. Veja o primeiro deles nesse link (mas não seja um desgraçado ingrato e leia o meu texto antes). Aqui, quero falar mais sobre tratativas e comportamentos. E tentarei ser o mais didático possível, portanto separei tudo em tópicos numerados e muito fáceis de acompanhar, até pra você que não acompanha nada. Simbora.

1) Saiba onde você está se metendo
É muito comum encontrar pessoas que querem começar a fazer stand-up sem ter ideia do que é stand-up. É daí que surgem aquelas figuras que sobem num palco pela primeira vez e começam a contar toneladas de piadas de comediantes que eles viram pelo YouTube, ou então adaptando piadas prontas para a primeira pessoa. Nos dias de hoje, esses são erros inaceitáveis. É inaceitável que você queira fazer stand-up e não saiba que não se pode usar material de outro humorista. Inaceitável. Mais uma vez: inaceitável. Esse é o tipo de coisa que, com o mínimo de pesquisa, se aprende. Está escrito em todo e qualquer lugar e, caso você não tenha encontrado nenhuma linha sobre isso nessa galáxia chamada internet, eu escrevo aqui para você: no stand-up comedy, o humorista deve apresentar apenas piadas escritas por ele ou para ele. Nessa sentença, não existe “porém” ou “mas”. Não há exceções. Esse é o mínimo que alguém deve saber (e praticar) sobre a comédia stand-up. Vamos adiante.

2) Estude, estude, estude e estude
Absorva tudo o que puder sobre o stand-up. Leia todos os livros disponíveis (mesmo os da Judy Carter), veja todos os vídeos que puder no YouTube, procure por entrevistas de seus comediantes favoritos e vá assistir shows ao vivo. Essa exposição a todo tipo de informação sobre a comédia stand-up é muito importante para quem quer ingressar no ramo. Com esse material em mãos, cabe à pessoa filtrar o que lhe serve ou o que deve ser dispensado. Esse é um trabalho que, inclusive, deve ser contínuo durante toda a carreira do comediante. Como em qualquer outra profissão, é importantíssimo se manter atualizado, mesmo que tenha anos de experiência. Adiante.

3) Escreva seu material
Antes de procurar um lugar para se apresentar, você deve escrever algumas piadas para contar no palco. “Mas eu achei que o stand-up fosse feito de improviso. O humorista não inventa aquilo tudo na hora”? Para de ler aqui e volta pra etapa 1, por favor. O material de um comediante stand-up é algo pensado, escrito e reescrito previamente. Se você está começando, eu suplico, não invente de subir no palco sem nada preparado. Isso não vai ser bom pra você, para o público ou para quem te deu oportunidade no show. Escreva seu material antes.
“Mas sobre o que eu devo escrever”? Sobre o que você quiser. Uma velha dica é fazer piadas com algo evidente em você. Gordo, magro, baixinho, altão, careca, perneta, tanto faz. Mas essa técnica não é uma regra, você pode falar sobre qualquer tema. “Quero fazer uma piada sobre AIDS”. Você é livre para isso, mas aqui vai um conselho: a plateia pode até aceitar uma piada ruim sobre relacionamento ou avião (ou qualquer outro tema comum), mas não uma piada ruim sobre AIDS ou estupro (ou qualquer outro assunto delicado). Para o público rir de uma piada sobre relacionamento, essa piada tem que ser boa. Agora, para rir de uma piada sobre estupro, ela deve ser excelente. E, até hoje, eu não me lembro de ter visto um open mic fazer uma piada excelente. Só relembrando: não estou dizendo para você não fazer esse tipo de piada, apenas peço que esteja ciente dos riscos que ela implica.
E, uma última coisa. Escrevi, no primeiro item, que “o humorista deve apresentar apenas piadas escritas por ele ou para ele”. Esse “para ele” é porque, ainda que não muito comum, existem humoristas que contam com redatores, que escrevem piadas para ele ou que o ajudam a escrever. Nos EUA isso é muito corriqueiro, mas no Brasil não adquirimos essa prática. Muitos humoristas são contrários a essa atividade mas eu, particularmente, não vejo problemas. Mas, para quem está começando, eu aconselho a escrever seu próprio material. Isso ajuda o comediante a definir seu estilo de escrita, sua persona e também acelera o seu desenvolvimento. Escreva. Adiante.

4) Procure um lugar para se apresentar
Se você mora em cidades como São Paulo ou Curitiba, basta procurar algum show de stand-up que abra espaço para open mic. Existem, inclusive, algumas noites próprias para isso. Importante: quando você conseguir um open mic, por favor, respeite o tempo. Esse é o principal motivo que leva alguns iniciantes a serem mal vistos pelos comediantes profissionais. Fazer o tempo determinado (3 ou 5 minutos) não é nada difícil, além de significar respeito pelo show e pelos profissionais que te deram essa oportunidade.
Mas a grande maioria das pessoas não mora nesses centros ou próximo a eles. “Não existe nenhum show de stand-up na minha cidade ou na região. O que eu faço”? Crie seu próprio show. Com certeza sua cidade, por menor que seja, tem um bar, um restaurante, uma pizzaria, um teatro, um auditório, algum lugar onde você possa se apresentar.
“Mas eu vou me apresentar sozinho? Não tenho como fazer uma hora de show”. Não precisa. Vá, por exemplo, a algum lugar que tenha música ao vivo e fale com o dono do local, explicando que você é um humorista e que está procurando um lugar para se apresentar. Peça para fazer 10 minutos durante o intervalo do músico. Pronto. Se você conseguir fazer isso uma vez por semana, já vai estar se apresentando mais que muita gente nos grandes centros. Além disso, essa “ousadia” incentiva outras pessoas que queiram se apresentar. Tenho certeza que tem uma ou duas pessoas na sua cidade que também morrem de vontade de começar a fazer stand-up. Afirmo que, se elas souberem que alguém está se apresentando na cidade, vão se interessar em fazer também, e isso pode ser o início de um grupo na sua região. Com um show completo, vocês podem até pleitear uma noite no bar só para vocês.
“Mas eu sou ruim, ninguém vai deixar eu me apresentar”. Eu tenho certeza que é, mas ninguém nasce sabendo. Um comediante só melhora subindo no palco e fazendo shows. E outra: se não tem nenhum humorista na sua região, eles terão que se contentar com você. Mas não se conforme com isso, por favor. Se esforce para melhorar e dar ao seu público o melhor show que você puder.

5) Siga em frente
A partir daqui, é só seguir em frente. A caminhada de um humorista não é tão fácil e gloriosa quanto parece, mas eu acredito que, se você ama de verdade a comédia, tudo vai valer a pena. Desde os shows ruins para quase ninguém, passando pelo dinheiro inexistente nos primeiros anos de carreira até a luta diária para ter um lugarzinho para desenvolver seu ato. São percalços que você deve enfrentar para se tornar, um dia, um comediante. E, aqui, vão uns últimos conselhos: continue estudando e procurando evoluir. Nunca se sinta plenamente satisfeito ou confortável com o que você está fazendo. Saia da zona de conforto. Nunca recuse tempo de palco. Não diga nem faça o típico “não me apresento nesse bar, o público aqui é horrível”. Ótimo, se o público aqui é horrível, então é aqui que você deve se apresentar cada vez mais. Se você faz o publico ruim rir, fará o público bom mijar. E, o mais importante, respeite o meio que o meio vai te respeitar. Seja correto com seus colegas e com a sua arte e eles farão o mesmo com você.

Espero ter ajudado você que quer começar ou já começou no stand-up. Seguindo esses passos, não posso garantir que você vai ser um bom comediante, mas será sim um bom profissional. E isso já é boa parte do caminho.

Sei que faz tempo que não posto nada aqui no blog. Não me sinto em dívida com nenhum de vocês porque, bem, eu não tenho obrigação de porra nenhuma. Só pra esclarecer que eu dei um tempinho no blog porque estou preparando algumas coisas bem legais que vou divulgar em breve.

Sai da chuva moleque.